Por muito que nos custe aceitar, vivemos num mundo bem diferente do que aquele em que nascemos. Existem hoje em dia bens muito mais importantes do que ter um prato de comida, uma boa casa, felicidade na companhia de família e amigos. O dinheiro começa a ser substituído pelas criptomoedas e o ouro negro já não define poder. Assistimos a uma transformação social onde o mais valioso item que se pode ter é informação. Sobre tudo e sobre todos. Hábitos, interesses, preferências. Tudo aquilo que permitimos que conheçam sobre nós através das redes sociais e com interações na World Wide Web tem uma importância fundamental para que nos conheçam, influenciem e dominem.

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Este universo cada vez menos distopiano já nos foi apresentado no cinema e em televisão (Westworld, V de Vendetta, Sin City e Black Mirror, por exemplo) e Liberated mostra-nos mais uma vez que podemos estar a precipitar-nos rapidamente para nos tornarmos um simples peão de xadrez num jogo que não controlamos. Será Liberated um exemplo bem conseguido de trevas vindouras ou apenas uma mal executada teoria de conspiração? Venham connosco até a um mundo em que tudo é controlado, os polícias são corruptos e um grupo de reacionários tenta resgatar a nossa liberdade à força…

V de Vendetta ou de Vulgar?

Um ataque terrorista a uma escola que causa o desaparecimento de imensas crianças acaba por desencadear toda a panóplia de acontecimentos que vão criar uma fraturante divisão entre a polícia, que apoia e defende o sistema de vigilância e controlo extremo que é aplicado aos cidadãos borregos que acatam tudo sem pestanejar, e um grupo de libertários que lutam contra esta opressão desmedida disfarçada de cobertor de segurança sem o qual a população aparentemente não pode viver. Percebe-se que a intenção do estúdio – Atomic Wolf – é claramente confrontar o jogador com algo que é indissociável dum mundo diferente, mas que se parece já com aquele em que vivemos.

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Através de quatro livros (capítulos) de banda desenhada (e mais dois de DLCs gratuitos) acompanhamos estes dois lados das diferentes fações, as suas hesitações, os planos delineados, enquanto tudo desaba. Nota-se que houve uma preocupação em dar diferentes camadas às personagens de ambos os lados para fazer com que o jogador sinta algo por elas, algo que acaba por não acontecer devido à simplicidade das interações que temos com elas e a um voice-acting fraco e demasiado amador. O mundo criado através dos ousados desenhos e as peculiares personagens perdem claramente força quando abrem a boca.

Direita, (não) volver

Logo depois de pequenas indicações sobre os comandos a utilizar no jogo, Liberated dá a escolha de darmos preferência à narrativa, apresentando um modo de leitor, que não apresenta qualquer desafio, e outro que nos permite gozar um mundo de libertários, polícias e drones que vigiam para abater, enquanto ultrapassamos puzzles demasiado simplistas.

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Enquanto se avança por esgotos ou edifícios de alta segurança, existe por vezes a hipótese de adotarmos outra abordagem que não seja a de saraivada total de tiros nos nossos opositores. O problema é que esta abordagem se torna totalmente desnecessária, pois disparando com qualquer uma das três armas que nos são disponibilizadas ao longo do jogo (e que não podemos escolher) tudo se torna mais rápido e eficaz. A intenção de introduzir mecânicas stealth a um jogo com esta temática faz todo o sentido no papel, mas quando aplicada torna-se apenas um adorno do qual não sentimos falta. Aliás, todo o jogo pode ser ultrapassado sem grande dificuldade mantendo apenas a arma pronta a disparar, andando quase sempre para a direita… Tudo isto torna o enredo quase enganador, pois promete tanto com os momentos que nos são dados de forma cinemática, mas no que diz respeito à atual experiência de jogo, acaba por desiludir de forma desoladora.

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Nem tudo é a preto e branco

Liberated é sem dúvida uma beleza estética que enriquece a nossa vista. Os brancos e os negros contrastam de forma natural, mas que enaltecem toda a visão daquele local onde a história se vive, bem como a composição de cada um dos painéis que acabam por compor diferentes vinhetas e páginas deste Comix Zone versão ficção científica. Por vezes um dos dois tons acaba por quase se sobrepor totalmente ao outro, seja numa luz intensa ou numa escuridão total, mas mantendo sempre visível para onde a personagem se deve dirigir, embora seja quase sempre uma progressão linear para a direita, subindo ocasionalmente algumas escadas ou obstáculos facilmente transponíveis. A temática do film noir transborda em cada desenho aprimorado

Considerações finais

Liberated é aquela banda desenhada que se quer ler e devorar, apreciando a beleza dos seus visuais monocromáticos, do seu enredo arrebatador e com uma banda sonora que nos impele a ouvi-la mesmo sem se jogar o jogo, apesar da fraca interpretação sonora das suas personagens. As temáticas abordadas sobre um “big brother” que controla todos os aspetos da vida das pessoas é bem conseguido e realça bem perto do fim o seu objetivo de fazer pensar sobre onde começam os nossos direitos e onde deveriam terminar os nossos deveres cívicos. É um belo exercício de retórica que acaba por ter na sua jogabilidade o seu ponto fraco. Alguns puzzles que não desafiam, missões que nos impelem a avançar pela direita de forma repetitiva, sempre de arma em punho e retirando qualquer empenho na possibilidade stealth oferecida.

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Não se pretende dizer de todo que é um mau jogo. Acaba por ser uma bela experiência no seu todo e isso acaba por compensar todas as suas evidentes falhas.

nota 3

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Liberated é essencialmente uma história negra de um futuro próximo que se prefere “folhear” do que jogar.

+ Conceito comic
+ Música entusiasmante
+ Atualidade do enredo

– Voice-acting sem vida
– Combate repetitivo
– Ligeiros soluços de desempenho

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N.R.: A análise a Liberated foi realizada em Windows PC com uma cópia do jogo, gentilmente cedida pela Plan of Attack.

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