A imensidão do mar esconde ainda hoje segredos que talvez nunca venhamos a descobrir. E que dizer das suas profundezas? Ainda hoje de vez em quando ouvimos falar numa nova descoberta, num recente recife de coral desconhecido, numa exótica espécie marítima que desafia todas as condições mínimas de sobrevivência que pensávamos ser necessárias.

Estas são, sem dúvida, outras águas em que nos embrenhamos em In Other Waters, uma experiência de jogo que marca quem usufrui dela por aquilo que não nos mostra e nos faz ouvir. Parte sci-fi, parte diário, In Other Waters aventura-se por terrenos raramente nadados pela indústria dos videojogos e é certamente um jogo diferente.

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Então agarrem no escafandro e nos vossos fones de alta qualidade e venham descobrir o fundo do mar conosco, nesta aventura de ritmo lento num eco-sistema que tem muito para nos mostrar… Só não vai acontecer da forma habitual… Mergulhamos?

Aliens alienados

Criaturas de outro mundo tentam, mais uma vez, invadir o nosso planeta. E é aqui que todas as semelhanças com esta premissa terminam. Em In Other Waters, a invasão é lenta  e gentil, nesta aventura subaquática onde acompanhamos a inteligência artificial dum exoesqueleto que auxilia Ellery, cientista, a navegar no fundo do mar através de um mapa deste mundo debaixo de água, através de um conjunto de ações que podemos desempenhar para que a sua missão seja bem sucedida: conseguir encontrar Minae Nomura, a sua colega cientista em parte incerta.

O mapa não é claro: temos pontos, círculos e símbolos, e a intenção é avançar por entre o negrume do mar, orientando-nos o melhor que consigamos, enquanto analisamos novas espécies, coletamos amostras, tomamos conta do oxigénio disponível… Há sempre muito para fazer e para onde olhar, no risco sempre presente de que esta seja a nossa moradia final.

Navegar ao sabor do clique

A investigação é parte central desta experiência. A recolha de amostras é importante para que depois possa ser analisada na nossa base, a que recolhemos sempre que cumprimos os objetivos traçados. Fica catalogada toda a informação que obtemos, e acreditem que há muita. Torna-se muito fácil perdermos algumas das espécies, embora a “ação” possa continuar.

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As amostras recolhidas servem como power-ups de suporte para a próxima investida de bolhinhas de ar. Elas são bastante limitadas, e cabe ao jogador escolher de forma inteligente como as usar para progredir. Seja para fazer retrair formas de vida alienígenas, seja para fazer aumentar os nossos reduzidos níveis de oxigénio, há sempre a presença de espírito de que as nossas escolhas, acertadas ou não, têm consequências. E isso eleva um pouco o nível do simples clique de progressão entre pontos marcados no nosso mapa.

Tão bonito aquilo que não se vê

Ellery descreve de forma tão penetrante, que parece transportar o jogador mais experiente (sim, foi para não escrever velho, tal como eu!) para um qualquer antigo jogo, onde a narrativa fazia o serviço de forma tão coerente como hoje em dia os AAA o fazem. Dando espaço para a imaginação, as suas descrições colocam o jogador a bordo daquela nave subaquática. Pode-se facilmente julgar que todas aquelas espécies eram reais, tal é a descrição pormenorizada a que se chega, o que leva a pensar na tonelada de investigação feita para tornar este tipo de experiência credível. Impressionante.

Aquele conjunto enorme de pontos, círculos e símbolos ganha vida, cor, materialização nesta relação que se constrói e que decai a cada encontro com formas de vida alienígenas prontas para atacar. Ellery e o jogador criam uma dinâmica muito suportada pelo seu diálogo, mas principalmente por aquilo que não dizem. Lembram-se do último jogo que falou convosco sem falar? É aqui que In Other Waters brilha como uma estrela no fundo do mar.

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Também tudo o que é ouvido em In Other Waters contribui de forma decisiva para a envolvência que o jogo necessita e alcança. A mistura da banda sonora, numa espécie de música eletrónica zen, ajuda a tornar credível a localização em que pensamos estar. As criaturas manifestam-se quando passam por nós a alta velocidade, num aumentar e diminuir instantâneo de volume. O timbre do que ouvimos agudiza-se ou torna-se mais claro consoante a profundidade a que supostamente nos encontramos… Muito bom trabalho.

Considerações finais

Nota 4,5 FBIn Other Waters marca certamente pela diferença e não agradará a todos. As indicações não são as mais claras e pode tornar-se muito difícil fixarmos a nossa próxima tarefa com tanto texto para assimilar, não restando alternativa do que velha “tentativa e erro”. Pede imaginação, capacidade de visualização, mas é uma bonita e emotiva história que nos leva a pensar sobre o que acontecerá de facto nas profundezas dum mar a que chamamos nosso e que dizemos conhecer profundamente. E reforça claramente a ideia de que, por mais inóspitas que as condições sejam, a vida arranja forma de prevalecer.

In Other Waters, que já se encontra disponível para Nintendo Switch, Windows PC e macOS, é um jogo para intrépidos exploradores, é para leitores ávidos e é essencialmente para sonhadores de coração cheio.

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+ Palete de cores exuberante;

+ Música perfeita;

+ História detalhada e super interessante.

– Comandos confusos;

– Desorientação pode frustar;

– Força o “tentativa e erro”.

N.R.: A análise a In Other Waters foi realizada numa Nintendo Switch com uma cópia do jogo, gentilmente cedida pela Evolve PR

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