A aplicação Google Allo está disponível em Portugal há menos de 24 horas, mas o utilizador também não precisa de muito tempo para tomar o pulso a esta nova aplicação de messaging e às suas principais novidades.

A ferramenta foi um dos destaques da conferência de programadores deste ano da gigante dos motores de busca. Cada vez mais as plataformas de comunicação estão a posicionar-se como centros tecnológicos onde as pessoas podem resolver parte das tarefas do seu dia a dia.



Já que passam uma parte do dia a comunicar com outras pessoas, faz sentido que integrem diferentes serviços e que não seja necessário saltar fora de uma conversa para conseguir realizar uma tarefa. A proposta da Google para esta área passa pela disponibilização de um assistente digital através do qual podemos manter uma conversa ‘a sós’ ou podemos integrá-lo nas restantes conversas.

Sou um utilizador diário do Google Hangouts e do WhatsApp, uso com menor regularidade as Direct Messages do Twitter, o Facebook Messenger e o sistema de mensagens do Instagram. Digo isto para dizer que o Google Allo é de facto uma aplicação de messaging moderna, bastante rápida e cheia de pequenas funcionalidades que criam uma experiência de utilização diferente.Google AlloMas quando analisamos o Google Allo de forma mais fria apercebemo-nos disso mesmo: é uma boa aplicação de messaging, mas pode não ser suficiente para conquistar o seu espaço neste já preenchido mercado. O grande elemento diferenciador é mesmo o assistente digital da Google, mas esse pode não ser um factor suficientemente crítico para a maior parte das pessoas que as leve a abandonar o WhatsApp, por exemplo.

Em certa medida o Google Allo faz-me lembrar o Google+: também a rede social chegou com um design fresco e uma experiência de utilização divertida, mas não conseguiu aquilo que mais importava – atrair utilizadores. As pessoas já estavam no Facebook e no Twitter. E não houve nada que as fizesse abandonar as suas vidas sociais. Talvez com o Allo seja diferente, talvez.

Configuração

O processo de instalação é bastante simples e a configuração faz lembrar em toda a linha a do WhatsApp.

O utilizador apenas precisa de colocar o seu número de telemóvel, vai receber uma mensagem com um código secreto e é apenas isto. Está ‘inscrito’ e pronto a explorar as funcionalidades do Google Allo. Pode tirar uma selfie na hora para usar como fotografia ou recorrer a uma imagem sua que já tenha no equipamento.

Durante o processo de configuração a Google vai pedir-lhe o acesso a algumas informações do seu smartphone, algo que também nos acontece nos primeiros cinco minutos de utilização do WhatsApp.

A partir daí é começar a explorar. Pode iniciar uma conversa com um contacto que já tenha o Google Allo instalado – os primeiros que vão surgir na lista de contactos – ou pode enviar um convite aos seus contactos que ainda não estão a usar a plataforma.



Aqui encontramos logo à partida uma barreira. Não existem muitas pessoas com o Allo. Possivelmente já conversa com os seus amigos numa outra plataforma. Possivelmente até vai usar essa outra plataforma para convidá-lo para o Google Allo. Mas o mundo é assim mesmo. Estão sempre a surgir novas plataformas, novas ferramentas, e se não lhes dermos pelo menos uma chance, nunca saberemos se são melhores ou não do que as que já usamos.

Primeiro vamos focar-nos nas conversas ‘normais’ antes de falarmos das conversas que pode ter com o assistente @google. O Google Allo permite fazer muito do que as restantes aplicações de messaging também permitem: enviar mensagens escritas, enviar mensagens de voz, enviar fotografias, enviar vídeos, partilhar a localização e enviar autocolantes.

No caso dos autocolantes a Allo é diferente pois a Google fez uma parceria com alguns artistas que criaram pacotes de imagens bem divertidos e originais que pode ir partilhando ao longo das conversas.

