13 de outubro de 2016 – esta data diz-lhe alguma coisa? Não? Foi neste dia que a Sony lançou os PlayStation VR, os óculos de realidade virtual dedicados para sua a consola doméstica e que trouxeram algo de novo para o mercado. O quê? Simples, pois embora não sejam tão avançados quantos os concorrentes HTC Vive e Oculus Rift, os PlayStation VR trouxeram a realidade virtual a um maior número de pessoas, muito pelo facto de terem a consola mais vendida da atualidade a suportá-los, mas também pelo preço de 400 euros, algumas centenas de euros abaixo dos rivais mais diretos.

Hoje assinalam-se os primeiros 200 dias da aventura comercial da Sony no mundo da realidade virtual. Ainda que a Sony Interactive Entertainment (SIE) seja um dos nomes grandes no segmento dos videojogos, a verdade é que a realidade virtual foi e é para a empresa toda uma nova experiência. Os desafios que a tecnologia coloca – como a necessidade de criar um forte nível de imersão sem que isso enjoe os utilizadores – ainda são iguais para todos.




No final de fevereiro deste ano a SIE comunicava que os PlayStation VR já tinham vendido 915 mil unidades em todo o mundo, o que estava muito em linha com o objetivo da empresa de vender um milhão de unidades nos primeiros seis meses. Números da consultora SuperData colocam mesmo os PlayStation VR bem à frente dos Oculus Rift e dos HTC Vive ao nível das vendas. Os dados apontam todos no mesmo sentido: os PlayStation VR tiveram um lançamento comercial forte. Mas será que isso diz tudo sobre os óculos?

Agora que os primeiros 200 dias de mercado estão cumpridos, olhamos novamente para a experiência que temos tido com os PlayStation VR e olhamos para aquilo que os próximos 200 dias podem trazer.

O lançamento

Em outubro de 2016 os PlayStation VR chegavam ao mercado com um bom catálogo de jogos, embora grande parte desta biblioteca fosse ocupada por experiências curtas, muitas delas sem ultrapassarem a marca de uma hora de jogo seguido para serem concluídas. Não é um problema específico do ecossistema dos PlayStation VR, mas para jogadores que estão habituados a dedicar largas dezenas de horas a alguns títulos, este conceito podia provocar alguma confusão inicial.

Entre os jogos disponíveis no lançamento estavam títulos como DriveClub VR, Batman: Arkham VR, Battlezone, EVE: Valkyrie, Here They Lie ou mesmo o conjunto de pequenas experiências que compunham o jogo PlayStation VR Worlds. O catálogo era equilibrado na tipologia de experiências que proporcionava e apresentava algumas exclusivas, o que ajudava a justificar o investimento inicial.

Depois do período inicial dos PlayStation VR, o próximo grande lançamento estava reservado para janeiro de 2017. Tratava-se de um jogo compatível com os PlayStation VR e não de um título exclusivo para os óculos da SIE. No dia 24 de janeiro de 2017 era lançado o tão aguardado Resident Evil VII: Biohazard e a crítica especializada escreveu maravilhas sobre o novo titulo da Capcom – também pode ler a nossa opinião sobre o jogo.

Terá este lançamento impulsionado as vendas dos óculos VR da Sony? Não sabemos, mas a verdade é que as estatísticas apresentadas pela Capcom mostram números muito animadores: dos cerca de dois milhões de jogadores de RE7, 200 mil jogaram-no através dos PSVR.

Desde então não vimos mais lançamentos que tenham sido muito significativos ou que tenham ajudado a mover a agulha mediática sobre os PlayStation VR. O próximo grande título a chegar para a plataforma é Farpoint, já durante o mês de maio. Através de um acessório dedicado o jogo promete dar um maior grau de imersão à experiência e é bom ver este compromisso por parte da Sony relativamente à realidade virtual.

