Para muitos já é difícil de imaginar o dia a dia sem a ajuda das aplicações móveis. Se precisa de transporte há uma aplicação que o chama por si. Se quer saber as últimas novidades também há aplicações que reúnem a melhor informação. Jogos, receitas, messaging, finanças, saúde, produtividade ou desporto. É só dizer.

Em bom rigor é possível dizer que existe uma aplicação para quase todos os aspetos da nossa vida. No final de 2015 existiam 1,6 mil milhões de aplicações no Google Play, a loja do Android, e 1,5 mil milhões de apps na App Store, loja do iOS, segundo valores do site Statista.



A economia das aplicações tornou-se de tal forma vital que até gigantes como a Microsoft tiveram dificuldade em responder atempadamente aos novos perfis de consumo e acabaram por pagar uma fatura cara – o Windows não foi um sucesso nas plataformas móveis.

A revolução das aplicações móveis começou em 2007 quando a Apple apresentou o iPhone. O smartphone em si era tecnologicamente avançado, mas foi o conceito de conteúdos por aplicação que veio mudar por completo o paradigma da computação. Nesse ano o smartphone da marca da maçã chegava ao mercado apenas com oito aplicações.

Agora contemplai o ano de 2016, no qual são notórias algumas alterações no paradigma das aplicações móveis. O cofundador da Siri e da Viv Labs, Adam Cheyer, está convencido que estamos a viver uma fase em que surgirá o próximo grande paradigma, que será dominado pelas assistentes virtuais.

Não são as assistentes virtuais, de certa forma, uma aplicação? Podemos considerar que sim, ainda que estejam muito mais integradas no software do que qualquer outra app. Mas o que estamos a assistir é a um agregar de funções por parte desses mesmos assistentes.

Ainda que o desenvolvimento de aplicações continue a ser vital, a forma como usamos essas aplicações está a mudar.

Por exemplo, o Facebook Messenger permite chamar um uber sem ser necessário sair da aplicação. Veja como:

É esta integração de serviços dentro de outros serviços que está a provocar uma mudança no paradigma das apps. Os utilizadores passam uma boa parte do seu tempo nas redes sociais ou nas plataformas de messaging e são estes serviços que estão a funcionar como agregadores de funcionalidades.

Quando o Facebook anunciou recentemente os chats bots estava apenas a acentuar ainda mais esta mudança. Agora é suposto que as próprias empresas criem robôs de conversação que podem ser integrados no Messenger e que permitem executar tarefas sem sair da app. Seja comprar flores, pedir uma pizza ou apenas saber o estado do tempo.

Estamos portanto numa era em que os programadores são convidados a desenvolver aplicações que funcionem dentro de aplicações. A tendência é para que as pessoas usem menos e menos aplicações de forma singular ao longo do tempo, mas usem mais serviços a partir de um mesmo local.

Voltando a Adam Cheyer e ao seu mais recente projeto, a assistente digital Viv. Esta plataforma é mais um exemplo de um serviço que integra milhares de outros para que o utilizador não precise de usar três aplicações diferentes para conseguir um único resultado final.

O objetivo é que venha a usar apenas a Viv para a maior parte das suas tarefas. Basta fazer-lhe um pedido, por muito complexo que seja, que a assistente escreverá o seu próprio código em alguns milissegundos para dar ao utilizador aquilo que ele procura.

Mas entre assistentes e plataformas de messaging há mais motivos para acreditarmos que as aplicações tal como as conhecemos estão a chegar a um fim.

A Internet responsiva

O desenvolvimento de aplicações móveis foi uma forma que as empresas e as marcas arranjaram para estar próximas dos consumidores. Mas desde o lançamento do iPhone original muito mudou nos próprios smartphones e no ecossistema online no geral.

Ao nível de hardware os smartphones evoluíram de forma significativa em quase todos os aspetos – continua a faltar a autonomia – e atualmente já existem smartphones muito perto da perfeição.

Do lado da Internet assistiu-se sobretudo ao crescimento dos sites responsivos. Estas estão páginas online que adaptam-se automaticamente em formato e experiência de utilização tendo em conta o equipamento através do qual está a ser feito o acesso. Um exemplo: o próprio FUTURE BEHIND é responsivo e é diferente se aceder no computador, no tablet ou no smartphone.

future-behind-responsive

Na prática isto significa agora que muitas empresas, marcas ou serviços apenas precisam de ter um site responsivo para estar junto dos consumidores. Alguns de notícias, como o The Verge, desistiram de ter uma aplicação móvel para terem apenas e só um site responsivo.

A chamada Internet responsiva já está implementada nos principais serviços tecnológicos, mas ainda existe muita World Wide Web que ainda não fez esta transição. Mas este será um aspeto que terá tendência para mudar ao longo dos próximos anos.

É verdade que as aplicações móveis continuam a permitir a integração de muitas mais funcionalidades como o facto de ser possível ter notificações e distribuição de conteúdos personalizados por utilizador. Só que o passo já não será talvez apostar numa aplicação, mas antes num bot que possa ser integrado noutro serviço onde o utilizador passe mais o seu tempo.

Desmaterialização das aplicações

Se ainda lhe restam algumas dúvidas de que as aplicações estão a ser desmaterializadas, a Google acabou com elas de vez ao apresentar o conceito de Instant Apps. Foi uma das grandes surpresas da conferência Google I/O e será uma das que pode vir a ter maior impacto na forma como os consumidores se relacionam com as apps.

O exemplo dado durante a conferência foi simples. Duas pessoas estão a conversar através de uma plataforma de messaging e uma delas partilha um link de um vídeo do Buzzfeed pois usa a aplicação Buzzfeed Video. A segunda pessoa não tem essa aplicação instalada, mas quando carrega no link vê o conteúdo dentro da aplicação nativa.

Como? Podemos chamar a isto de virtualização das aplicações. Na prática possibilita que o utilizador use a aplicação sem que a tenha instalada no smartphone.

É a Google, os seus servidores e nova arquitetura de aplicações Android que vão permitir isto. O que acontece é que o utilizador ao carregar naquele link vai fazer com que seja feito o download, em segundo plano, da parte específica da aplicação que é necessária para ver o conteúdo. Assim que já tiver visualizado os dados são limpos e volta tudo ao normal.

Serão os programadores Android quem terão de implementar esta possibilidade ao construírem as suas apps por camadas. Isso fará com que o utilizador possa aceder apenas a uma de 20 camadas possíveis, por exemplo.

Isto para dizer o quê? Que para usar aplicações já não será sequer obrigatório ter as aplicações instaladas no seu equipamento, algo que a Google tem vindo a testar ao longo dos últimos meses com pequenas funcionalidades. Uma delas, por exemplo, permite pesquisar por uma aplicação no Google e ter diretamente no browser uma experiência de como é a app.

Ainda agora está a começar

As aplicações não vão acabar. Mas as aplicações tal como as conhece atualmente sim. Mais: a forma como vai relacionar-se com essas aplicações vai mudar drasticamente, sendo este um dado quase adquirido.

As plataformas de messaging e as assistentes virtuais vão assumir um papel cada vez mais importante neste sentido. Os robôs de conversação também ajudarão a mudar o paradigma. E em breve em vez de ter 80 aplicações instaladas no seu equipamento talvez só precise de ter umas 15 ou 20.

A melhor parte é que poderá continuar a fazer o seu dia a dia com a ajuda dos serviços que já usa atualmente.