Eram quase seis horas da manhã quando o Bitcoin registava um novo máximo histórico no seu preço: 3.040 dólares, o equivalente a 2.710 euros. Desde então a moeda digital foi abalada por uma quebra acentuada e repentina que ceifou quase 300 dólares à sua valorização unitária e tudo no espaço de alguns minutos. O preço da criptomoeda tem estado um pouco volátil desde então.

Mas o destaque aqui vai para o facto de o Bitcoin ter ultrapassado pela primeira vez a barreira dos três mil dólares. De acordo com o índice Coindesk, o valor foi atingido pela primeira vez ontem, 11 de junho, quando eram quase 16 horas em Lisboa.

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Bitcoin junho 2017

Nos últimas semanas tem provavelmente encontrado muitas notícias deste género: ‘Bitcoin ultrapassa X’, ‘Bitcoin bate novo recorde’ ou ‘Nunca o Bitcoin valeu tanto’. A verdade é que todas são verdadeiras e factuais. O Bitcoin tem estado numa fase ascendente muito constante e isso faz com que o preço da divisa esteja sempre a atingir novos máximos históricos.

Ainda a 12 de maio escrevíamos que o Bitcoin ultrapassava pela primeira vez a barreira dos 1.800 dólares, com alguns analistas a dizerem já na altura que poderia vir a valer entre 3.000 a 4.000 dólares por unidade. Afinal estas não eram perspetivas de longo termo, eram mesmo previsões realizáveis a curto prazo.

Em linhas gerais tem existido uma maior confiança e uma maior aceitação do Bitcoin como uma alternativa de pagamento, sobretudo em ambiente online. A tecnologia basilar do Bitcoin, o blockchain, tem também sido reconhecida como um sistema eficaz que pode ajudar diferentes sectores de atividade, o que acaba por ajudar a construir uma maior imagem de confiança em torno das criptomoedas.

E como já dissemos, o crescimento de outras criptomoedas, principalmente a Ethereum, tem ajudado a criar um momento positivo para todo este segmento e não apenas para o Bitcoin – o Ethereum já valorizou mais de 3.000% apenas no ano de 2017.

Apesar de todo o ‘sobe e desce’ que existe no preço unitário destas divisas digitais, há uma questão que para muitas pessoas ainda é uma incógnita: como é definido o preço do Bitcoin?

A lei da oferta e da procura

Por que razão o ouro vale o que vale? Isto está relacionado com dois princípios básicos da economia de mercado: é um bem escasso e é um bem com utilidade. A questão do escasso ninguém questiona, tendo em conta que é um metal raro e cuja extração é difícil e implica avultados investimentos. Já a questão da utilidade é mais debatível – o ouro é acima de tudo usado como elemento de decoração e ostentação.

Apesar de já não ter tanta valorização junto dos mais jovens, a verdade é que o ouro como elemento precioso criou um histórico de estatuto premium – basta por exemplo lembrar que os modelos mais caros do Apple Watch eram construídos em ouro de 24 quilates.

Tendo em conta a escassez e a utilidade de um produto, isso vai gerar depois uma determinada oferta e procura por parte desse produto, isto é, aqueles que vendem e aqueles que querem comprar.

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O ouro funciona aqui como um paralelismo do Bitcoin. O Bitcoin é também ele um elemento raro – no total só podem existir 21 milhões de bitcoins, o que torna a divisa digital num recurso limitado. A criação de Bitcoin está também assente num modelo de extração de grau de dificuldade multiplicador – a cada doze meses estima-se que seja duas vezes mais difícil minerar bitcoins.

Atualmente já é necessário um complexo sistema de computação para minerar bitcoins de forma eficiente, ou seja, por forma a que os custos despendidos em consumo energético compensem os ganhos desse mesmo processo de mineração.

Atualmente existem 16,38 milhões de bitcoins em circulação, o que significa que ainda existem vários anos de mineração da criptomoeda pela frente. O facto de o limite máximo ser de 21 milhões de bitcoins acaba por conferir uma transparência à moeda relativamente à sua escassez.

Estima-se que só no ano 2140 é que serão produzidos todos os bitcoins possíveis

Acrescente-se a isto o facto de os bitcoins serem todos iguais entre si – ainda que tenham diferentes marcadores de identificação -, de poderem ser divisíveis – é possível comprar apenas 0,0005 bitcoins por exemplo – e de serem verificáveis – através da tecnologia blockchain -, e temos aqui elementos que validam o seu valor. Isto torna o Bitcoin num produto como qualquer outro.

É deste seu sentido de produto e de mercado que vem depois o seu preço. Há quem esteja a vender e a comprar bitcoins. É a balança entre os dois mundos que define o valor unitário de cada moeda.

O preço do Bitcoin pode por isso ser diferente de mercado para mercado. Existem depois sistemas especializados, como o Coindesk, que juntam as informações de diferentes mercados para gerar um valor médio unitário para o Bitcoin, mediante os diferentes fluxos de oferta e procura que existem.

Outro paralelismo para perceber como funciona: a Uber tem uma tarifa base para as suas viagens e tem, imaginemos, 50 carros disponíveis neste momento. Se houver 100 pessoas a requisitar um veículo, a Uber vai aumentar o preço base da tarifa. Porquê? Porque ao aumentar o preço vai aliviar alguma pressão junto dos consumidores – pessoas que vão desistir da requisição do veículo – e vai ser mais atrativo para que mais condutores venham para a estrada.

Este é um dos exemplos mais atuais sobre como funciona esta lei da oferta e da procura. No caso do Bitcoin se houver muitas pessoas a querer comprar, então quem vender pode tentar conseguir melhores preços justamente devido a esta grande procura. A possibilidade de encaixar dinheiro faz com que mais pessoas comprem com a futura intenção de venda, o que por sua vez tem ajudado a manter relativamente estável o valor do Bitcoin.

Esta mesma lógica ajuda a explicar o porquê de existirem por vezes quebras abruptas, como aquele que houve esta manhã: depois de mais de 12 horas acima dos três mil dólares, houve muitas pessoas a colocar os seus bitcoins à venda. Havendo uma maior oferta do que a procura num determinado momento, isso vai fazer diminuir o preço do produto. É como comprar a fruta na época ou fora da época: durante a época certa existem mais vendedores e o seu preço é mais acessível.

As constantes valorizações que o Bitcoin tem sentido nos últimos meses estão acima de tudo ligadas ao seu sentido utilitário – quanto mais as pessoas veem como a moeda pode ser útil e pode ser aplicada em diferentes situações, mais cresce o seu o seu valor enquanto produto. Isso depois gera uma maior movimentação em termos de ‘oferta e procura’, o que por sua vez define o seu preço geral.

Numa altura em que o preço do Bitcoin parece imparável, talvez a questão que se deva colocar é quanto tempo mais será preciso para chegar à próxima grande barreira, os quatro mil dólares?