Caro Elon Musk,

Este fim de semana ficámos a saber que Portugal está alegadamente numa lista de potenciais países que podem vir a receber a primeira grande fábrica de produção de veículos Tesla na Europa [a fábrica na Holanda é maioritariamente de montagem].

Como entusiastas das tecnologias que somos – fale com qualquer tecnológica que está em Portugal e dir-lhe-ão que os consumidores portugueses são early adopters -, vemos Portugal como um destino natural para a Tesla.

Claro que todos os países gostavam de receber um mega investimento de uma das empresas mais promissoras do mundo. Mas não só vocês podem fazer algo por nós, como nós temos algo para oferecer à marca, da mesma forma que já oferecemos a outros fabricantes automóveis.

Isto não é só conversa de circunstância, existem de facto elementos que tornam o nosso país num forte candidato para a instalação de uma fábrica de veículos elétricos em território luso. Deixamos aqui cinco razões pelas quais o relacionamento ‘Tesla+Portugal’ pode dar certo.

E nem nos importamos que a resposta venha outra vez só em forma de ‘Ok’, como aconteceu da última vez.

Saudações elétricas!

Tesla

Inovação legislativa

O Governo português sabe que a inovação é um motor importante para o desenvolvimento de qualquer economia. E também sabe que muitas das inovações que surgem estão numa primeira fase condicionadas por questões regulatórias – ou pela falta delas.

O secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, já assumiu mais do que uma vez que o objetivo é tornar Portugal num paraíso tecnológico. Estão a ser criados grupos de trabalho específicos que vão ajudar a criar regulamentação para que empresas de todo o mundo encontrem em Portugal um espaço de investigação e desenvolvimento amigável.




Por exemplo, Portugal vai ser dos primeiros países a ter uma legislação específica para serviços como a Uber. Ainda este ano o novo quadro legal deverá entrar em vigor. A Tesla também quer ter uma frota de veículos autónomos a funcionar como transportes públicos, certo?

Depois há justamente a questão dos veículos de condução autónoma. Em 2017 Portugal conta ter legislação que permitirá que estes sistemas experimentais sejam testados em território português. Não é segredo que a questão dos veículos autónomos é nuclear para a Tesla, portanto parece-nos que neste aspeto há aqui claramente um match.

Exposição solar

Foram apontados vários motivos para Portugal ter conseguido ficar com a organização do maior evento de empreendedorismo do mundo, o Web Summit, durante três anos. Um dos que foi referido mais vezes foi o bom tempo.

Sim, em Portugal o Sol ganha claramente às nuvens e à chuva. Estes mapas da organização Solargis ajudam a entender o potencial que o país tem.

Energia Solar Portugal

Portugal ocupa ainda a 11ª posição a nível global – num total de 126 países analisados – na performance energética analisada pelo Fórum Económico Mundial.

Mas em Portugal não é só o Sol que é um bom produtor de energia elétrica. Também o mar e o vento jogam a nosso favor. “Entre janeiro e maio deste ano, só as barragens e as eólicas produziram quase 70% de toda a eletricidade gerada em Portugal Continental”, escreveu o Diário de Notícias em junho.

Portugal já esteve quatro dias e meio, seguidos, totalmente alimentado por energias renováveis. Supomos que este é o tipo de feitos que a Tesla procura num possível parceiro.

Elon Musk já disse que a ‘Gigafactory 2’ irá produzir não só carros, mas também baterias elétricas

Só para terminar, vale a pena referir que esta semana o primeiro-ministro, António Costa, reforçou a estratégia de longo prazo de Portugal relativamente às energias limpas e às preocupações com o meio ambiente.

“Queremos, assim, dar o exemplo e estamos já a preparar o processo de revisão do nosso Roteiro de Baixo Carbono para 2050 com o objetivo de sermos neutros em emissões de gases com efeito de estufa até ao final da primeira metade do século”, disse, citado pelo Jornal de Notícias.

Experiência no sector automóvel

Portugal é um país que tem experiência na produção de automóveis. Atualmente operam em Portugal quatro grandes fabricantes:Volkswagen Autoeuropa, PSA Peugeot Citroen, Mitsubishi Fuso Truck Europe e Toyota Caetano. Também a Ford e a General Motors já tiveram uma unidade de produção em terras lusas.

