Há pouco mais de um mês, George ‘Geohot’ Hotz transbordava de entusiasmo relativamente ao seu novo projeto. Hoje decidiu cancelá-lo.

Continua volátil aquela que é uma das figuras mais carismáticas da cena tecnológica norte-americana. O fundador da Comma.ai decidiu colocar um ponto final no projeto Comma One, depois de ter recebido uma carta da entidade dos EUA que define as regras de segurança para os veículos circularem na estrada: a NHTSA. 




A Comma One era uma pequena caixa carregada de sensores tecnológicos que devia ser colocada no lugar do espelho retrovisor interior do carro. Com esta caixa o veículo ganhava capacidades de condução autónoma, estando o produto ainda numa fase de testes.

‘Geohot’ era o fundador do projeto e tinha prometido que as primeiras unidades chegariam ao mercado ainda este ano e pelo valor de mil euros.

No entanto o projeto Comma One já não vai andar para a frente. Na conta oficial do Twitter da Comma.ai, a empresa acusa a NHTSA de não tentar dialogar e de iniciar as conversações logo com ameaças.

“Prefiro passar a minha vida a desenvolver tecnologia espetacular do que a lidar com reguladores e advogados. Não vale a pena”, lê-se noutra mensagem que, pelo tom e estilo, parece ter sido escrita por ‘Geohot’.

Num terceiro e derradeiro tweet, o projeto Comma One foi oficialmente cancelado. Mas isso não significa que a startup também vai acabar: “A Comma.ai vai explorar outros produtos e mercados”.

Mas o que disse afinal o regulador norte-americano?

A carta da discórdia

O documento enviado pela NHTSA a George Hotz já foi publicada online e o The Verge confirmou a sua autenticidade.

O que o regulador diz é que se a empresa de ‘Geohotz’ está a vender um componente para integrar no veículo em substituição de outros, então essa empresa passa a ser considerado como um fabricante automóvel e por isso está sujeita a um conjunto de regras.

Em resumo, regras de segurança. A NHTSA pediu à Comma.ai um vasto conjunto de provas em como o Comma One é um dispositivo seguro, que mantém inalterada a segurança dos veículos e que não prejudica de forma alguma a segurança dos condutores que circulam nas estradas.

Estas provas serviriam para ajudar a NHTSA a perceber melhor este equipamento. É que atualmente a opinião do regulador sobre a Comma One não é positiva.

“Estamos preocupados que o seu produto coloque em risco a segurança dos seus clientes e dos outros condutores. Encorajamos fortemente que adie a venda ou o lançamento do seu produto nas estradas públicas a menos e até que possa garantir que é seguro”, lê-se na carta.

A NHTSA, provavelmente com base nos vídeos publicados nas redes sociais relativamente ao Autopilot da Tesla, considera que alguns utilizadores do Comma One acabariam por não ouvir o conselho da marca em como é necessária sempre a atenção do condutor, independentemente de haver um sistema de apoio à condução no veículo.

A carta do regulador está bem delineada em termos de argumentos, motivo pelo qual ‘Geohot’ terá referido a questão dos “advogados”. E provavelmente apercebeu-se que em vez de semanas até colocar o Comma One nas estradas, necessitaria de anos.

Comma One

Se chegasse ao mercado, este seria o aspeto da Comma One

Falar num tom ameaçador por parte da NHTSA é um conceito debatível. A organização diz de facto que se a Comma.ai não responder aos pedidos de esclarecimento até ao dia 10 de novembro, então o seu fundador pode ser sujeito a coimas de 21 mil dólares por dia. Mas o termo ‘pode’ não é taxativo e deixa tudo em aberto.

Termina assim, mesmo antes de conhecer a luz do dia, o projeto que andava a dominar as atenções em Silicon Valley. A partir da sua garagem George Hotz comprometeu-se a criar um sistema de condução autónoma que fosse melhor do que aquele que existe nos veículos da Tesla.

‘Geohot’ e Elon Musk ainda chegaram a ter algumas conversações, mas o jovem empreendedor acabou por saltar fora de um possível acordo.

Talvez com a ajuda da Tesla o Comma One teria maior possibilidade de sobrevivência nos EUA. Mas quem sabe se o conceito não é agora transposto para outros países onde a regulação é menos exigente. Ainda assim, mesmo que o Comma One viva sob outro nome e sob outra nacionalidade, vai sempre levar consigo uma grande nuvem de desconfiança pois não foi à luta na sua primeira grande dificuldade.