Quando a Google anunciou o Android Wear em maio de 2014, a tecnológica norte-americana adiantou logo o nome de alguns parceiros que iriam ajudar a trazer o novo sistema operativo para o mercado. HTC, LG, Asus, Motorola e Samsung foram algumas das empresas referidas nessa apresentação.

O objetivo era tentar replicar no mercado dos wearables o mesmo ecossistema que tinha permitido ao Android escalar até ao topo dos sistemas operativos para dispositivos móveis. No universo dos relógios inteligentes, ou dos mini-smartphones de pulso, fazia todo o sentido a Google alinhar-se com as principais tecnológicas.


Nessa mesma apresentação a Google garantiu um outro parceiro de fabrico, o Fossil Group, que é um fabricante de artigos de moda e que tem a seu encargo algumas das mais importantes marcas de luxo do mundo, sobretudo ligadas ao mundo da moda. O Fossil Group parecia ser o elemento a mais neste quadro. Parecia.

Quase três anos depois e o Android Wear não é tão forte como se pensou que pudesse vir a ser. Aliás, o próprio mercado dos relógios inteligentes não correspondeu às expectativas traçadas por analistas e entusiastas da tecnologia. Logo, a Google não foi a única a ficar com um projeto sobrevalorizado.

Leia também | O fim da Pebble: Vão-se os relógios e uma das empresas mais inteligentes dos últimos tempos

Olhamos outra vez para a lista de parceiros iniciais da Google e rapidamente percebemos como os planos não deram certo.

A HTC nunca chegou a lançar um smartwatch no mercado, ainda que tenha testado a ideia. A Motorola já disse que nos próximos tempos não vai investir no mercado dos relógios inteligentes. A Samsung chegou a produzir relógios com Android Wear, mas apenas para não magoar a relação que tem com a Google nos smartphones – os bons relógios da Samsung têm todos Tizen OS. Daqueles cinco nomes a LG tem sido, de longe, o melhor parceiro e a Asus também tem mostrado um compromisso interessante com os wearables.

Três anos depois, quando as tecnológicas parecem pouco viradas para os relógios com Android Wear, de onde vem a maior lufada de ar fresco para o software da Google? Dos fabricantes suíços de relógios e de algumas marcas de luxo.

Terminou recentemente o Baselworld, o equivalente do Mobile World Congress para o sector da relojoaria. No evento que decorreu na Suíça foram várias as marcas que anunciaram equipamentos com Android Wear 2.0: Montblanc, Fossil, Hugo Boss, Tommy Hilfiger, Diesel, Emporio Armani, Michael Kors e Movado. A estes nomes podemos acrescentar ainda o da TAG Heuer e o do seu Connected Modular 45.

São oito marcas e quase uma dezenas de relógios de uma única assentada que estendem a influência do Android Wear no mercado dos wearables e, talvez mais importante, que atiram o sistema operativo automaticamente para um segmento topo de gama. Metade destes equipamentos vêm do Fossil Group, aquele que parecia não encaixar no quadro em 2014, lembra-se?

Na Baselworld assistimos à rendição de muitas marcas à estratégia da TAG Heuer, isto é, dar aos seus negócios um pouco de modernização através da aposta em relógios inteligentes.

Estas marcas de luxo – tirando a TAG Heuer – não estão a apostar numa diferenciação tecnológica, estão a apostar numa diferenciação de estilo e de marca. Este é um aspeto que muitas tecnológicas ainda não perceberam: sim, é suposto um smartwatch ser tecnologicamente funcional, mas tem de ser igualmente bonito, apelativo e transmitir um determinado status quo.

Muitos dos relógios inteligentes produzidos pelas tecnológicas são pouco atrativos do ponto de vista do design. Foi este espaço mal explorado que talvez tenha feito avançar e tenha feito despertar o súbito interesse das marcas de luxo no segmento dos smartwatches. Viram, na prática, que a luta por este mercado estava afinal em aberto.

“Não quero criticar essas pessoas [das tecnológicas]. Parto do princípio de que eles apenas vendem tecnologia e isso não é suficiente, porque no pulso, as pessoas querem emoções, querem sonhos”, disse o presidente da TAG Heuer, Jean-Claude Biver, ao Financial Times durante a Baselworld.

Nenhuma das marcas clássicas e de luxo referidas tenciona destronar o Apple Watch do lugar de smartwatch mais vendido da atualidade. Mas se puderem ficar apenas com uma parte deste mercado valioso e amenizar as quebras que o segmento dos relógios analógicos tem sentido – 16% na primeira metade de 2016 -, então o seu objetivo estará a ser cumprido.

Leia também | Análise Alcatel Go Watch: Quem disse que o tempo não tem idade?

O Apple Watch foi importante para mostrar que há interesse e mercado para um gadget de pulso que custa em média mais de 300 euros. Depois de feito o teste de mercado, as marcas que têm experiência nesse segmento de valores decidiram tentar a sua sorte.

Se uma franja do mercado já percebeu que a tecnologia não precisa de ser uma ameaça, pode ser uma oportunidade, há outras marcas que mantêm as suas posturas mais rígidas. No caso da Swatch, a empresa já começou a apostar na modernização de alguns dos seus equipamentos, mas a empresa vai desenvolver o seu próprio sistema operativo em vez de apostar numa solução como o Android Wear. Já uma Rolex, por exemplo, continua a fazer uma aposta inalterada no valor dos relógios analógicos.

Mesmo que estas parcerias entre as marcas de luxo e a Google não resultem em vendas significativas que ajudem o Android Wear 2.0 a ficar no top 3 dos ecossistemas mais populares de relógios inteligentes, pelo menos são importantes para passar a imagem de alguma vitalidade e interesse no sector dos smartwatches.

Não, pode não ser um mercado tão grande quanto se antevia. Mas o mercado dos relógios é um que move muito dinheiro e vai sempre haver quem esteja disposto a ficar com uma fatia deste bolo.

Depois quem sabe se não há um efeito contrário: o forte interesse das marcas clássicas pode ajudar a puxar novamente o interesse das tecnológicas, criando um pequeno, mas saudável e competitivo, mercado dos smartwatches.

Sem mais artigos