Passou uma semana desde que a Agência Federal de Investigação (FBI na sigla em inglês) anunciou ter conseguido aceder ao iPhone de um dos alegados atiradores de San Bernardino sem a ajuda da Apple. O caso que prometia uma guerra de grandes proporções entre as partes acabou com pouca intensidade e de forma suave.

Agora que o pó parece ter assentado é uma boa altura para fazer a questão ‘quem venceu afinal?’. Terá sido a Apple? Terá sido o FBI? Terão sido os utilizadores? Terá sido a segurança nacional? Terá sido a privacidade? Então e se ninguém venceu, mas também não perdeu? Será que ficou tudo na mesma?

Esta última questão é fácil de responder: na mesma não ficou pois o caso mexeu com as pessoas, sobretudo com os norte-americanos. Estar do lado do FBI significava colocar a segurança nacional acima do interesse próprio e da vida privada, para o bem de todos. Estar do lado da Apple significava valorizar a privacidade como um dos bens mais importantes da sociedade e de certa forma garantir que pelo menos durante mais algum tempo as agências de segurança não andariam a bisbilhotar a vida dos cidadãos.

Mas eles não fazem isso’. Diga isso ao Edward Snowden que em 2013 revelou ao mundo alguns podres sobre as práticas e condutas das agências norte-americanas, como a Agência Nacional de Segurança (NSA na sigla em inglês) que vigiavam, escutavam e bisbilhotavam a vida de muitas pessoas a seu bel-prazer.

Pode até dizer-se que o caso Apple vs. FBI é ainda um resultado prático das revelações feitas por Edward Snowden: se não tivesse havido perda de confiança nas autoridades, talvez o pedido do FBI não tivesse tido tanto impacto.

Mas esta é uma questão do domínio dos ‘ses’. Os factos mostram que o FBI fez o pedido e a Apple rejeitou-o categoricamente.

Há vencidos?

O FBI pediu a remoção da ordem judicial que queria obrigar a Apple a desenvolver uma versão alterada do iOS que de certa forma baixava o nível de segurança dos iPhone. Isto porque a agência diz ter encontrado um método para aceder ao equipamento sem necessitar da ajuda da tecnológica de Cupertino.

A Reuters adiantou na altura que a empresa israelita Cellebrite podia estar a ajudar o FBI nesta missão. Candidatos para a tarefa terão havido alguns, já que até o excêntrico John McAfee, candidato às presidenciais norte-americanas e criador do software antivírus McAfee, disponibilizou-se para desbloquear o iPhone da discórdia.

O investigador Jonathan Zdziarski publicou inclusive no YouTube a forma como pensa que o FBI terá conseguido aceder ao smartphone. Na prática é possível contornar o bloqueio do equipamento ao fim de várias tentativas erradas de introdução do código, explorando uma falha que existe na memória flash do dispositivo.

“A nossa decisão de terminar o litigio foi baseada apenas e só no facto de, com a ajuda de uma entidade externa, agora sermos capazes the desbloquear o iPhone sem comprometer qualquer informação do dispositivo”, comentou na altura a representante legal do governo norte-americano, Eileen M. Decker, citada pela Wired.

Visto desta forma parece que o FBI sai claramente vencedor desta disputa. Mas pode não ser bem assim, caso o objetivo da agência de segurança fosse outro. Poucos dias após o início do braço de ferro relativo ao iPhone de San Bernardino, surgiram informações a dizer que afinal a agência já tinha pedido o desbloqueio de um total de 13 smartphones da Apple.

Se a intenção era ganhar uma chave-mestra para o sistema operativo iOS, então nesse aspeto o FBI pode ter saído derrotado. Mas como nunca existirão certezas destas hipotéticas intenções, vale o facto tenebroso de atualmente a força de inteligência saber desbloquear iPhone, mas nem a própria Apple saber como.

 

Já do lado da marca da maçã a questão põe-se justamente ao contrário: como a Apple não precisou de baixar a segurança no iOS, então pode ser vista como vencedora. Mas visto que o FBI atingiu o seu objetivo de entrar no iPhone e agora ninguém saber como, será que os utilizadores podem dormir descansados à noite?

Se o argumento principal da tecnológica de Cupertino era a privacidade, então claramente a Apple sai enfraquecida desta história. Ainda que tenha recebido o apoio das principais gigantes norte-americanas como a Google, Microsoft e Facebook.

No comentário final ao caso a Apple parece inclusivamente adotar um tom neutro sabendo o que estava em jogo.

“Desde o início que rejeitamos a ordem do FBI para a Apple construir uma backdoor para o iPhone por acreditarmos que era errado e abriria um precedente perigoso. Como resultado do recuo do governo, nenhum destes ocorreu. Este caso nunca devia ter sido apresentado”, comentou a tecnológica. Além disto a Apple apenas comprometeu-se a aumentar a segurança dos seus equipamentos.

Há vencedores?

Se as possibilidades ainda em jogo mostram que parece imprudente falar em vencidos, falar em vencedores parece igualmente perigoso. Isto porque tanto o FBI como a Apple podem ter ficado mal na fotografia.

A Agência Federal de Investigação por vários motivos: facto de não conseguir desbloquear o iPhone sem ajuda; facto de ter dito, sobre juramente, que era impossível desbloquear o iPhone sem a Apple; e pelo facto de ter vários especialistas em segurança informática a dizerem desde o início que esta era uma falsa postura de ‘modéstia’.

A Apple por ter recusado desbloquear um iPhone, dizendo que isso de certa forma comprometeria a segurança e privacidade dos restantes dispositivos iOS. Como responsável por este sistema operativo a tecnológica deve conhecer melhor do que ninguém o seu software – não haveria forma de a Apple desbloquear de facto apenas e só aquele iPhone? Não podia a empresa ter recolhido o equipamento, acedido aos dados e entregar aquilo que as autoridades pediam?

Pode parecer o contrário, mas o caso não termina aqui

Olhando para todos os pesos nos dois lados da balança parece fácil perceber que o caso Apple vs. FBI está longe de ficar por aqui. Seja relativo ao iPhone de San Bernardino em específico ou esteja relacionado com pedidos de acesso a outros smartphones.

Voltando às questões do início:

Terá sido a Apple a vencedora? Dificilmente.
Terá sido o FBI o vencedor? Dificilmente.
Terão sido os utilizadores os vencedores? Dificilmente.
Terá sido a segurança nacional? Só o tempo o poderá dizer, mas espera-se que com a informação resgatada as autoridades consigam perceber melhor o ataque terrorista.
Terá sido a privacidade? Só o tempo o poderá dizer, visto que ainda não é certo se o método usado pelo FBI e seus amigos apenas são válidos para um iPhone ou se é transversal a outros equipamentos iOS.

Percebe agora por que motivo houve tanta discussão relativamente ao caso da Apple contra o FBI? E o leitor, que opinião tem sobre esta questão?

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