Passaram quase três anos desde que o BITalino se deu a conhecer ao mundo. O projeto consiste numa placa eletrónica de baixo custo constituída por diferentes biosensores que permitem recolher dados do corpo humano. A forma como estes sensores são explorados depende apenas da necessidade e da imaginação de cada um. Depois de três mil unidades expedidas para todo o mundo o BITalino ganhou uma nova versão, acertadamente apelidada de (r)evolution.

Ou seja, não é uma total revolução visto que o conceito mantém-se praticamente inalterado, mas as novidades do novo kit de desenvolvimento são suficientes para marcar o início de uma nova geração na história do BITalino.



“Tem quase o dobro dos acessórios no mesmo formato, sem alterar as dimensões da placa e mantendo o preço. Mesmo os sensores que existiam anteriormente foram todos remodelados. Nos casos mais extremos o tamanho reduziu-se até cerca de 60%. Foi mesmo uma modificação muito radical”, explica o diretor de inovação da Plux Technologies, Hugo Silva, em entrevista ao FUTURE BEHIND.

O BITalino (r)evolution até pode ser pouco maior do que um smartphone, mas é um verdadeiro laboratório ambulante de tecnologia.

Nesta versão os elementos novos são o módulo de medição de atividade cerebral, o buzzer para que os utilizadores possam ter um feedback sonoro, o botão físico para a anotação de eventos, o conversor de sinais digitais para sinais analógicos, o módulo Bluetooth Low Energie (BLE) e a placa de prototipagem integrada.

Hugo Silva refere que estas novas adições são um misto de evolução tecnológica natural do projeto e pedidos que foram sendo feitos pela comunidade de utilizadores do BITalino ao longo dos últimos meses. “O BLE foi mais um pedido da comunidade, as pessoas queriam ligar o BITalino aos dispositivos iOS, queriam ter outro tipo de funcionalidades e nós ouvimos esses pedidos e integrámos”, exemplificou.

Se para o comum dos mortais pode parecer difícil explicar como é que é possível concentrar tantos módulos distintos num kit tão pequeno, para Hugo Silva isso explica-se pela experiência que a Plux Technologies tem no desenvolvimento e avaliação do mercado dos sensores biométricos.



“Temos trabalhado com a nossa equipa de engenharia que já tem muita experiência no desenvolvimento de sistemas integrados. E temos também estado alerta daquilo que são as novidades que são lançadas pelos próprios fabricantes. Muitos destes circuitos usam chips que não somos nós que fazemos, são feitos por fabricantes maiores e portanto é um pouco também essa monitorização do que vai saindo nesta área que nos permite chegar a este nível de integração”, explica o CIO da empresa.

 

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Hugo Silva, diretor de inovação da Plux Technologies, segura uma das novas versões do BITalino. #Crédito: Future Behind

Hugo Silva dá como exemplo a diferença nos conectores usados entre a versão original do BITalino e o novo modelo.

“Anteriormente estávamos a utilizar um tipo de conectores que tinha algumas facilidades porque eram simples de montar, mas estávamos a ter algumas dificuldades com cabos partidos e problemas de fiabilidade. Com base no conhecimento que já tínhamos e na procura que fizemos, adotamos estes novos conectores que são conectores estilo USB, com um formato específico em que garante a robustez da ligação, os cabos ligam-se ao sistema de forma fiável e robusta”.

O preço do BITalino (r)evolution começa nos 150 euros e inclui elétrodos, uma bateria e cabos de ligação, além da placa e módulos principais

Mas nem só de hardware se faz o novo BITalino. Se nas versões anteriores o software apenas permitia a captação de dados em tempo real, agora é possível fazer uma comunicação dos dados quando o programa para computador ou smartphone faz esse pedido. Um pouco acontece já com uma boa parte dos wearables que existem no mercado.

Uma forma de percebemos melhor as potencialidades do novo BITalino passa por um exemplo concreto. Antes apenas era possível controlar um LED na sua forma mais básica, isto é, ligar e desligar. Agora graças ao conversor de sinais digitais para analógicos é possível controlar também o grau de intensidade da luz. Mas Hugo Silva partilhou um outro exemplo interessante.

“Na versão atual, com a introdução do sensor de EEG, temos (…) uma equipa na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que desenvolveu uma headband que mede dois canais de atividade cerebral: o que permite a uma pessoa andar num museu e em conjunto com outros sinais perceber quais são as peças do museu que estimulam mais essa pessoa”.

Cidadão do mundo

O BITalino é um projeto português como poucos outros, sobretudo no que diz respeito à receção internacional. Foi notícia nos grandes meios da especialidade como o Engadget, a Wired, a Make Magazine, The Scientist e o TechCrunch. Também um pouco graças a esta cobertura mediática conseguiu chegar junto de organizações de renome mundial.

MIT, Standford, Harvard, Boeing, Samsung, IBM, Microsoft e Intel são alguns dos nomes que têm ou já tiveram investigadores a trabalhar com o BITalino. Recentemente, no início deste ano, também a marca de automóveis Smart, do grupo alemão Daimler, criou um anúncio publicitário onde o kit de desenvolvimento português era a estrela escondida. Consegue encontrá-lo?

O BITalino foi a tecnologia usada para a leitura dos sinais vitais dos condutores, a fim de ser possível perceber se estavam ou não a mentir.

“[Na Smart] Trabalharam com uma outra empresa que garantiu a parte tecnológica. (…) Para nós é muito gratificante termos estas pessoas a olharem para as coisas que estamos a fazer e a reconhecer como tecnologias de valor acrescentado para concretizarem os seus próprios objetivos. É um reconhecimento muito importante do trabalho que temos estado a fazer”.

