A Google, a Tesla, a Apple, a Baidu, a Uber, a Audi e muitas outras grandes empresas têm investido milhões na criação de sistemas de condução autónoma. Contratam os melhores especialistas, usam tecnologias de ponta e investem também uma boa parte em marketing e promoção do produto.

Já George Hotz está a investir consideravelmente menos, na casa dos milhares, está a recorrer ao contributo da comunidade online para desenvolver o seu sistema e está a construir tudo a partir da garagem de sua casa. No campo do marketing está a usar a melhor estratégia possível: dispara contra os grandes nomes do segmento.



George Hotz tornou-se num nome incontornável do mundo tecnológico nos últimos anos: foi a primeira pessoa a criar um jailbreak para o iPhone e foi também a pessoa que conseguiu ultrapassar o sistema antipirataria da PlayStation 3.

Depois destes feitos ‘geohot’, como é conhecido, desapareceu um pouco do mapa mediático, mas continuou a fazer um percurso de sucesso. Trabalhou na Google, no Facebook e na SpaceX, sempre por períodos de tempo curtos. Nestes ambientes viu pessoas muito inteligentes a executar tarefas ‘mundanas’ e não ajustadas aos seus níveis intelectuais, como contou numa entrevista à Bloomberg.

Participou em hackathons onde ganhou várias dezenas de milhares de dólares. Na Pwnium conseguiu quebrar a segurança de um Chromebook e levou para casa 150 mil dólares. No evento Pwn2Own descobriu uma falha no navegador Firefox e recebeu 50 mil dólares. Num concurso na Coreia do Sul destinado a equipas de quatro ‘geohot’ participou sozinho, ganhou e trouxe para casa 30 mil dólares.

São vários os elementos na sua jovem carreira – tem apenas 26 anos de idade, completa 27 no dia 2 de outubro – que o tornam num prodígio da computação. Mas nada deste currículo o deixou totalmente satisfeito. E foi aí que começou a interessar-se pelos sistemas de inteligência artificial.



George Hotz está interessado na inteligência artificial no geral e na capacidade que estas tecnologias terão de transformar de forma radical diferentes segmentos da vida das pessoas. O empreendedor norte-americano já admitiu que no futuro vai querer criar uma solução que permita às pessoas comprar roupa numa loja, por exemplo, e ter uma experiência de compra rápida, sem falhas e sem grandes interações.

Mas por agora ‘geohot’ está concentrado em sistemas de condução autónoma e para isso decidiu criar, em menos de um ano, uma empresa e um serviço que espera poder vir a rivalizar com os outros nomes grandes da indústria já referidos. Tudo a partir da garagem de sua casa.

A empresa chama-se Comma.ai – ‘Geohotz’ diz que uma vírgula é sempre melhor do que um ponto final – e o seu primeiro produto é o Comma One. O Comma One consiste numa pequena caixa tecnológica que é colocada no lugar do retrovisor interno e que dá ‘poderes’ de condução autónoma aos veículos.

O objetivo é que o Comma One possa ser um sistema de condução autónoma integrável em vários modelos de veículos e que é relativamente acessível – em vez de comprar, digamos, um Tesla Model S que custa 50 mil euros, poderá comprar o Comma One por um valor próximo aos mil dólares e com uma mensalidade de 24 dólares por semana.

Poderá, pois o Comma One ainda não está disponível. Mas vai estar, até ao final do ano, e é aqui que George Hotz acredita que já está a suplantar a concorrência: ao criar um produto que é ‘expedível’, ou seja, que já está num ponto tecnológico avançado o suficiente para ser consumido por algumas pessoas e que pode ser comercializada como se de um smartphone se tratasse.

“‘não fizemos nada errado, mas de alguma forma, perdemos’
— nokia, ou companhias automóveis daqui a cinco anos”, lê-se no site da Comma.ai

Os segredos do Comma One

Nem tudo foi assim tão simples – uma caixa que transforma o carro num chauffeur privado. Quando a Bloomberg visitou ‘geohot’ pela primeira vez, já no final de 2015, o sistema era bastante complexo. O porta-luvas tinha de ser totalmente substituído por um mini-cérebro computacional, havia um ecrã de 21 polegadas colocado no tablier, um joystick no lugar da manete das mudanças e um complexo conjunto de sensores de imagem colocado em torno do veículo.

A questão é que mesmo este aparato todo era concretizável com tecnologia facilmente acessível – sensores de imagem de smartphones por exemplo.

Mas o grande segredo não está no hardware e sim no software. O Comma One vai ficar mais inteligente a cada dia que passa, a cada hora e a cada minuto. À medida que mais informações vão sendo dadas ao sistema, mais inteligente ele fica. O Comma One aprende diretamente com os comportamentos dos utilizadores.

Até 2018 a Comma.ai espera recolher dados de 1,6 mil milhões de quilómetros de condução

Para conseguir este grande volume de dados, George Hotz recorreu a um sistema simples e gratuito: ajuda comunitária. Disponibilizou duas aplicações móveis – chffr para o sistema operativo Android e Dash para o sistema operativo iOS.

Estas aplicações tornam os smartphones dos utilizadores em analistas de comportamento. Basta colar o smartphone ao para-brisas do carro que as aplicações recolhem dados diversos relacionados com a condução da pessoa, desde a velocidade, ao reconhecimento de obstáculos até à aprendizagem sobre o que fazer em determinadas situações. Seja bom ou mau condutor, todos os dados são valiosos. A restante ‘magia’ é depois feita pelos sistemas de inteligência artificial.

Depois há uma componente de gamification: as pessoas que mais contribuírem nas aplicações móveis são aquelas que vão ter maior facilidade em aceder ao serviço ‘low cost’ de condução autónoma da Comma.ai.

