Pode, mas provavelmente não será. Depois de uma empresa entrar numa espiral negativa como a que a BlackBerry tem vivido nos últimos anos é difícil de imaginar uma remontada épica que coloque a tecnológica canadiana a ombrear com a Samsung e a Huawei no topo das marcas que mais smartphones vende. Mas também não precisa de escalar novamente a montanha, pode assumir-se novamente como um nome importante.

É a BlackBerry quem neste momento parece estar disposta a dar resposta para dois dos maiores problemas que existem na plataforma Android: segurança e fragmentação do sistema operativo.



Sim, a BlackBerry que parece moribunda e que continua a fazer chegar ao mercado alguns smartphones. Sim, a BlackBerry que tinha um sistema operativo próprio e só em 2016 lançou o seu primeiro equipamento com uma versão do Android. Mas é justamente na bagagem que a empresa traz de ‘outras vidas’ que estão os seus grandes trunfos.

No final tudo resumir-se-á à vontade e à capacidade de execução. Se houver as duas, então os consumidores vão acabar por responder bem.

Segurança é uma promessa

Não é preciso fazer uma pesquisa muito aprofundada para perceber que o sistema operativo Android é o preferido nas plataformas móveis para ataques cibercriminosos. E a justificação para isso também é simples: é o software com mais utilizadores: 1,4 mil milhões de acordo com a última contagem oficial.

Em 2015 foi relatado o caso de uma das piores falhas de segurança que já afetaram o Android: chamava-se Stagefright e permitia a um cracker ganhar acesso ao dispositivo do utilizador. Esta vulnerabilidade era comum a 950 milhões de equipamentos estimava na altura a empresa de segurança informática Zimperium Mobile Security.

A Google corrigiu o problema, mas alegamente não todo, pelo que já este ano a mesma vulnerabilidade Stagefright continuava a marcar presença em 250 milhões de equipamentos, defendia a NorthBit.

Ainda mais recente, foi revelada uma nova falha malicioso conhecido Quadrooter que coloca a descoberto cerca de 900 milhões de equipamentos Android.

No primeiro trimestre a BlackBerry apenas vendeu 659 mil smartphones, tendo uma quota de mercado de 0,2%

O que é que a BlackBerry pode trazer de novo para esta batalha pela segurança do Android? Em primeiro lugar a empresa tem um vasto historial de desenvolvimento software com alto nível de segurança. Mesmo na época dos iPhone e dos Samsung, ainda existem muitas pessoas que são obrigadas a usar BlackBerry devido à posição de importância que ocupam dentro de uma empresa ou de um governo – basta perguntar por exemplo a Barack Obama, presidente dos EUA, ou a Angela Merkel, chanceler alemã.



Quando oficializou o seu smartphone BlackBerry Priv em setembro do ano passado, a tecnológica estreou uma nova tecnologia chamada DTEK. Este sistema faz uma análise em tempo real ao software disponível e diz ao utilizador qual é o seu grau de proteção naquele momento tendo em conta as aplicações que tem instaladas e as permissões das mesmas.

Por exemplo, se um pirata informático fizer uma captura de ecrã no seu smartphone, a aplicação DTEK vai alertar o utilizador sobre esse facto.

Quando deteta que algo não está certo alerta o utilizador para que uma medida seja tomada nesse sentido. Se o Priv era um equipamento de 700 euros e pouco acessível, agora com a chegada do DTEK50, o segundo smartphone Android da BlackBerry, mais pessoas vão poder tirar partido desta tecnologia.

O DTEK50 é mesmo apelidado pela tecnológica como o Android mais seguro do mundo – um conceito questionável, mas que revela a disposição da BlackBerry em ganhar alguma quota junto dos utilizadores que se preocupam com esta questão. Armazenamento cifrado, kernel reforçado e ainda um cofre digital mais robusto para as palavras-passe são outros elementos que conferem uma camada extra de segurança.

