Nos últimos anos assistimos à popularização dos bloqueadores de anúncios, conhecidos como adblockers. São ferramentas criadas acima de tudo para proteger os utilizadores dos anúncios online intrusivos, mas numa análise mais abrangente sempre foram ferramentas para proteger a privacidade daqueles que navegam pela internet.

Segundo dados da PageFair, 615 milhões de pessoas em todo o mundo utilizam adblockers no computador, no smartphone ou no tablet. Till Faida, diretor executivo da Eyeo GmbH, empresa responsável pelo Adblock Plus, disse ao FUTURE BEHIND no final de 2016 o porquê de tanta popularidade relativamente aos adblockers.

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“Penso que cada vez mais pessoas estão frustradas com as experiências dos anúncios online: são demasiado intrusivos, muito chatos, as pessoas estão preocupadas com a privacidade e a segurança. Existem muitas razões pelas quais as pessoas querem ter controlo sobre o browser e a experiência de publicidade”, salientou na altura o CEO da Eyeo GmbH.

Foi justamente o Adblock Plus a ferramenta que protagonizou um dos momentos mais marcantes do ano passado – a empresa responsável pela ferramenta esteve envolvida numa ‘guerra’ com o Facebook. A Eyeo GmbH, através da sua comunidade, arranjava formas para bloquear os anúncios do Facebook e logo depois o Facebook arranjava formas para contornar o bloqueio, para depois a Eyeo GmbH descobrir nova forma de bloqueio e por aí em diante.

O Facebook acabou por levar a melhor nesta batalha – o poder de investimento e a capacidade de recrutamento dos melhores profissionais faz com que o Facebook atualize quase todos os dias o código da sua plataforma para evitar que os anúncios sejam bloqueados.

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A luta entre as duas partes foi interessante, pois em certa medida representou um braço-de-ferro entre ideais de internet – há quem queira uma rede pura, livre de anúncios intrusivos e um maior respeito pela privacidade; do outro lado há quem viva justamente da publicidade e dos metadados recolhidos através da atividade dos utilizadores nos sites.

Mas esses tempos já lá vão. Em pouco mais de um ano o panorama dos adblockers mudou por completo. Por força dos acontecimentos, estas ferramentas tornaram-se em verdadeiros escudos protetores para quem utiliza a internet, pois quase todos os dias há quem descubra uma nova forma de se intrometer na experiência digital alheia.

Criptojacking

Recentemente escrevemos sobre como o Bitcoin está a transformar-se numa tecnologia consumidora de grandes quantidades de energia, algo que tem um impacto energético e ambiental negativos. A questão é que quase todas as criptomoedas funcionam na mesma lógica, querendo isto dizer que o consumo energético representa um papel fulcral nas divisas digitais.

Daí que algumas empresas tenham integrado nos seus sites scripts de mineração, ou seja, programas que utilizam o poder de computação e energia dos visitantes para minerar criptomoedas. A primeira grande polémica esteve ligada ao site The Pirate Bay que conduziu uma experiência a este nível, mas não avisou os seus utilizadores.

As pessoas começaram a sentir os seus computadores mais lentos enquanto navegavam no The Pirate Bay, o que levou à descoberta de um script para mineração de Monero, uma de várias criptomoedas em ‘circulação’. Fonte oficial do site disse que a experiência estava a ser conduzida como uma nova forma de gerar receitas, em alternativa à publicidade tradicional.

Umas semanas mais tarde descobriu-se que o site da rede de televisão Showtime também usou a mesma técnica para gerar Monero. Muitos outros terão feito e ainda fazem o mesmo, mas provavelmente os utilizadores não descobriram, pois esta é uma ‘ameaça’ invisível.

A publicação Wired descreve esta atividade como criptojacking, ou seja, roubar os recursos dos dispositivos das outras pessoas para produzir criptomoedas. Esta é uma atividade que já começa a ganhar popularidade inclusive junto dos piratas informáticos e que pode colocar em risco a sua conta de eletricidade.

Perante esta nova ameaça, as ferramentas de bloqueio adaptaram-se e começaram a surgir alternativas especificamente focadas neste problema. Por exemplo, a extensão No Coin para o navegador Google Chrome foi criada para bloquear todos os scripts de mineração que possam existir nos sites que visita. Outra extenção, a minerBlock, foi criada com o mesmo objetivo. Para o caso de utilizar o Firefox, então a extensão aconselhada é a NoScript, que bloqueia todos os scripts que executem de forma automática, incluindo os mineradores de criptomoedas.

Bloqueadores mais populares, como o Adblock Plus, também já permitem bloquear os scripts de mineração, mas nesse caso o utilizador terá de fazer a adição manual aos diferentes miners que for encontrando – o que acaba por ser menos intuitivo para aqueles que não são tão versados em tecnologia.

E depois temos o caso do Ghostery, o adblocker que é recomendado por Edward Snowden.

Trazer a inteligência artificial para a guerra

“O ecossistema dos rastreadores está a evoluir constantemente, com novos rastreadores a surgirem quase todos os dias. (…) Vai sempre existir um grande número de rastreadores que simplesmente não conhecemos. O Ghostery não está sozinho nesta luta: todos os bloqueadores e ferramentas de privacidade que usam a abordagem de uma lista sofrem das mesmas limitações”.

As palavras são do diretor de gestão de produto da Ghostery, Jeremy Tillman, em declarações à publicação Motherboard. Jeremy falava a propósito da oitava versão principal do adblocker desenvolvido pela sua empresa e que tem na integração da inteligência artificial a sua nova arma.

A partir desta semana o Ghostery vai detetar em tempo real rastreadores que estejam a tentar recolher dados dos utilizadores, mesmo que esses trackers não façam parte da base de dados da empresa – isto é, são novos e nunca foram detetados. Quando estiver perante um novo tracker, o Ghostery vai transformar os dados identificadores do utilizador em dados mais genéricos que serão enviados para o site que está a fazer esse pedido, protegendo assim a identidade do utilizador.

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Além desta funcionalidade, o Ghostery vai ter ainda o Smart Mode, que vai bloquear e desbloquear de forma automática os scripts que encontra em sites, tudo para tentar maximizar os tempos de carregamento dos websites. Atualmente a base de dados do Ghostery inclui 2.600 scripts e será possível bloqueá-los todos logo na configuração inicial.

É verdade que nem todos os scripts são nefastos para a experiência online dos utilizadores, mas essa gestão depois poderá ser feita caso a caso consoante o utilizador vai necessitando.

O Ghostery é, em última análise, a mais recente expressão da transformação radical que os adblockers têm sofrido nos últimos meses. Sim, mesmo com toda a evolução que existido os utilizadores de internet continuam a conviver com publicidade intrusiva, pois a partir do momento em que é o modelo de negócio de uns, será uma intromissão para outros. Mas se pensava que anúncios mal pensados, mal desenhados e mal direcionados eram o pior que a internet tinha para lhe reservar, o ano de 2017 serviu para provar o contrário.

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