O produto, o Comma One, foi apresentado apenas na semana passada, e decidimos até destacar o momento por toda a teatralidade do momento que um dia mais tarde poderá vir a ser reconhecido como uma das apresentações que mudou o panorama tecnológico nos tempos modernos.

Por agora o Comma One ainda é limitado nas funcionalidades e no desempenho em estrada. Não é um verdadeiro sistema de condução autónomo no sentido em que não permite ao condutor ir a dormir enquanto o carro conduz. Está mais ao nível do Autopilot da Tesla, que permite ao condutor não controlar o volante e os pedais do veículo, mas a sua atenção é sempre necessária.

O Comma One está pensado neste momento para ser um sistema de assistência de condução em trajetos de autoestrada e não nos centros da cidade onde o trânsito e as decisões repentinas de outros condutores ainda não são ‘calculáveis’ para os sistemas de condução autónoma.

A questão das linhas que demarcam as diferentes faixas de rodagem é uma das mais essenciais. Sem estas linhas o sistema ainda se sente um pouco perdido, mas consegue aprender a adaptar-se com o tempo. Foi assim que aconteceu em Las Vegas, nos EUA, onde as faixas são delimitadas por um pontilhado, como relata o The Verge.

O que acaba por surpreender mais no Comma One é o facto de George Hotz estar a trabalhar quase sozinho e de ter construído um sistema que é economicamente acessível. Mesmo que a Comma.ai não venha a ter qualquer impacto direto no mercado da mobilidade inteligente, pelo menos já está a fazer as empresas e alguns consumidores pensarem: se um ‘hacker’ é capaz de o fazer num curto espaço de tempo, então o que pensar das grandes empresas?

Comma One

Design da primeira versão comercial do Comma One

Um ponto que importa esclarecer. Quando chegar no final do ano o Comma One só deverá ser compatível com os carros Acura ILX de 2016 ou 2017 com sistema de assistência de faixas e com o Honda Civic 2016 com o sistema Honda Sensing. No futuro deverá ser compatível com todos os veículos que tenham um sistema eletrónico de estabilização e de controlo do volante. Não, o Comma One não vai funcionar com veículos como o Fiat Uno pois precisa que o carro tenha de origem, pelo menos, este sistema ‘nervoso’ de controlo que permita ao software tomar-lhe acesso.

Capitalizar no sucesso e insucesso dos outros

George Hotz fala abertamente dos outros sistemas de condução autónoma que existem no mercado. Refere-se a eles sem filtros e não problemas em dizer que a Mobileye está atrás no tempo e que é o alvo a abater – recentemente a empresa israelita perdeu contrato com a Tesla Motors, que era um dos seus grandes clientes.

E é justamente a Tesla que tem sido o grande reboque da Comma.ai. Por diferentes motivos é claro. ‘geohot’ reconhece que atualmente o Autopilot da Tesla é o melhor sistema de condução autónoma que pode ser encontrado num veículo. E também diz que o seu grande objetivo é mostrar que o Comma One consegue ser tão bom ou melhor que o Autopilot.

Em tempos já disse que o objetivo era publicar vídeos no YouTube onde o Comma One ganharia a um Tesla S em modo de condução autónoma.  Mas esse objetivo já foi descartado – primeiro o ‘hacker’ diz que esse objetivo já não faz sentido e depois também diz que o sistema da Tesla evoluiu de forma positiva.

Se conseguir ou quando conseguir demonstrar a superioridade relativamente à tesla, George Hotz vai receber um valente atestado de credibilidade. Até lá tem contado com várias reportagens na imprensa especializada que sim, confirmam que é um sistema bastante promissor. Mas promessas no mundo tecnológico há muitas. As que se convertem em ganhos para os utilizadores são as que verdadeiramente vão ficar na história.

A Tesla Motors tentou contratar a tecnologia que estava a ser desenvolvida pela Comma.ai, mas Elon Musk e ‘geohot’ não se entenderam relativamente aos termos do acordo. O que podia ter sido uma parceria de sucesso é agora neste momento uma picardia pública que tem ajudado a trazer visibilidade para a Comma.ai. Em quase todas as suas intervenções e entrevistas o jovem norte-americano fala na sua ‘quezília’ com Elon Musk.

‘geohot’ chegou a ter uma fotografia de Elon Musk no seu escritório que servia como alvo para a prática de arremesso de setas

Tem um sistema de condução autónoma promissor e está em desavença com o titã tecnológico Musk? É uma história na qual qualquer meio de comunicação desejaria pegar.

Depois existem outros factores de destaque. O Comma One apenas precisa de duas mil linhas de código para funcionar, um número extremamente baixo tendo em conta a tarefa complexa para o qual foi desenhado. Se ‘geohot’ é relativamente aberto a tudo, já neste ponto mantém segredo de como consegue manter tudo de forma tão simples. É sabido que não usa matemática pura – na curva Y abranda para a velocidade X – para concretizar o seu objetivo, preferindo ter por base a aprendizagem natural dos utilizadores. Mesmo que conduza mal, essa informação será importante para aprender o que devia ter sido feito nessa altura.

George Hotz tem um objetivo é claro. “Não me interesso por dinheiro. Quero poder. Não poder sobre as pessoas, mas poder sobre a natureza e o destino da tecnologia. Apenas quero saber como tudo funciona”, disse à Bloomberg.

Nada garante que mesmo bem sucedido, dentro de alguns anos George Hotz decida partir numa nova aventura. É assim o seu estilo, o de um jovem inteligente que rebenta de entusiasmo por aquilo que faz, mas que também rapidamente fica aborrecido quando tudo se torna demasiado simples.