Mas mais importante do que tudo é talvez o facto de a BlackBerry ter-se comprometido a atualizar mensalmente – leu bem, todos os meses – o sistema operativo do DTEK50 e do Priv. A atualização acontece poucos dias após a Google endereçar as suas correções de segurança. Além desta atualização mensal a BlackBerry também faz hotfixes, isto é, atualizações fora de rotina, mas que devido à sua gravidade precisam de ser corrigidas o quanto antes.

Se no início do texto vimos que milhões e milhões de utilizadores Android estão desprotegidos, isso nem sempre é culpa da Google – a tecnológica disponibiliza as correções, mas depois acabam por ‘morrer’ nas diferentes fabricantes que só de longe a longe vão atualizando os seus terminais.

Portanto se a BlackBerry mantiver esta promessa de atualizações de segurança mensais, então só aí já estará mais de metade do valor dos smartphones pois acaba por torná-los em casos raros no mercado. E só aí já está a dar um grande argumento de diferenciação relativamente aos restantes fabricantes.

Atualizações à vista

Esta é uma regra básica para quem quer manter a segurança ao mais alto nível: ter sempre a última versão do software instalada, seja um antivírus, seja uma simples aplicação ou todo o sistema operativo.

A BlackBerry não vai virar a cara a esta realidade e para cumprir a promessa de smartphones mais seguros vai ter de fazer avançar o Android nos seus equipamentos compatíveis. No BlackBerry Priv, por exemplo, a atualização para Android 6.0 ‘Marshmallow’ demorou seis meses a ficar disponível – isto a contar desde a data em que foi disponibilizado. Não é um cenário perfeito – a Google atualiza os seus Nexus em apenas alguns dias -, mas acaba por ser um cenário bom pois uma grande parte dos equipamentos Android ou demora mais tempo a receber as atualizações ou nunca as recebe.

Para o DTEK 50 ainda não há promessas de atualizações, mas o lançamento do Android 7.0 Nougat deve estar por semanas – diz-se que o primeiro equipamento chega já no início de setembro e a Google definiu como janela de lançamento o “verão” -, pelo que em breve a BlackBerry deve também assumir um compromisso com esta atualização.

Android NougatO Android 7.0 ‘Nougat’ está quase a chegar, mas a versão ‘Marshmallow’ só marca presença em 15% dos equipamentos

A única referência que se encontra na internet diz respeito ao diretor executivo da empresa, John Chen, que disse que a BlackBerry deverá demorar entre seis a oito meses até costumizar, reforçar e difundir a versão N do Android para os seus equipamentos. Ou seja, está dentro da linha de tempo da atualização que já foi feita para o Priv.

Neste caso basta assumir um compromisso do lado da segurança para que seja expectável que os equipamentos evoluam do lado do sistema operativo. Caso contrário ‘promessa quebrada’ para a BlackBerry e aí então poderá estar traçado de vez o destino da tecnológica.

A Samsung é outra tecnológica que tem feito da segurança uma das suas bandeiras com o sistema de proteção Knox. Quanto às atualizações é sempre algo discutível pois os equipamentos topo de gama vão migrando para novas versões do Android, os de média e baixa gama não. Bem visto todo o cenário as exigências são diferentes: a Samsung disponibiliza dezenas de smartphones por ano, a BlackBerry neste momento só tem de preocupar-se com dois.

Se outras empresas seguissem o exemplo da BlackBerry então o sistema operativo Android podia ser mais seguro e ao mesmo tempo seria menos fragmentado. Parece difícil imaginar um Android ao estilo do iOS no que diz respeito às taxas de atualização para a mais recente versão do sistema operativo, mas a Google devia lutar – e quem sabe exigir – para que a situação fosse diferente. Se tiver um exemplo forte ao qual se agarrar – mesmo sendo uma marca sem tradição no ecossistema, a BlackBerry ainda tem peso e ‘respeito’ no mercado – e se as vendas provarem que a abordagem da BlackBerry está correta, então outros fabricantes podem assumir compromissos semelhantes.