Aquilo que muitos temiam/ansiavam aconteceu: a moeda digital Bitcoin foi dividida, dando origem a uma nova tipologia da criptomoeda que é conhecida como Bitcoin Cash. A divisão, ou hard fork como lhe chamam nos círculos especializados, aconteceu porque a comunidade de utilizadores do Bitcoin não se entendeu quanto ao futuro da divisa digital.

Há um ponto no qual todos parecem concordar. A forma como o Bitcoin foi originalmente concebido não teve em conta os níveis de popularidade que tem atualmente e que pode vir a ter ainda mais no futuro. A rede do Bitcoin só consegue suportar sete transações por segundo ou um total de 1MB de informação por bloco.

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Estas características ainda vão servindo os interesses da comunidade, mas se o Bitcoin tenciona mesmo assumir-se como uma alternativa digital ao atual sistema financeiro, então estes são limites que facilmente vão ser atingidos.

Aliás, em parte foram estes pontos fracos do Bitcoin que desde o início motivaram o aparecimento de moedas alternativas. O Litecoin, por exemplo, cedo usou os baixos limites de transação da rede Bitcoin para se posicionar como uma alternativa viável.

A comunidade de utilizadores do Bitcoin começou então a discutir opções sobre como melhorar a criptomoeda. Uma primeira solução, que passa pela integração da tecnologia SegWit2x, resolve parte deste problema. A partir de novembro cada bloco de informação enviado para a rede Bitcoin passa a ter um tamanho máximo de 2MB, duplicando assim a capacidade da rede.

Mas nem esta transformação sossegou os mais ambiciosos. Foi por isso que surgiu o Bitcoin Cash, uma variante do Bitcoin que consegue incluir 8MB de informação por bloco – ou seja, oito vezes mais do que aquilo que a rede atual do Bitcoin suporta e quatro vezes mais do que vai suportar num futuro próximo.

O Bitcoin original é identificado como BTC, já o Bitcoin Cash é identificado com as siglas BCC/BCH

Esta não é a primeira vez que existe um hard fork numa criptomoeda – por exemplo, o Ethereum também já sofreu uma divisão, havendo a moeda principal e o Ethereum Classic, uma facção que preserva a visão original desta blockchain.

À hora de publicação deste artigo o Bitcoin tinha um valor de mercado de 44 mil milhões de dólares, um número muito significativo e que muitos contavam que fosse abalado pelo processo de divisão. Sim, o Bitcoin perdeu algum valor nas horas que se seguiram ao hard fork, tendo chegado a desvalorizar perto de 7%, mas o valor tem-se mantido estável na casa dos 2.700 dólares.

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Com a divisão, o Bitcoin Cash já é a terceira criptomoeda mais valiosa do mundo segundo dados do Coin Market Cap, tendo um valor global de sete mil milhões de dólares e um valor unitário de 436 dólares – uma subida de 50% face ao valor com que surgiu nos mercados.

Explicado assim até parece que este foi um processo relativamente pacífico e que todos ficam a ganhar – quem quiser fica no Bitcoin antigo, quem quiser migra para o Bitcoin novo. Isto é verdade para quem guarda os seus próprios bitcoins, em carteiras instaladas nos seus equipamentos. Quando abrir a sua conta terá o mesmo valor nas duas moedas, podendo optar por qual quer utilizar.

Já aqueles que têm os seus bitcoins guardados em mercados de transação é que podem agora ficar numa situação de maior indecisão. Há mercados que já disseram que vão suportar o Bitcoin Cash, casos do Kraken e do ViaBTC, segundo avança o Engadget. Já um dos maiores mercados online de criptomoedas, o Coinbase, já disse que não vai suportar o Bitcoin Cash num futuro próximo, pois não sabe se vale a pena atualizar todo o seu sistema para uma moeda sobre a qual não têm certezas que vá durar muito tempo.

O Bitcoin Cash preserva todos os registos da rede Bitcoin original, mas a partir do bloco 478.558 passou a criar os seus próprios registos

O maior volume de transações que o Bitcoin Cash suporta significa que no futuro só máquinas mais poderosas poderão contribuir de forma significativa para a ‘verificação’ da rede. Ao limitar esta contribuição dos utilizadores, os defensores do Bitcoin original acreditam que o objetivo da descentralização fica ameaçado.

Depois há a questão da própria divisão – numa altura em que muitos utilizadores ainda não entenderam muito bem o que é o Bitcoin, terão já de optar por duas variantes do Bitcoin… ou apostar noutra criptomoeda em alternativa. A ideia de que uma moeda pode ser dividida em dois pode minar a confiança de alguns utilizadores. Como se sentiria se lhe dissessem que a partir de amanhã existem duas versões do Euro?

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Em bom rigor, o verdadeiro impacto que esta divisão irá ter não é algo que se possa sentir no imediato, mas sim apenas a médio prazo. Tudo dependerá do número de utilizadores que passam a suportar o Bitcoin Cash e a forma como os mercados vão reagir a este processo de transição. A própria evolução do valor das moedas também acabará por ter um desfecho importante a este nível – por exemplo, o Bitcoin Cash pode parecer mais atrativo para novos utilizadores por ter um valor de investimento teoricamente mais baixo. Quantos mais utilizadores o Bitcoin Cash tiver, mais estável e ‘confiável’ vai ser esta rede. Se não atrair muitos interessados, então será uma rede volátil e pouco convidativa para investimentos.

Segundo uma reportagem do Business Insider, as primeiras horas têm sido promissoras para a nova criptomoeda – o mercado australiano Blockchain Global está a sentir uma forte procura pelo Bitcoin Cash.

Esta divisão pode no entanto levantar algumas dúvidas: pode, por exemplo, o Bitcoin ou o Bitcoin Cash sofrer novas divisões no futuro? A resposta é sim. Os programadores podem criar novas versões do software que têm novas regras – como foi o caso do Bitcoin Cash. Mas para que uma nova rede possa ser criada, é necessário que essa rede receba um determinado nível de apoio – no caso do Bitcoin Cash era necessário que o número de apoiantes criasse um volume de transações que superasse 1MB de informação, o limite do Bitcoin original.

Este momento demorou a chegar, como relata o CoinDesk, chegando a colocar alguma desconfiança no futuro do Bitcoin Cash. Passadas sete horas o limite de informação do Bitcoin antigo foi ultrapassado, criando assim oficialmente uma nova rede de Bitcoin.

Em termos práticos os utilizadores agora podem investir e minerar na versão do Bitcoin no qual mais acreditam – ou até em ambas, se acreditarem que as duas criptomoedas vão conviver durante vários anos.