Tinha sido prometido e está finalmente a acontecer. O australiano Craig Wright reuniu com três meios de comunicação – BBC, The Economist, GQ – e juntou alguns especialistas na área dos bitcoins em Londres, no Reino Unido. Tudo para tentar provar que é o criador do Bitcoin. E não faz esta revelação para tentar colocar a moeda de vez nos círculos de pagamentos mundiais: fá-lo para proteger a privacidade das pessoas que o rodeiam.

Enquanto a BBC dá o caso quase como encerrado, o The Economist é mais cauteloso no relato e considera que o teste de paternidade terá de envolver muitas etapas diferentes e não apenas a demonstração feita em Londres há algumas semanas.

Nessa demonstração Craig Wright usou algumas chaves para movimentar alguns dos primeiros bitcoins criados e que sempre foram associados à figura de Satoshi Nakamoto – um pseudónimo que em 2008 assinou o primeiro documento relativo ao funcionamento do Bitcoin. Ao que tudo indica foi então criado por Wright.

O australiano de 45 anos é cientista da computação e desde o final de 2015 que o seu nome foi apontado como sendo o provável criador do Bitcoin. Na altura a revista Wired e a publicação Gizmodo avançaram com informações que apontavam para Craig Wright. Mas até essas histórias apresentavam algumas falhas de verificação que não permitiam atestar totalmente quem foi o inventor da criptomoeda.

Mas a mesma revista Wired publicou recentemente um texto onde explicava porque seria difícil Craig Wright assumir-se como ‘pai do Bitcoin’. É que numa moeda digital onde a privacidade impera será difícil convencer definitivamente a comunidade mais dedicada.

Foi justamente os relatos da imprensa que colocou pressão sobre Craig Wright. Pouco tempo depois de as notícias terem sido publicadas a sua casa foi alvo de buscas por parte das autoridade australianas. Não estavam relacionadas com o Bitcoin, mas colocou logo o especialista numa posição desconfortável.

A partir daí mais jornalistas começaram a investigar a vida de Craig Wright, da família e de amigos próximos. E segundo o australiano este foi o grande motivo para a sua afirmação.

“Algumas pessoas vão acreditar, outras não. E para dizer a verdade não estou muito preocupado”, disse Wright na entrevista à BBC.

Para provar que é o criador do Bitcoin o australiano assinou digitalmente uma mensagem com a mesma chave que terá usado para assinar as primeiras transações de bitcoins em 2009.

O jogo da corda

Daqui para a frente e durante as próximas semanas será como ver duas equipas a puxarem uma corda para o respetivo lado. Veja-se como exemplo estes dois testemunhos citados pela Fortune. No primeiro o criador da Fundação Bitcoin, Jon Matonis, diz estar convencido que Craig Wright é o criador da tão badalada moeda. Já Ryan Lackey, especialista em criptografia, tem as suas dúvidas e chama as provas de “fracas”.

Cada um tem os seus argumentos e de certa forma também não é possível no curto prazo fazer todas as devidas provas e validações. Talvez mesmo só o tempo conseguirá trazer uma maior solidez ou desconfiança à revelação de Craig Wright.

Multimilionário da noite para o dia

Ao revelar-se como ‘Satoshi Nakamoto’ estima-se então que Craig Wright tenha cerca de um milhão de bitcoins em banca e que atualmente estão avaliados em mais de 450 milhões de dólares, o equivalente a 390 milhões de euros. O especialista em criptografia não confirmou estes dados, mas disse que vai usar os bitcoins que tem para promover o desenvolvimento da moeda de forma faseada – caso contrário pode ter um impacto negativo no equilíbrio da divisa.

Ficou-se também a saber – alegadamente – a escolha do nome japonês para pseudónimo do criador da Bitcoin. Tominaga Nakamoto foi um filósofo e mercador do século XVII que era um forte crítico da forma como a economia estava estabelecida na altura e defendia uma livre troca de produtos. Se o Nakamoto fica explicado, o Satoshi não. “Algumas coisas devem manter-se em segredo”, disse ao The Economist Craig Wright.

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Esta é uma das chaves que ajuda a suportar a teoria em que Craig Wright é o criador do Bitcoin. Foi partilhada pelo próprio investigador australiano no seu blogue. “Não consigo expressar as palavras da minha profunda gratidão por todos os que apoiaram o projeto do Bitcoin desde a sua criação”, escreve um pouco mais à frente.

O acordo com os três meios de comunicação era este: até que a publicação no blogue fosse feita não podia ser publicada qualquer entrevista ou referência ao encontro que decorreu no Reino Unido.

Os interessados podem consultar a publicação onde são dadas pistas que ajudam a perceber parte do sistema que Craig Wright usou para validar a sua posição como criador do Bitcoin. Mas para terminar deixamos ficar outra frase da publicação e que de certa forma fecha o ciclo dado no título:

“O Satoshi está morto. Mas isto é apenas o início”.



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