Até aqui tudo muito parecido com outras plataformas. Talvez a maior diferença esteja no interface de utilização em si. Bastante polido, bastante chamativo e bastante responsivo. Comparando, por exemplo, o Google Hangouts com o Google Allo, nota-se claramente que o Hangouts leva uns anos de atraso na experiência de utilização.

Existem depois pequenos detalhes que podem chamar a atenção do utilizador. Quando envia uma mensagem escrita, por exemplo, se ficar a pressionar no botão de envio pode definir o tamanho das letras dessa mensagem. A ideia é que a pessoa consiga expressar-se melhor: letras grandes significam ‘gritos’, enquanto as letras pequenas significam um ‘sussurro’. É um gimmick interessante e que pode conferir outro dinamismo às conversas.Google AlloUm dos aspetos para os quais tinha mais curiosidade era a integração de respostas automáticas. A Google mostrou durante o evento I/O que se um utilizador enviar, por exemplo, uma imagem de um cão, o outro utilizador ganha automaticamente algumas possibilidades de resposta automática.

Tentei que tal acontecesse, mas não consegui. É possível que as respostas automáticas estejam por agora limitadas aos utilizadores de língua inglesa. Assim sendo, é um ‘menos’ para o Google Allo por agora.

Uma funcionalidade que é ‘mais ou menos’ é a possibilidade de inclusão do assistente digital @google nas conversas. Por um lado funciona muito bem e tem realmente bastante potencial. No entanto tem como ponto negativo apenas comunicar em língua inglesa. Se lhe escrever em português vai devolver resultados mais básicos, se for em inglês já entrega conteúdos e informações mais elaborados.

Neste aspeto o assistente pode de facto ser uma grande ajuda no desenrolar das conversas. Faça-lhe uma pergunta, peça por um restaurante italiano ou informe-se sobre como vai estar o tempo para amanhã caso queira marcar um convívio, e o @google responde de forma eficiente e rápida.

Aqui vemos a inteligência artificial da Google a funcionar a bom nível e com um sentido muito prático. O assistente @google até percebe contextos. Por exemplo, numa conversa perguntei o que eram os PlayStation VR. O @google respondeu. A pessoa com quem estava a falar perguntou ‘então e o HTC Vive?’, e o @google também respondeu acertadamente.

Há de facto aqui um grande potencial por explorar. Se até aqui o Google Now parecia estar destinado a ser o nosso acompanhante de serviço, este novo assistente @google parece estar muito mais talhado para essa tarefa.Google AlloAgora todos os dias às oito horas da manhã o @google vai dar-me as principais notícias tecnológicas do dia – curiosamente a de hoje dizia justamente para não usar o Google Allo -, vai enviar-me um vídeo engraçado e também já sabe qual é o meu clube de futebol, por isso espero pelos resultados durante os jogos.

Com esta ferramenta a Google consegue estar muito mais próxima dos utilizadores. Neste aspeto parece-me que o Allo sai à frente da restante concorrência, mas usar o @google vai exigir uma curva de aprendizagem. Se não estiver confortável com o inglês, então é por agora uma funcionalidade para esquecer e aí o Allo já vai perder muito do seu apelo.

Alô Google?

O que acabamos de descrever é a integração do assistente durante uma conversa com outro utilizador. Pode ser chamado a qualquer momento. Mas se o utilizador preferir também pode manter uma conversa ‘privada’ apenas com o @google.

Manter uma conversa passa aliás a ser um conceito relativo já que o @google dá as informações e dá-nos também as sugestões de resposta e do que queremos fazer a seguir. O objetivo é que o utilizador não tenha de esforçar-se muito para comunicar com o serviço.

As possibilidades de conversa com o @google são muito diversificadas e o mais provável é que rapidamente tenha um registo de conversa muito maior com o assistente do que com os seus contactos humanos.