A verdade é que até aqui a estratégia da SIE tem resultado e as vendas foram bastante animadoras. Mas mais está para vir e é possível que títulos como GT Sport, que está prometido para 2017, venha puxar ainda mais jogadores para o universo da realidade virtual. Os fãs da franquia são muitos e é possível que grande parte deles queira sentir toda a experiência trazida pela realidade virtual ao mundo dos simuladores de condução, algo que já experienciámos com Driveclub VR.

Nesta fase de lançamento a SIE concentrou muitas das suas forças em promover o hardware, o conceito e as experiências. A publicidade ao novo hardware estava presente em todos os canais de comunicação da empresa e em Portugal até foi criado um espaço de testes para os fãs poderem experimentar em primeira mão os óculos de realidade virtual.

Depois do lançamento a estratégia passou pela criação de espaços reservados para os óculos em retalhistas de eletrónica espalhadas pelo país, permitindo assim aos consumidores experimentarem o hardware antes de investir no mesmo. Não é todos os dias que podemos experimentar estes produtos antes de os comprar. A especificidade da realidade virtual assim o exige.

Mas se na fase de lançamento tudo parece estar a correr bem – basta lembrar o que aconteceu com a PlayStation Vita -, a fase pós-lançamento é bem mais crítica. Conseguirão os PlayStation VR ser apelativos suficientes, recorrendo a novos videojogos, para continuar a adicionar mais jogadores às suas fileiras? Ou terá a Sony que continuar a fazer um grande esforço de marketing para rentabilizar esta sua nova proposta?

Do lado do Facebook, por exemplo, já vimos um recuo na promoção dos Oculus Rift em lojas norte-americanas. Os primeiros dias dos PlayStation VR foram francamente positivos, mas os próximos 200 dias vão ser um grande desafio.

O que andei a jogar

O meu gosto por tecnologia e a vontade que tenho em experimentar o que há de novo no mercado das novas tecnologias faz-me comprar com regularidade novos gagdets que quero ter no meu dia-a-dia. Posso dizer que os PlayStation VR foram a compra mais ponderada que fiz dentro da tecnologia, talvez por ser necessário um investimento maior [tendo em conta que a PlayStation Camera é obrigatória e não vem incluída aquando a compra dos óculos] ou talvez por ser algo completamente diferente do que até aqui estava habituado.

Li, vi, ouvi, voltei a ler e fui a um dos pontos de teste que a Sony tinha espalhados pelo país em lojas de eletrónica para experimentá-los. Gostei do que experimentei, os jogos disponíveis eram diversificados e lá esta, era algo novo para conhecer.

Já estão disponíveis mais de 90 experiências para os PlayStation VR

Decidi adquirir os PlayStation VR e o primeiro título que experimentei foi DriveClub VR, como grande fã de simuladores de condução achei que seria o titulo indicado para começar a entender o mundo da realidade virtual. Foi giro, mas não foi das melhores sensações do mundo e a verdade é que depois de duas semanas o jogo não voltou a sair da gaveta.

Desde então experimentei mais alguns títulos – Sports Bar VRHere They LieUntil Dawn: Rush of Blood e também Robinson: The Journey. Este último foi o que mais curiosidade me despertou, um mundo cheio de paisagens fantásticas, criaturas surpreendentes e alguns puzzles bastante agradáveis e que nos fazem pensar para conseguirmos resolvê-los. Não se tratando de uma review ao jogo, não me quero alongar muito, mas já se imaginou num mundo recheado de criaturas do passado e com um T-Rex como animal de estimação? Certamente um título a não perder caso tenha ou queira investir nos PlayStation VR, posso garantir que terá pela sua frente algumas horas de diversão e talvez alguns sustos.