Hugo Silva acrescentou ainda: “Quando vemos uma empresa grande a olhar para as coisas que estamos a fazer, a gastarem tempo e a investirem no suporte oficial do BITalino, enche-nos de orgulho pois é uma manifestação de que estamos a fazer as coisas certas, na altura certa e que é um caminho que tem sentido no contexto atual”.

No caso da Intel, por exemplo, a Plux Technologies acabaria por desenvolver uma pulseira inteligente com a gigante norte-americana para o controlo do smartphone tendo por base os gestos da mão. “Queriam utilizar sinais musculares no pulso para  controlar telemóveis e computadores sem lhes tocar. Um caso típico que reportavam muitas vezes é ‘uma pessoa está numa reunião, o telemóvel começa a tocar e para desligar a chamada fazemos apenas um gesto‘”.

Neste caso não foi o BITalino a plataforma usada, mas foi o kit de desenvolvimento que abriu a possibilidade à Plux Technologies para esta iniciativa.

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À esquerda, a versão original do BITalino lançada em 2013. À direita, o novo BITalino (r)evolution. Apesar de parecidos, é notória a diferença de concentração tecnológica nas duas placas. #Crédito: Future Behind

Há outras utilizações que também deixam os responsáveis do BITalino orgulhosos como o facto de ter sido criado um interface de desenvolvimento que é compatível com o software MATLAB, uma das mais conhecidas plataformas de computação científica usadas no segmento da investigação.

Atualmente 95% dos projetos do BITalino são realizados no estrangeiro, um valor que deixa Hugo Silva com um sentimento agridoce: é bom ver o projeto reconhecido internacionalmente, mas também gostava de ter uma maior presença junto dos criadores e investigadores portugueses.

Na página online do BITalino vão sendo destacando alguns projetos que são concretizados com a plataforma eletrónica, mas há um outro exemplo que merece ser aqui partilhado: controlar um drone com os movimentos do braço, um projeto feito em conjunto com a empresa portuguesa Beeverycreative.

“Eles fizeram um conjunto de caixas brutais para todas as versões do BITalino. E uma delas foi esta pulseira, impressa num filamento flexível que estão a lançar agora, em que neste caso estava preparado para receber três sensores musculares. Consegue detetar alguns gestos e controlar o drone. (…) Isto são imagens reais, são coisas mesmo feitas com o dispositivo que está a funcionar”.

Esta multiplicidade de projetos e de países onde o BITalino já marca presença é, no fundo, o concretizar do grande objetivo que está definido para a plataforma: “Eu penso que o grande objetivo é continuar a chegar a mais pessoas e permitir levar este conhecimento dos biosinais ao maior número de pessoas possível e permitir-lhes criarem os seus próprios projetos”, salientou Hugo Silva.

“O BITalino foi criado como uma plataforma para resolver uma lacuna que existia na comunidade e, portanto, tem vindo a fazer esse caminho – acho que de uma forma muito interessante – e o nosso objetivo é continuar e estabelecer o BITalino como a plataforma de referência para a educação e para a prototipagem de dispositivos baseados em biosinais”, acrescentou.

Para continuar a cair nas boas graças da comunidade de investigação e dos makers, o BITalino vai evoluir mais em termos de ecossistema. Ainda este ano deverá ser disponibilizado um módulo que vai permitir fazer o processamento local de informações, não sendo necessário recorrer a um equipamento externo. Ou seja, a placa vai ter a possibilidade de realizar tarefas autónomas.

Outro objetivo a curto prazo é continuar a simplificar a componente de software. “É a barreira que nós temos sentido agora também, que as pessoas muitas vezes começam a trabalhar com o sistema, mas depois não têm as ferramentas, sentem a falta de algumas ferramentas de software”.

“Diria que sim, que chegamos a um bom ponto, mas penso que a trajetória será de crescer ainda mais e de conseguirmos chegar a mais pessoas com um maior número de ferramentas, será esse o objetivo”.bitalino-revolution (1)

Cada BITalino leva consigo na parte traseira uma representação de Portugal e a inscrição “Desenhado em Portugal, construído para o mundo”

O BITalino já percorreu um longo caminho. Nasceu como uma forma de dar resposta a uma necessidade específica que Hugo e outros investigadores do Instituto de Telecomunicações em Lisboa tinham.

“Estávamos a trabalhar num tema que era a utilização dos sinais do coração como uma modalidade biométrica, quase como uma impressão digital”. Para este estudo precisavam de analisar os dados de dezenas de pessoas, o que implicava ter dezenas de equipamentos. Os principais modelos podiam custar, com facilidade, diz Hugo Silva,  cerca de 10 mil euros.

“A primeira coisa que fizemos foi desenvolver o sensor e ligá-lo ao Arduino”, recorda. Não resultou devido a algumas limitações tecnológicas. Decidiram portanto criar o seu próprio microcontrolador. “À medida que fomos desenvolvendo o trabalho começámos a pensar que, talvez, as necessidades que tínhamos para os sinais cardíacos também outras pessoas tinham para os sinais musculares, para os sinais do sistema nervoso e para outro tipo de sinais”.

“E foi daqui que surgiu a ideia original, foi de uma necessidade muito impulsionada pelas circunstâncias do país a nível económico”.

Atualmente o BITalino é apenas um dos quatro pilares nos quais se baseia o negócio da Plux Technologies e Hugo Silva não tem dúvidas em dizer: “O que tem acontecido tem sido fantástico”.

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