Vivemos num tempo em que a disrupção não vem exclusivamente da tecnologia, mas dos modelos de negócio associados às novas ferramentas que são criadas. Os melhores exemplos desta máxima são a Uber, na área da mobilidade, e a Airbnb, no segmento dos alojamentos.

A Uber criou um sistema que gere de forma quase perfeita a procura e a oferta que existe no segmento da mobilidade. Controla estes dois extremos através de uma aplicação móvel – de um lado tem os motoristas parceiros, do outro estão os clientes.



Quando um cliente quer um carro, usa a aplicação para pedir. Onde o condutor estiver, é notificado para responder a esse pedido. Quando há mais clientes do que condutores, a tarifa sobe – justamente para demover alguns clientes ou então atrair mais motoristas já que há mais hipóteses de faturação.

O Airbnb funciona de uma forma muito semelhante, mas para garantir alojamento – seja uma casa ou apenas um quarto. Há quem tenha espaço a mais na sua habitação que pode partilhar, há quem esteja disposto a aproveitar esse espaço.

A Airbnb tem ainda em comum o facto de partilhar com a Uber um serviço quase sem barreiras – é muito simples chamar um carro ou alugar um quarto através destes serviços. O utilizador nem precisa de mexer em dinheiro para concretizar o seu ato de consumo, está tudo integrado de forma digital. As pessoas gostam de bons serviços e de processos simples, daí o sucesso destas duas empresas.

Os modelos da Uber e da Airbnb foram tão disruptivos que um pouco por todo o mundo estão a passar por momentos mais tensos ligados às reformas legislativas. Independentemente daquilo que o futuro lhes reserva, a verdade é que nos ajudaram a sentir o futuro mais presente.



Agora uma questão: poderá a próxima etapa evolutiva dos smartphones estar no modelo de negócio e não no equipamento em si? É mais difícil pois o telemóvel é uma peça de hardware, não apenas um serviço. Mas isso não significa que os fabricantes não possam inspirar-se noutros segmentos de mercado para tentarem combater a estabilização das vendas.

O ano de 2016 trouxe-nos uma tentativa arrojada por parte da Amazon. No final de junho a tecnológica norte-americana revelou uma parceria com duas marcas de smartphones que consistia em disponibilizar os equipamentos mais baratos a troco de publicidade integrada.

Prime Exclusive Phones

Este é o nome do programa que a Amazon iniciou com os smartphones Blu R1 HD e Lenovo Moto G4. Tanto um como outro ficam 50 dólares mais baratos através desta iniciativa – o Blu passa a custar metade do preço, 49,99 dólares, e o Lenovo 149,99 dólares.

Não são equipamentos topo de gama, mas são equipamentos de gamas que os consumidores procuram bastante – nem todos têm disponíveis 500 ou mais euros para investir num smartphone.

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Por uma questão de valor vamos por agora centrar-nos no Blu R1 HD. O smartphone apresenta-se com um ecrã de cinco polegadas, resolução de 1.280×720 píxeis, 1GB de RAM, 8GB de armazenamento interno, processador de quatro núcleos a 1,3 Ghz, câmara fotográfica de oito megapíxeis, bateria de 2.500 mAh e Android 6.0 ‘Marshmallow’.

Está longe de ser a última bebida do deserto, mas descofiamos que teria bastante procura no mercado português. Ainda para mais se chegasse com o preço de 49,99 dólares, o equivalente a 45 euros.

A questão é: preferia levar este smartphone por 45 euros e ter o ecrã de bloqueio com anúncios direcionados para o seu perfil de consumidor ou preferia pagar 90 euros e levar o mesmo smartphone, mas sem publicidade? Esta não é apenas uma questão retórica, gostavamos que respondesse mesmo.

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Talvez a resposta não seja tão simples como ‘sim ou sopas’. Há mais elementos a considerar, por exemplo, como a tipologia dos anúncios que surgem no ecrã de bloqueio. De acordo com a Amazon são descontos e oportunidades em categorias de produtos direcionados para cada um. Tanto a análise da Fast Company como do The Wall Street Journal discordam desta premissa, mas a Amazon já disse que com o tempo irá melhorar.

E como é que a Amazon sabe isto? Só os membros do modelo de subscrição Amazon Prime podem ter acesso a estes equipamentos e na maior parte dos casos só faz sentido ser um membro Prime quando se faz muitas compras online – neste caso todas as entregas são gratuitas. Conclusão: a Amazon sabe claramente o que tem comprado e o que pode vir a interessar-lhe.

