A Amazon não é só uma das maiores tecnológicas da atualidade, é uma das maiores empresas do mundo. Ainda que a tecnologia seja a base deste gigante norte-americano, a influência da Amazon estende-se a mercados tão distintos como os dos conteúdos multimédia, videojogos e mais recentemente até dos supermercados.

Quando procuramos pelas marcas mais acarinhadas e faladas pelos portugueses, Apple, Google e Samsung são presenças assíduas nesses rankings, mas raramente se vê qualquer referência à Amazon. Se a empresa é assim tão grande e assim tão influente, por que razão não existe uma maior empatia com a Amazon?

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A explicação é simples – a Amazon não tem uma presença direta em Portugal. Os portugueses há muito que podem fazer compras no mercado online da empresa e podem aceder a alguns dos seus serviços, mas o facto de não haver uma Amazon.pt muito provavelmente tem um peso neste relacionamento.

Esta tem sido justamente uma questão feita por vários consumidores portugueses: a Amazon está em Espanha, França, Itália, Reino Unido, Alemanha… para quando uma presença mais direta em Portugal e que dê acesso a mais alguns dos seus serviços e produtos, caso dos leitores de ebooks Kindle ou das colunas inteligentes Echo?

Durante longos anos não houve resposta e não houve sequer fumo que indicasse que uma resposta podia estar a caminho. Mas a situação mudou consideravelmente: nos últimos 12 meses a Amazon enviou vários sinais para o mercado português que parecem colocar Portugal na sua mira. É como se, pé ante pé, sentíssemos a chegada silenciosa de um gigante através das vibrações que os seus passos provocam.

Vamos ter a Amazon.pt em 2018? Continua sem haver uma resposta a esta questão, mas que a chegada da gigante americana parece mais provável, lá isso parece.

A própria empresa de análise Caixa BI emitiu uma nota aos investidores em agosto deste ano onde assumia justamente isto. “A possibilidade de tal vir a acontecer [entrada da Amazon em Portugal] a relativamente breve trecho é agora mais elevada”, diz a nota, citada pelo Dinheiro Vivo.

Entregas gratuitas a partir da Amazon.es

Na semana passada a Amazon anunciou que os clientes portugueses que façam compras na Amazon.es, sejam produtos vendidos ou expedidos através da plataforma, passam a ter acesso a entregas gratuitas.

A empresa eliminou os custos das entregas para Portugal em encomendas superiores a 19 euros no caso dos livros e superiores a 29 euros em todos os outros produtos. Os restantes tarifários da Amazon.es para Portugal podem ser consultados nesta página.

Esta decisão está a ser vista como estratégica acima de tudo pela proximidade da Black Friday e da Cyber Monday, que acontecem nos dias 24 e 27 de novembro, respetivamente.

“Procuramos sempre melhorar a experiência de compra dos nossos clientes em Portugal. (…) Os clientes de Portugal encontrarão também uma seleção de produtos na Amazon.es especialmente direcionados para as suas preferências, como marcas de moda locais e milhares de livros de autores portugueses”, disse em comunicado o vice-presidente da Amazon para a área de retalho na Europa, Xavier Garambois.

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Este foi também o sinal mais forte que a empresa fundada por Jeff Bezos já enviou relativamente à sua aproximação ao mercado português. A criação de envios gratuitos mediante uma determinada despesa poderá ajudar a empresa a perceber melhor qual o verdadeiro nível de interesse dos portugueses na sua loja online e quais as categorias de produtos mais populares.

Sendo este o sinal mais forte de todos de que a Amazon.pt pode estar para breve, não foi o único. Em março a Amazon e a Repsol fecharam um acordo que prevê a criação de pontos de recolha de produtos nos postos da gasolineira em Espanha e em Portugal, o que engloba cerca de 4.000 pontos de venda.

O Amazon Locker, como é conhecido, permite assim ter um local relativamente acessível e no qual o consumidor pode fazer o levantamento das suas encomendas em horários muito mais flexíveis. Cada encomenda tem associado um código de cacifo que apenas é entregue ao seu devido dono via mensagem – depois basta chegar ao local, validar o código e trazer as compras para casa.

Olhando para estes dois anúncios, a Amazon até começou primeiro por criar a infraestrutura de entregas em Portugal e só depois é que avançou para a criação de um estímulo que ajude a aumentar as vendas da loja online no mercado português. Duas peças importantes de um puzzle que está a ficar cada vez mais completo.

Os vendedores também já começaram a ser recrutados

Mesmo antes de aliciar os consumidores e de começar a criar uma infraestrutura para responder aos pedidos desses consumidores, a Amazon ‘piscou o olho’ às empresas e aos comerciantes portugueses.

Em novembro do ano passado a tecnológica lançou em Portugal uma iniciativa direcionada para pequenas e médias empresas (PME) que pretende facilitar as suas presenças online e aumentar as oportunidades de negócio. Com uma única conta os vendedores podem ter os seus produtos disponíveis em todos os sites localizados da Amazon na Europa, trazendo assim milhões de novos potenciais clientes sem grande esforço.

Os interessados podem ainda juntar-se ao programa Fulfilment by Amazon, que permite que os produtos sejam enviados para os centros de logística que a empresa detém, fazendo assim com que o processo de entrega aos clientes seja feito da forma mais célere possível.