Robinson The Journey PlayStation VR

Robinson: The Journey

Until Dawn: Rush of Blood é um jogo simples que consiste em ter boa pontaria e acertar nos inimigos que vão aparecendo ao longo de uma viagem de carrossel pouco convencional. Alguma vez foi à feira popular e experimentou um daqueles carrosséis que nos fazem lembrar uma casa assombrada? Onde a cada canto aparece uma nova criatura que nos vai assustar? Until Dawn: Rush of Blood é isto, um viagem assustadora pelo universo de Until Dawn que também promete momentos de diversão, principalmente para quem estiver consigo enquanto joga. Prepare-se para deixar escapar alguns gritos…

Until Dawn: Rush of Blood PlayStation VR

Until Dawn: Rush of Blood

Já Here They Lie é um jogo em tons monocromáticos onde nos encontramos dentro de um mundo distorcido e com alguma capacidade para nos assustar. Começamos o jogo com uma viagem de comboio onde vemos coisas que afinal não estão lá, onde a carruagem está a arder, mas não nos queima. No fim desta viagem chegamos a uma estação de comboios deserta de uma cidade também ela vazia. Uma cidade fantasma que vai colocá-lo à prova com algumas escolhas difíceis. Um jogo que recomendo, mas com uma nota de precaução… Este foi o primeiro título que me causou algum desconforto e que me fez sentir o efeito de enjoo, conhecido como motion sickness.

Here They Lie PlayStation VR

Here They Lie

Voltando atrás no artigo tenho a dizer que a melhor experiencia que tive até agora com os PlayStation VR foi a jogar Resident Evil VII, o tal lançamento de peso para os óculos de realidade virtual. Jogo intenso, com pormenores fantásticos e que tem muito a beneficiar com a realidade virtual, transportando-nos claramente para dentro da ação. Mas mesmo assim acabei por concluir o jogo de forma convencional, num TV. E isto é dizer muito não só daquilo que a realidade virtual tem para evoluir, mas também daquilo que os estúdios têm de aprender para os PlayStation VR.

RESIDENT EVIL VII Biohazard

Resident Evil VII

Com o passar das semanas o meu interesse pelos PlayStation VR foi perdendo algum gás. As coisas só pioraram desde que fiz o upgrade para a PlayStation 4 Pro. Dito assim parece estranho, mas quando se tem em conta que a PlayStation 4 Pro só aceita definições Ultra HD quando ligada diretamente ao televisor, talvez isto deixe as coisas mais claras. Ora acompanhe…

Ligo o televisor e jogo Horizon Zero Dawn em Ultra HD e HDR para beneficiar das paisagens surpreendentes e da gama de cores fantástica que o jogo nos oferece. Imaginando que passada meia hora lembro-me de fazer uma pausa e passar para DriveClub VR, para conduzir a alta velocidade: vou ter que me levantar do sofá, desligar o cabo HDMI que faz a ligação PS4-TV e conectar um novo cabo que faz a ligação PS4-PSVR e outro do processador externo dos PlayStation VR à TV. Se mais à frente quiser retomar Horizon Zero Dawn, tenho que repetir o processo, mas em sentido contrário. Confuso? Sim, confuso e trabalhoso.

Quando adquiri os óculos o entusiasmo era notório e sempre que ligava a PlayStation era para jogar com o novo sistema de jogo, mas à medida que o factor novidade começou a estar mais distante e foi substituído pela vista cansada e alguma sensação de alienação em relação às pessoas que estão connosco quando jogamos, os óculos passaram a ficar mais parados e voltei a jogar mais de forma convencional.

No futuro gostaria de experimentar o GT Sport em realidade virtual. Mas considerando que o que mais me agrada nos títulos da franquia Gran Turismo são os detalhes visuais ricos que nos são oferecidos e que esses detalhes certamente não estarão disponíveis na vertente VR do jogo, não me vejo a aproveitar os Playstation VR da melhor forma pois vou continuar a preferir uma experiência UHD com HDR da PlayStation 4 Pro.

A Sony tem de perceber que os PlayStation VR são uma consola à parte e que vai precisar de garantir um fluxo de jogos interessantes e que prometem de facto algo de diferente que na experiência de jogo tradicional não vamos conseguir. Na minha opinião, os títulos exclusivos que vão chegar em 2017 não me puxam para a realidade virtual e os que são híbridos – têm modo VR e modo tradicional – vou provavelmente preferir jogá-los de forma convencional. Espero que as novidades reveladas na E3 não deixem os meus PlayStation VR parados por muito tempo.

