“Decorridos cinco minutos da minha entrevista inicial com o Steve, esqueci a prudência e a lógica e a única coisa que eu queria era ingressar na Apple. A minha intuição dizia-me que optar pela Apple seria uma oportunidade única de trabalhar para um génio criativo. Os engenheiros são ensinados a tomarem decisões analiticamente, mas por vezes é indispensável confiar no instinto ou na intuição”.

Foi assim que Tim Cook descreveu a sua entrada na Apple na biografia oficial de Steve Jobs, escrita por Walter Isaacson. Neste mesmo livro é-lhe apenas dedicada página e meia onde é descrito como uma pessoa metódica, com um caráter severo, mas calmo.



“No início da sua carreira, no decurso de uma reunião, Tim Cook foi informado acerca de um problema com um dos fornecedores chineses da Apple. ‘Isso é realmente grave’, disse ele. ‘Seria preciso que alguém estivesse na China para resolver isto’. Decorrida meia hora, olhou para um executivo de operações que estava sentado à mesa, e, com um ar impassível, perguntou-lhe: ‘Porque é que ainda está aí?’. O executivo levantou-se, dirigiu-se diretamente ao aeroporto de São Francisco sem sequer ir a casa fazer a mala, e comprou um bilhete de avião para a China. Viria a ser um dos colaboradores de maior confiança de Cook”, lê-se no livro.

Tim Cook é agora o diretor executivo da Apple e por isso uma das pessoas mais influentes no segmento tecnológico. Assumiu o comando da empresa a 24 de agosto de 2011, apenas algumas semanas antes da morte de Steve Jobs. Hoje celebra cinco anos como CEO da Apple.

Estes são alguns dos momentos mais marcantes – positivos e negativos – de Tim Cook à frente da Apple.

Nos últimos tempos o líder norte-americano tem dado entrevistas de perfil onde fala sobre a sua liderança – The Washignton Post e Fast Company – e nestes ‘cinco anos de Tim Cook’ ficam algumas mensagens claras.

A Apple é agora uma empresa mais dedicada a causas como a igualdade ou a sustentabilidade. A Apple é agora uma empresa mais aberta, que criou uma linguagem de programação open source e está a abrir cada vez mais ferramentas-chave do iOS aos programadores. A Apple está mais diversificada e basta ver a última apresentação pública na Worlwide Developer Conference para percebermos isso. A Apple é um paladino da privacidade digital.



A Apple de Tim Cook é muitas vezes apontada como menos inovadora. Talvez sim, talvez não. É verdade que Tim Cook ainda não fez chegar ao mercado uma nova aposta tão radical que tivesse o mesmo impacto do iPod, do iPhone ou do iPad. Mas a Apple de Tim Cook não parou. Está mais calculista – olhe para o iPhone SE – e isso não deve ser algo de estranhar – estamos em plena época de nova mudança de paradigma tecnológico.

Apple Macbook

Não é um equipamento revolucionário, mas é um dos mais bonitos que a Apple já desenvolveu. #Crédito: Apple

Tim Cook não é Steve Jobs, mas tem sabido lidar muito bem com o peso dessa responsabilidade. Aliás, o atual CEO da Apple até tem conseguido resolver alguns problemas que vieram de trás, como as condições laborais dos principais parceiros chineses da Apple.

E há uma franja de seguidores da Apple que estão mais do que satisfeitos com a liderança de Cook: os investidores. O líder da tecnológica de Cupertino conseguiu capitalizar como poucos a herança que lhe foi deixada. Em 2015 faturou 234 mil milhões de dólares, uma receita muito superior às da era de Steve Jobs, ainda que atualmente tenha de lidar com uma fase de quebra.

Tim Cook pode ficar ao leme da Apple durante mais 20 anos e a discussão será sempre a mesma: uns dirão que sem o Steve Jobs a marca da maçã nunca mais será a mesma; outros confiarão na estratégia de Tim Cook e ajudarão a concretizar a sua visão de uma empresa melhor.

Apple Tim Cook

Tim Cook na apresentação do evento da Apple na segunda metade de 2015. #Crédito: Apple

E ainda há muitas cartas na manga por revelar: o tão falado carro elétrico da Apple e a suposta grande aposta no segmento da realidade aumentada.

Numa das suas entrevistas recentes Tim Cook confessou que aborda a questão da sua sucessão no final de cada reunião com a administração. Considera que a qualquer momento pode cometer um erro que lhe custe a sua posição e que a empresa tem de estar preparada para responder.

“O meu papel é assegurar que a administração tem bons candidatos internos que pode escolher. E levo esse papel de forma muito séria. Veja à sua volta as pessoas fantásticas com as quais trabalho – existe talento soberbo nesta empresa”.

Metódico como é, Tim Cook já tem a sua estratégia para a Apple delineada. Resta saber se vai resistir às sempre enormes expectativas dos consumidores. Por agora não tem desiludido, mas também não tem causado o factor ‘uau’ do qual todos ficaram dependentes na era Steve Jobs.

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