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Isto significa também que na eventualidade de ser lançada a Amazon.pt, já vão existir vendedores portugueses na plataforma e que vão ter imediatamente os seus produtos disponíveis na versão portuguesa do site sem qualquer trabalho adicional.

“Ao facilitar às empresas portuguesas o acesso ao mercado da Amazon, é nosso objetivo apoiá-las no crescimento dos seus negócios ao conectá-las com clientes internacionais. Queremos apoiá-los na transição para uma economia digital”, disse na altura o diretor de serviços de vendas da Amazon na Europa, Francois Saugier, em comunicado.

Nem tudo será um mar de rosas

Ainda que o lançamento de uma plataforma dedicada em Portugal represente um compromisso importante de um gigante para com o mercado português, a marca Amazon poderá não ser suficiente para catapultar de imediato a empresa para a liderança em serviços de comércio eletrónico.

No estudo anual feito pela Associação da Economia Digital (ACEPI) em parceria com a IDC, concluiu-se que 36% dos portugueses já compram através da internet e que terão sido gastos 4,6 mil milhões de euros em compras online quando o ano de 2017 chegar ao fim. Este valor vai crescer de forma significativa até 2025, estimando-se que nesse ano o comércio eletrónico português movimente 8,9 mil milhões de euros.

Os portugueses já ganharam também o hábito de comprar no estrangeiro. O mesmo estudo revelou que mais de 50% das compras que os portugueses realizam online são feitas fora de Portugal. Em termos de países a China é o ‘destino’ de compras mais popular, com 56% dos inquiridos a comprarem produtos neste mercado asiático, 40% no Reino Unido, 36% em Espanha, 28% noutros países europeus e 25% dizem fazer compras online nos EUA.

Ao nível das plataformas mais populares junto dos consumidores portugueses que compram no estrangeiro a Amazon surge em segundo lugar, atrás do eBay e à frente do Aliexpress, segundo a publicação Ntech.news.

Depois é preciso olhar para o que já existe no mercado português. Grupos como a Sonae, Fnac, Media Markt, El Corte Inglés e Auchan há muito que têm explorado a vertente de comércio eletrónico e isso acaba por criar um hábito de consumo e uma proximidade que a Amazon não tem e pela qual terá de lutar de forma feroz – seja em marketing ou com preços agressivos, como é seu apanágio.

Por exemplo, em Espanha, onde a Amazon já tem uma operação direta, o retalhista de eletrónica Worten, do grupo Sonae, conseguiu aumentar as suas vendas em 70% no último ano, o que mostra que a chegada do gigante norte-americano pode não representar uma ameaça assim tão grande quanto seria de esperar em primeiro lugar.

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Um dos administradores do grupo Sonae, Luís Filipe Reis, disse em entrevista ao Diário de Notícias não estar preocupado com uma possível chegada do gigante norte-americano a Portugal. “Está muito bem posicionada no mercado, porque tem presença omni-canal, com pontos físicos em quantidade para uma boa cobertura territorial. Demorará alguns anos a outro concorrente para conseguir os mesmos resultados”, disse, referindo-se especificamente à Worten.

À concorrência de outras empresas, a Amazon terá ainda a considerar o facto de Portugal ser um dos dez países que quer taxar os lucros das gigantes tecnológicas, nas quais se inclui a empresa de Jeff Bezos. Para já este é um cenário apenas de intenção, sendo que apenas na primavera de 2018 deverão ser conhecidas medidas mais concretas, escreve o Público.

E o Amazon Prime?

Devido à grande variedade de serviços que presta e tem disponíveis, a Amazon consegue concentrar as suas principais ofertas sob um modelo de subscrição conhecido como Amazon Prime. Por 11 dólares por mês, o equivalente a 10 euros, os utilizadores ganham acesso a um conjunto de regalias.

Com o Prime têm acesso a entregas da maior parte dos produtos em dois dias, a entregas no próprio dia dependendo das cidades, acesso ao Prime Video, ao Twitch Prime, ao serviço de música Prime Music, têm acesso a promoções exclusivas através da assistente Alexa, acesso a centenas de ebooks, ao lançamento antecipado de novas publicações e também armazenamento ilimitado para as fotografias.

O serviço Amazon Prime não é igual em todos os mercados, pelo que poderá não chegar ao mercado português caso o lançamento da plataforma Amazon.pt venha a concretizar-se. Mas sabendo que nos outros países europeus onde a Amazon tem uma presença direta existe uma versão deste serviço de subscrição, então parece não haver motivo aparente para que Portugal não venha a ter um também.

Para ter uma ideia do sucesso que este serviço pode alcançar, nos EUA, o mercado mais forte da Amazon, o serviço Prime tem uma taxa de penetração de 64%, significando que dois-terços das casas americanas subscrevem as mais mais-valias que a empresa disponibiliza.

Para terminar, uma curiosidade sobre a Amazon.pt: o domínio foi registado em 1999 e expira no dia 2 de novembro de 2018. Mesmo que a Amazon não venha para Portugal no próximo ano, que pelo menos não se esqueça de renovar o domínio ou vir para o mercado português pode sair-lhe muito mais caro.

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