Os anúncios tanto podem surgir em modo de ecrã cheio como na gaveta de notificações – tudo dependerá também da proposta que lhe será feita. É possível dispensar os anúncios, mas da próxima vez que aceder ao ecrã de bloqueio do smartphone estará lá outro à sua espera.

Exemplos de anúncios que surgem no ecrã dos smartphones. #Crédito: Amazon

Exemplos de anúncios que surgem no ecrã dos smartphones. #Crédito: Amazon

Além da publicidade a Amazon também inclui de origem as suas principais aplicações. Mas se pensar bem no assunto, talvez já esteja a ser alvo de ‘publicidade’ integrada no smartphone há muito tempo.

Oportunidade para as marcas, crapware para os utilizadores

Quando comprou o seu smartphone atual, quantas aplicações indesejadas lá estavam instaladas? E conseguiu removê-las?

Este é um debate antigo, mas que continua a dar que falar. Devem as marcas enviar os smartphones para o mercado ‘limpos’ de aplicações externas ou devem continuar a apostar em parcerias e negócios?

Seja de operadores de telecomunicações, aplicações próprias da marca ou aplicações ‘externas’ de parceiros, há quase sempre aplicações de origem no smartphone às quais o utilizador não vai prestar atenção. E quando tenta removê-las não consegue pois estão ‘lacradas’ no sistema operativo – só com permissões de administrador é possível eliminar estes programas.

Por exemplo, se comprar um Alcatel Idol 4S vai ter de origem serviços externos. Ou a Alcatel pagou para tê-los lá – o que parece pouco provável já que há apps que são gratuitas – ou foram as marcas das apps que pagaram à Alcatel para que viessem de origem no smartphone.

Não é um anúncio tão direto como ‘compre 3 e pague 2’, mas não deixa de ser uma forma de publicidade. meo_smart_a25_detalhe_preto

Por exemplo, agora que o MEO vende smartphones desbloqueados, continuará a fazer sentido vender equipamentos com as suas apps pré-instaladas?

O caso mais gritante de todos é o da própria Google. O sistema operativo Android é gratuito para qualquer fabricante, mas há regras a cumprir na sua utilização – uma delas passa por incluir de origem os serviços basilares da tecnológica norte-americana.

Como milhões de smartphones Android são vendidos todos os meses, todos os meses a Google está a garantir de forma indireta que os seus serviços chegam às mãos de milhões de pessoas. Ainda que a taxa de conversão possa ser mínima, algum desses serviços acabará por captar a atenção do utilizador.

Amazon com experiência nestas andanças

A gigante do comércio eletrónico liderada por Jeff Bezos pode estar a experimentar os descontos por visualização de publicidade numa nova categoria de produto, mas a Amazon já sabe como isso funciona. Há anos que o tem feito nos seus leitores de ebooks Kindle.

Os utilizadores tanto podem comprar o Kindle ‘normal’ por um preço, como podem levá-lo para casa por um valor inferior se concordar ter anúncios no ecrã do dispositivo quando está no modo de descanso.

Não há números oficiais para sabermos se estas táticas de venda têm resultado ou não, mas para a Amazon as manter é porque também não estão a afastar consumidores. Ou então funciona como venda psicológica: ao disponibilizar um produto mais barato, mas com uma contrapartida, os utilizadores podem achar a versão sem anúncios e mais cara, mais interessante.

Por isso é que os Blu R1 e Lenovo Moto G4 do programa Prime Exclusive Phones são tão interessantes. Um smartphone é claramente um equipamento mais versátil do que um eReader e existe uma grande concorrência neste segmento. A guerra psicológica do preço funciona aqui muito melhor.

Uma diferença de 50 dólares num smartphone pode fazer com que o mesmo seja muito mais apelativo do que outros equipamentos semelhantes ou até com especificações mais ambiciosas. No caso do Blu R1 HD significa uma redução de 50% no preço – faz toda a diferença. No Lenovo representa uma baixa de quase 25% – ainda assim superior às sempre populares promoções do IVA em Portugal que retiram 23% do valor aos equipamentos [numa fórmula PVP : 1,23].

Não é certo se um dia estes descontos através da inclusão de publicidade podem chegar a smartphones mais apelativos – Samsung Galaxy S7, Sony Xperia Z5 Premium? – e se chegarem de quanto será a percentagem de desconto.

A Amazon está a tentar um novo modelo de negócio dentro do segmento dos smartphones, só o tempo dirá se resulta ou se será um fracasso tão grande como foi o seu próprio telemóvel, o Fire Phone.