Os PlayStation VR estiveram em desenvolvimento durante cinco anos e meio

Mas isto sou eu a partilhar a minha experiência – talvez alguns consumidores possam rever-se nela, outros certamente que não e estarão 100% satisfeitos com os PlayStation VR. Se os jogos disponíveis despertam-lhe interesse, se não lhe incomoda perder definição nos jogos, se tem capacidade para fazer tal investimento e se a realidade virtual é algo que espera que irá ocupar uma parte do seu tempo enquanto jogador, os Playstation VR são uma boa opção. São mais em conta do que os seus concorrentes diretos e garantem de longe uma melhor experiência que os dispositivos de realidade virtual mobile.

A realidade virtual ainda é uma criança e quero acompanhar o seu crescimento e desenvolvimento. Quem sabe se com uma tecnologia mais madura a realidade virtual não será mesmo o futuro do gaming e dos eSports. Afinal, promete aquilo que muitos de nós sempre procuraram: poder viver o jogo na primeira pessoa, como se estivessemos mesmo lá.

Os próximos 200 dias

Os PlayStation VR são muito provavelmente os óculos de realidade virtual mais comercializados com 915 mil unidades vendidas, número que deverá ser suficiente para captar o interesse dos estúdios para que desenvolvam mais títulos AAA e títulos experimentais.

A E3 esta a aproximar-se a passos largos e é lá que a SIE terá que mostrar o seu empenho para com o novo sistema de jogo, de forma a captar ‘velhos’ e novos jogadores. Até agora não são muitos os grandes títulos prometidos para os PlayStation VR para 2017. Temos Farpoint com chegada anunciada para 16 de maio e GT Sport com data ainda a anunciar, mas previsto para o decorrer de 2017. Será que teremos surpresas para a E3? Espero que sim. A Sony precisa de fechar a diferença de experiências de realidade virtual que existe entre os PSVR e os Oculus Rift e os HTC Vive.

Outro problema que a Sony terá de enfrentar é o grande desenvolvimento do mundo mobile. A realidade virtual para o universo móvel esta cada vez melhor e com o aparecimento de telemóveis cada vez mais poderosos também as experiências mobile VR estão a ficar mais interessantes. Exemplo disso é EVE: Gunjack, um jogo que tanto está acessível para os Oculus Rift como para os Gear VR da Samsung.

PlayStation VR

Nem todos os jogos são compatíveis com os PlayStation Move, o que é uma pena. #Crédito: SIE Portugal

O universo de experiências e aplicações disponíveis para os PlayStation VR tem crescido e, por exemplo, a adição do YouTube e do seu repositório de vídeos imersivos foi muito bem-vinda. É este o caminho. Que tal uma experiência como o Facebook Spaces para os PSVR, onde podemos conviver com outras pessoas em ambiente VR? Para que a realidade virtual seja bem-sucedida a aposta vai passar muito por jogos – pelo menos foi para isso que comprei os PlayStation VR -, mas isso não significa que as outras áreas não devam conhecer também uma grande aposta.

O hardware está concretizado e está bem concretizado – a médio prazo será importante acrescentar melhorias, como experiências de larga escala e que possam criar um maior grau de imersão. Mas agora a aposta da Sony deve ser feita toda no software. Será importante que a SIE garanta novas aplicações e experiências melhoradas, mais maduras e que cresçam lado a lado com o desenvolvimento geral da realidade virtual.

Estes primeiros 200 dias foram de descoberta, de divertimento e também de alguns enjoos. Jogar em VR é diferente de jogar num televisor e foi justamente esta diferença que me fez apostar nos óculos da Sony. Se estou totalmente satisfeito? Nim. Vejo e acredito no potencial da realidade virtual, mas para um equipamento que custou tanto como uma consola nova esperava mais. Este não foi um investimento de impulso, foi um investimento a longo prazo. Se a Sony corresponder na criação de um bom ecossistema VR, podem ter a certeza de que vou corresponder com várias horas de jogo nos PlayStation VR.

Eu já fiz a minha parte. Agora é a tua vez Sony.

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