A esmagadora maioria da produção feita em Portugal é exportada para países europeus, com a Alemanha, a Espanha e o Reino Unido a encabeçarem a lista de principais clientes.

Além da produção de veículos per si, Portugal tem ainda uma forte indústria de produção de componentes automóveis. De acordo com dados da a Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), em 2015 existiam cerca de 200 fabricantes de componentes automóveis em Portugal, incluindo nomes importantes da indústria: Continental, Delphi, Faurecia, Renault Cacia e Bosch.

“A indústria de componentes para automóveis em Portugal tem muitas vantagens competitivas que lhe conferem um elevado reconhecimento, como a mão-de-obra qualificada, a componente exportadora das empresas, a capacidade de produção flexível, o nível de qualidade, o elevado investimento, o grau de inovação da engenharia e a aposta contínua na formação e na valorização profissional dos seus recursos humanos”, lê-se na publicação Portugal Global, da AICEP.



Um exemplo que ajuda a dar um ‘rosto’ a esta ideia: recentemente a Bosch anunciou um investimento de 55 milhões de euros em parceria com a Universidade de Braga para o desenvolvimento de novas tecnologias direcionadas para o segmento da mobilidade.

Se Portugal tem experiência na produção de veículos, o país também tem muita experiência no segmento da distribuição. Portugal está no centro do mundo, tendo por isso uma posição privilegiada de distribuição. Além de conseguir alimentar os mercados europeus, também pode ser uma boa porta de entrada para os mercados no continente africano.

Mais perto do lítio

Um estudo publicado em 2015 pelo United States Geological Survey, colocava Portugal como o sexto país com maior produção de lítio do mundo e com as quintas maiores reservas.

Em 2014 Portugal extraiu 570 toneladas de lítio

O lítio é o elemento chave para a produção das baterias que alimentam os veículos elétricos da Tesla. Este bom posicionamento de Portugal pode ser apelativo para a fabricante norte-americana, que ficaria assim mais perto de uma matéria-prima que lhe é essencial.

A Tesla já mostrou que valoriza o facto de poder estar perto do lítio, tendo inclusive no passado tentado comprar uma empresa que estava a testar novas formas de extração deste metal.

Comunidade dedicada

Comprar um Tesla em Portugal pode ser um ato de ‘loucura saudável’, como disse o presidente do conselho diretivo da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE), Henrique Sanchéz, no primeiro encontro de veículos Tesla em Portugal.

Henrique Sanchéz referia-se ao facto de o centro oficial mais próximo de Portugal estar a cerca de 1.200 quilómetros de distância, situando-se na cidade de Bordéus, em França.

Tesla admite a possibilidade de vir a ter duas ou três unidades de produção na Europa

Mas nem este facto impede que já existam cerca de cem veículos da Tesla a circular nas estradas portugueses. Um quinto desses veículos marcou presença no encontro realizado em Lisboa em maio.

É caso para dizer que estes consumidores são poucos, mas bons. As notícias sobre o evento propagaram-se na internet e foram muito além dos meios de comunicação portugueses. Isto porque o encontro tinha como objetivo chamar a atenção da Tesla para a necessidade de um centro de suporte mais próximo do país.

A propagação do pedido chegou a Elon Musk, que na altura partilhou uma notícia relativa ao evento português e respondeu com um sempre misterioso ‘Ok’.

Tesla

Existem países que certamente terão melhor desempenho do que Portugal em alguns destes argumentos. Mas o potencial do país está justamente na mistura pouco comum de todas estas vantagens. Há energia solar em abundância, existem políticas favoráveis à inovação tecnológica, legislativa e ambiental, há experiência na indústria automóvel, há lítio e há um posicionamento geográfico que mais ninguém tem.

Por fim é importante deixar claro que os argumentos que aqui foram expostos também podem ser usados como convite para qualquer fabricante automóvel que tenha planos para desenvolver veículos elétricos. Parece cada vez mais certo que o futuro da mobilidade vai passar por veículos mais amigos do ambiente – Volkswagen, BMW, Mercedes e Jaguar são exemplos de marcas que estão a trabalhar num futuro ‘verde’.

Se esta mudança nas estratégias das empresas implicar investimentos em novas fábricas e não apenas a reconversão das que já existem, então definitivamente Portugal deve ser considerado no plano de investimentos.