 

@google comprometeu-se a enviar-me notícias todos os dias, mostrou-me quais as atrações turísticas perto de mim, enviou-me um vídeo divertido, enviou-me um facto engraçado, deu-me jogos para jogar – um dos quais era recriar uma frase do assistente em emoji -, disse-me quais os filmes que estão em exibição, mostrou-me um vídeo do meu clube de futebol e voltou a jogar comigo.Google AlloO assistente @google é de facto perspicaz e inteligente, conseguindo perceber na maior parte das vezes aquilo que o utilizador está à procura.

Nesta vertente a Google conseguiu de facto criar um elemento importante que coloca o Allo à parte da restante concorrência. O @google pode ser visto como um bot, semelhante aos que estão a ser integrados no Facebook Messenger e no Skype. Mas ao contrário de haver diversos bots para diferentes tarefas desenvolvidos por diferentes empresas, aqui temos uma única ferramenta que foi desenvolvida por uma das empresas que nos conhece melhor.

A questão da privacidade é uma das que vai pairar sobre o Google Allo, mas é aqui que destacamos outra funcionalidade. É possível o utilizador iniciar uma conversa em modo incógnito e definir durante quanto tempo as suas mensagens vão estar disponíveis. Pode ser apenas durante cinco segundos, pode durar até um dia. Esta o WhatsApp não tem e o mais próximo que encontramos é no Snapchat.

Considerações finais

O Google Allo é uma aplicação cheia de potencial. Talvez até seja a mais moderna e mais avançada aplicação do seu segmento, mas esta vantagem é quase exclusivamente visível através do assistente @google.

E este pode ser o maior problema do Allo: é uma aplicação de messaging que tem uma plataforma de inteligência artificial. Funciona bem, mas não há elementos suficientes que façam os utilizadores abandonarem em debandada os serviços que já usam.

O WhatsApp como plataforma de messaging também é bastante completa e é neste momento aquela que tem a esmagadora maioria dos utilizadores – são mais de mil milhões em todo o mundo. Num serviço como o Allo não importam as funcionalidades se não houver muitas pessoas. E prevejo que a Google vá ter alguma dificuldade em conquistar um número avultado de utilizadores assíduos.

Numa conversa com uma outra pessoa, desta vez através do ‘velhinho Hangouts’, foi-me dito: “não é fácil lançar uma app de mensagens em 2016, é preciso muita inovação para que corra bem”. Esta frase simples espelha perfeitamente o que a Google terá de enfrentar nos próximos tempos.

A qualidade do produto é inegável, ainda que existam algumas arestas por limar. Será preciso bastante apoio da tecnológica para que o Google Allo pegue de estaca – e com pessoas como o Edward Snowden a fazerem ‘má publicidade’, talvez a tarefa já esteja um pouco mais difícil.

Depois há a considerar aspetos que vão ser importantes dependendo do perfil do utilizador. Por exemplo, valorizo o facto de o WhatsApp também estar disponível em desktop. Passo uma parte do dia em frente ao computador e torna-se mais simples gerir algumas conversas a partir do local onde já está a minha atenção.

O Allo também não permite fazer chamadas de voz ou de vídeo, algo que os seus concorrentes mais diretos permitem – voz no WhatsApp, vídeo no Skype.

Ainda que esta seja a primeira versão da aplicação e que outras funcionalidades devem estar a caminho, a Google teve a (des)vantagem de já conhecer perfeitamente o que a concorrência disponibiliza. No mínimo devia conseguir igualar os restantes serviços nas suas funcionalidades nucleares.

Ainda assim o Allo pode conseguir ter sucesso. Já tem alguns ingredientes para essa receita. Não será o próximo WhatsApp, parece claro, mas à medida que as pessoas vão estando mais confortáveis com a inteligência artificial e com os bots, talvez a Google consiga a ligação ‘humana’ que tanto tem desejado alcançar, mas que não tem conseguido concretizar.

O Allo é definitivamente um aceno para a concorrência mais direta. É uma excelente aplicação. Mas ainda não é uma ameaça suficiente.

Google Allo
Design modernoExperiência divertidaAssistente @google é prático
Não há versão desktopNão faz chamadasNão faz videochamadas
4.0Em 5
Votação do Leitor 1 Voto