Quando precisamos dos serviços Google eles estão lá para nós. Algum leitor já tentou aceder ao motor de busca e por algum motivo ele não estava disponível? É raríssimo. Mas a verdade é que nem a Google, uma das maiores tecnológicas do mundo, consegue garantir que os seus principais serviços estão sempre disponíveis.

De acordo com uma reportagem da Wired, as principais ferramentas da Google tiveram um uptime de 99,97% durante o ano de 2015. Aqueles 0,03% que ali faltam podem não parecer relevantes, mas traduzindo isto para outra métrica significa que no ano passado o conjunto de ferramentas que engloba o motor de pesquisa e o Gmail, entre outros, não funcionou, no total, durante 158 minutos. Para serviços universais como estes agora já parece bastante, certo?

A Google conseguiu este feito – sim, porque é um feito – acima de tudo apostando na automatização dos processos. Ou seja, tem software automático a tomar conta dos seus serviços, o que de certa forma afasta a hipótese de erro humano, uma das falhas mais comuns quando falamos de Internet e serviços tecnológicos.

Um outro exemplo. Em janeiro de 2015 o Facebook, a maior rede social do mundo, esteve sem funcionar corretamente durante uma hora e foi notícia em quase todos os meios de comunicação. Mais: as pessoas foram usar outras redes sociais para comentar o tema e há relatos até de quem tenha ligado, nos EUA, para o número de emergência a alertar para esse facto.



Estes são os casos de empresas com estruturas gigantes e de quem as pessoas esperam nada mais, nada menos do que fun-ci-o-na-mento. Se vão ao Facebook, esperam que funcione. Se acedem ao YouTube, esperam que funcione. E este mantra do ‘always on’ está mais do que nunca estendido a outros aspetos da nossa vida.

Vai meter gasolina e a bomba não funciona. Vai fazer uma transação bancária e o multibanco está ‘em baixo’. Quer fazer uma chamada, mas não tem rede. Qualquer uma destas situações provoca algum mal-estar no utilizador por não ter correspondido à tal expectativa do ‘always on’, isto é, de estar acessível quando é necessário.

Num mundo cada vez mais digitalizado e conectado, as consequências de não estar disponível quando os clientes assim o pedem pode ser um desastre para a marca. Por isso é que cada vez mais empresas apostam em serviços de recuperação de desastres pois simplesmente não se podem dar ao luxo de estar ‘fora de jogo’.

A IBM é um nome grande no que diz respeito à recuperação de sistemas de informação e organizou em Lisboa um evento dedicado ao tema. A gigante norte-americana trabalha há 35 anos na área da gestão de desastres, que é como quem diz, há mais de três décadas que tem vindo a lutar contra a Lei de Murphy.

Esta lei – que na realidade acaba por ser um ditado popular internacional – diz que ‘se algo de errado puder acontecer, vai acontecer’.

Quando o Sr. Murphy bate à porta

Que o diga a Sogrape, uma das maiores empresas portuguesas ligadas à área da produção de vinho. Como contou o seu diretor de sistemas de informação, Carlos Alves, a empresa ficou dois dias ‘às escuras’ pois uma retroescavadora cortou os cabos de alimentação dos seus sistemas em 2010. A partir desse momento a Sogrape passou a dar uma maior prioridade aos sistemas de informação. Teve de aprender da forma mais difícil, mas é um bom exemplo das inesperadas e estranhas formas como a Lei de Murphy ataca.

Para grandes problemas, grandes remédios. Nesta luta contra os infortúnios da vida de uma empresa a IBM tem agora um aliado de peso: os seus sistemas análise de dados e previsão cognitiva.

Os tempos são de mudança. Da mesma forma que a gestão de desastres agora não se faz só assegurando que os centros de dados não são afetados por terramotos ou tornados, o próprio conceito de gerir recuperações pode ter os dias contados.

“A resiliência já não é recuperar os sistemas, é prever quando é que eles vão falhar. É aqui que entra o segmento cognitivo da IBM”, disse a diretora-geral da IBM para a área da resiliência, Laurence Guihard-Joly, no evento IBM Resilience Day.

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Crédito: OpenClipArtVectors / Pixabay

“Por exemplo, antecipar falhas em centros de dados ou então conseguir fazer uma análise das várias falhas que foram ocorrendo ao longo dos tempos numa determinada infraestrutura. Se conseguirmos juntar toda esta informação e conseguirmos trazê-la para as organizações, se conseguirmos evitar que as falhas ocorram, então a computação cognitiva também contribui para esta resiliência”, tinha referido alguns momentos antes o diretor de serviços tecnológicos da IBM Portugal, João Gonçalves.

“Não de se trata de ‘ser ou não ser resiliente’. Se não fores estás fora do negócio. Isso é óbvio atualmente. Daqui a três anos será tudo ainda mais cognitivo. Nem vamos pensar. Tem de estar lá”, explicou depois Laurence Guihard-Joly em conversa com a imprensa, à margem do evento.

“Sempre que há uma interrupção, espalha-se logo pelas redes sociais e pela imprensa. É muito mau para a reputação da marca. Por isso é que há três, quatro anos era uma discussão entre a divisão de TI, agora é ao nível da administração e do diretor executivo. A tua reputação está em jogo. Se alguma coisa correr mal, todos vão saber”, acrescentou.

Ter sistemas redundantes e que permitem a uma empresa estar, quase seguramente, 100% do tempo no ativo é possível, mas acarreta os seus custos. Algo que para a especialista francesa em recuperação de desastres pode ser doseado com um pouco de planeamento.

Os diretores de TI bem como os líderes das restantes áreas de negócio de uma empresa precisam de perceber, dentro da sua estrutura, quais são os serviços mais críticos e quais são os que de certa forma podem levar mais tempo a recuperar.

“O dilema num negócio é saber qual o custo do risco. Se a minha organização parar durante o fim de semana, qual vai ser o impacto no meu negócio? E qual é o custo de prevenção dessa situação?”, questionou numa perspetiva de investimento.

Na prática o que a IBM pretende atingir com os seus sistemas cognitivos é ser para as empresas um pouco o que a Google é agora para a maior parte dos internautas: um local que sugere respostas com base nos nossos interesses e com um elevadíssimo grau de confiança. E esta evolução está a acontecer também na área do consumo, mas num patamar diferente, através da plataforma Viv, por exemplo.

Será possível, algum dia, confiar totalmente a nossa empresa a um sistema cognitivo, seja da IBM ou de outra tecnológica? Sabendo ainda para mais que o Sr. Murphy continua e continuará por aí? Esta resposta nem Laurence Guihard-Joly se atreve a dar.