A apresentação de uma nova categoria de produto por parte da Apple é sempre um momento que a indústria tecnológica recebe com especial atenção. Afinal de contas, a empresa provocou grandes mudanças com muitos dos seus produtos, sobretudo nos últimos anos. O iPod, o iPhone e o iPad ajudaram a criar a era moderna da tecnologia de consumo e ajudaram a redefinir novas indústrias.

O último grande produto apresentado pela Apple foi o Apple Watch. Apesar de não ter tido um impacto tão significativo como os seus familiares, o produto tornou-se rapidamente num negócio de mil milhões de dólares para a marca da maçã e é o produto mais vendido na sua categoria.




Ontem, 05 de junho, a Apple apresentou um novo gadget: uma coluna inteligente. Se o conceito lhe parece familiar, isso acontece pois a Amazon apresentou a Echo há já três anos e a Google Home está disponível desde novembro do ano passado. É por isso justo dizer que a Apple chega com desvantagem, mas também é justo dizer que isso nunca foi um problema para a empresa.

Apple HomePod

O HomePod tem um revestimento de tecido. #Crédito: Apple

O Apple Watch é melhor exemplo recente desta máxima: os rivais da Apple, como a Samsung, já tinha smartwatches há mais tempo no mercado, mas isso não impediu a tecnológica de Cupertino de escalar até à liderança a partir do momento em que meteu o pé nesse segmento de negócio.

Acontece que desta vez o desenrolar da história pode ser um pouco diferente, pois existem muitos factores que podem condicionar o desfecho da história. No caso das colunas inteligentes a Apple está a assumir um posicionamento distinto dos seus principais rivais.

Todos a lutar por um lugar central

Enquanto a Amazon e a Google pensaram as suas colunas como um gadget que dá acesso a um assistente inteligente, a Apple está a posicionar o HomePod acima de tudo como um sistema de som que acaba por ter a Siri integrada. Para a Amazon e a Google as suas colunas são mais software do que hardware, para a Apple é justamente ao contrário.

É uma diferença que pode parecer insignificante, mas que tem logo à partida uma grande influência no preço final do equipamento. O Apple HomePod vai custar 350 dólares, enquanto a Amazon Echo custa 180 dólares e a Google Home custa 120 dólares.

A diferença explica-se pela maior aposta na qualidade sonora da coluna: em teoria o Apple HomePod vai entregar uma melhor experiência de som. A coluna tem sete emissores de som, um subwoofer de grandes dimensões e tem ainda seis microfones.

Apple HomePod

A questão é: vão os utilizadores querer comprar uma boa coluna com um assistente digital ou um assistente digital que garante uma qualidade de som mediana? Se o objetivo for mesmo ter acesso a um assistente digital em primeiro lugar, a Amazon e a Google parecem levar vantagem.

Além da Amazon Echo, a empresa liderada por Jeff Bezos também tem a Amazon Echo Dot, uma pequena coluna que custa 50 dólares e que apesar de ter um som mais fraco, garante a Alexa exatamente com o mesmo número de skills disponíveis.

Esta é uma área onde a chegada tardia da Apple ao segmento das colunas inteligentes pode ter um peso significativo em comparação com outros mercados nos quais já apostou. Atualmente já existem milhares de programadores a desenvolver funcionalidades e integrações para a Amazon Echo e para a Google Home. Só agora é que os programadores da Apple vão começar a meter a ‘mão na massa’.

O Apple HomePod só fica disponível em dezembro

Além disso, e sobretudo no caso da Alexa, a assistente já está disponível numa grande variedade de equipamentos e não apenas numa coluna inteligente ou em smartphones. Isto pode acabar por ser um factor mais apelativo para os programadores, pois ao desenvolverem para a Alexa estão também a garantir que o seu trabalho estará integrado em frigoríficos, aspiradores e outras appliances. O desenvolvimento para a Siri da Apple é muito mais fechado e muito mais limitado na integração com outros equipamentos.

Por outro lado, a Apple tem 16 milhões de programadores registados nos seus programas de desenvolvimento e é responsável por alguns dos mais imponentes e coesos ecossistemas da atualidade – o iOS é o melhor exemplo desta força.

O HomePod só vai ser vendido nos EUA, Reino Unido e Austrália. A Apple vai depois alargar a comercialização a mais países em 2018

Em resumo, o Apple HomePod começa com algumas desvantagens significativas, mas será esta uma diferença de tal ordem que torne muito difícil à marca da maçã recuperar a desvantagem para os rivais? A promessa de um melhor som justifica o facto de que com o mesmo valor é possível comprar quase duas Amazon Echo e quase três Google Home? Numa coluna inteligente é o som mais importante ou o assistente em si?

A resposta não é linear e pode até acontecer que as empresas mais afetadas pelo Apple HomePod nem sejam a Amazon e a Google, mas sim empresas como a Sonos, a Sony e a JBL – são tecnológicas que têm apostado também na criação de colunas Bluetooth com um grande foco na qualidade sonora, mas neste caso o HomePod ainda traz a Siri e todas as suas funcionalidades como uma vantagem.

A palavra final pode estar no trabalho e no apoio dos programadores – não foi à toa que a Apple revelou o HomePod no Worldwide Developer Conference.