Rei morto, rei posto. É assim que funcionam os grandes mercados ilegais da dark web: sempre que um tomba, não é preciso esperar muito até que surjam outras alternativas que tomam o seu lugar.

O Silk Road ainda hoje é conhecido como um dos maiores mercados de sempre do submundo online. Criado em fevereiro de 2011, acabaria por cair às mãos das autoridades em outubro de 2013. Na altura já era o maior mercado da dark web e a sua história dava um bom livro de polícias e ladrões.

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Fomos buscar o exemplo do Silk Road não só pela sua importância, mas porque é uma peça relevante para perceber o que aconteceu esta semana. Ontem, 20 de julho, o Departamento de Investigação Federal dos EUA (FBI), a Europol e a polícia dos Países Baixos anunciaram o fecho daqueles que eram, até agora, dois dos três maiores mercados ilegais da dark web.

O maior de todos dava pelo nome de AlphaBay e o seu fim já tinha sido anunciado há duas semanas, ainda que só ontem é que a investigação e o fim do mercado tenham sido comunicados oficialmente. Já a segunda ‘vítima’ foi um mercado denominado de Hansa.

O que é interessante nesta história é que todos estão interligados entre si justamente por causa da máxima ‘rei morto, rei posto’.

 

O enredo

Quando o Silk Road fechou portas no final de 2013, os clientes deste mercado ilegal começaram a procurar alternativas para continuarem os seus negócios ilícitos, sobretudo de drogas e armas. Uma das melhores alternativas apareceria um ano depois, em dezembro de 2014.

Esse novo mercado era o AlphaBay, um dos que agora fechou por ação das autoridades. Na altura e devido à sua pequena dimensão, sempre que um novo utilizador se registava neste mercado o seu administrador, que dava pelo nome de alpha02, mandava uma mensagem de boas-vindas.

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Acontece que essas primeiras mensagens também levavam o endereço de email de uma pessoa, Alexandre Cazes. A descoberta do nome não foi feita diretamente através do email divulgado, mas através de uma triangulação de informações – do email chegaram a uma conta PayPal e da conta PayPal chegaram a uma empresa, a EBX Technologies.

Foi a partir daí que as autoridades identificaram Alexandre Cazes como o alegado administrador do AlphaBay. Nesta fase final o fluxo de transações no mercado era de tal forma elevado que Nicolas Christin, investigador da Universidade de Carnegie Mellon, estima que fosse responsável por um volume de negócios entre os 600 mil e os 800 mil dólares diários. Contas feitas pelo FBI revelam que nos seus dois anos e meio de atividade o AlphaBay terá movimentado mais de mil milhões de dólares.

Alexandre Cazes foi identificado pelas autoridades e foi detido na Tailândia, tendo ficado em prisão preventiva. No dia 12 de julho o alegado administrador do AlphaBay foi encontrado morto na prisão – o suicídio é apontado como a causa mais provável da sua morte, mas é uma tese não confirmada.

 

A detenção do suspeito e posteriormente a sua morte indicavam que o AlphaBay já estaria sobre o controlo das autoridades. No início de julho o site esteve offline durante dois dias, com os seus ‘administradores’ a dizerem no Reddit que estava em manutenção e estaria de volta pouco tempo depois.

Os seus utilizadores desconfiaram de imediato e começaram a surgir rumores de que o site estava controlado pelas autoridades. Sabendo que os utilizadores destes mercados estão lá pelas suas oportunidades de negócio ilegais, estava na hora de abandonar o barco e encontrar uma nova casa.

Muitos utilizadores do AlphaBay decidiram escolher o Hansa como o seu novo mercado de eleição – o número de novos registos aumentou 800%. Hansa não era o segundo maior, mas sim o terceiro maior mercado, pelo que já tinha nome, estatuto e clientes. Parecia estar tudo encaminhado para a ascensão de uma nova estrela na dark web.

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Acontece que quando começou esta migração de utilizadores para o Hansa, já o Hansa estava sob controlo das autoridades dos Países Baixos – só que ninguém sabia. É como se os criminosos estivessem todos a entrar num bar que era gerido por polícias.

Durante algumas semanas as autoridades holandesas geriram o site de forma imaculada para não levantar suspeitas. O único momento que pode ter causado alguma estranheza foi quando decidiram fechar o número de novos registos no site, alegando que estava a ser difícil gerir um grande volume de novos utilizadores fruto do fecho do AlphaBay.

O golpe de génio desta operação é que os dois fechos foram coordenados. Aquilo que parecia ter sido uma falha na operação de fecho do AlphaBay, foi um erro propositado – as autoridades decidiram provocar o pânico nos utilizadores deste mercado sabendo justamente que estes se apressariam a encontrar um novo mercado.

“Não se enganem, as forças da lei e da justiça enfrentam um novo desafio com os criminosos e as organizações transnacionais que pensam que podem cometer os seus crimes de forma impune por atuarem de forma anónima. Este caso, trabalhado por agentes e procuradores, diz que vocês não estão seguros. Não se podem esconder. Vamos encontrar-vos, desmantelar as vossas organizações e redes. E depois vamos acusar-vos”, disse o procurador-geral norte-americano Jeff Sessions, citado pela Wired.

O desfecho

O resto é história. As autoridades fecharam os dois mercados – AlphaBay e Hansa -, desferindo um duro golpe nos mercados ilegais da dark web. Além de terem derrubado dois dos maiores, as autoridades têm agora em sua posse informação sobre milhares de utilizadores destes sites.

Alphabay Hansa

Essa foi uma das vantagens de operar o Hansa de forma silenciosa durante algumas semanas. As autoridades conseguiram informações, incluindo dez mil moradas para as quais os utilizadores indicavam o envio dos bens comprados na dark web.

O FBI, a Europol e a polícia dos Países Baixos estão a ser escassos em pormenores sobre como conseguiram ganhar acesso aos dois mercados. No caso do AlphaBay, sabe-se que houve a colaboração da empresa de segurança informática Bitdefender, revela a publicação Motherboard. Também a tecnológica escusou-se a revelar detalhes sobre como as autoridades chegaram até às máquinas que sustentavam estes mercados.

Até agora ainda ninguém foi formalmente acusado, sendo expectável que nas próximas semanas, fruto dos dados e máquinas apreendidos, sejam feitas detenções e acusações.

O momento agora é de tensão para os utilizadores dos mercados fechados. Existe a possibilidade de as autoridades terem dados seus e também existe a possibilidade de já terem outros mercados sob controlo sem saberem. O Dream Market, o segundo maior na dark web, está a ser apontado como o próximo destino provável para todos os vendedores e compradores ‘sem casa’.

Mas o tamanho deste golpe é de tal forma grande que provavelmente muitos utilizadores não se vão movimentar nestes mundos durante algum tempo. Mais do que derrubar dois grandes mercados, as autoridades derrubaram a confiança dos seus utilizadores.

A luta não acaba aqui, longe disso. “Sabemos que tirar os principais criminosos da infraestrutura não é uma solução a longo prazo. Há sempre alguém novo à espera, pronto para ocupar os lugares vagos”, disse o diretor do FBI, Andrew McCabe. Por outras palavras, já há muitos candidatos ao lugar de rei.

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