Para os utilizadores a Internet tem muitas caras: pode ser um serviço como uma rede social, pode ser um site de notícias, pode ser a possibilidade de jogar online com os amigos, pode ser o acesso a uma ferramenta de trabalho, pode ser uma forma de ganhar dinheiro, pode ser uma maneira de conhecer o mundo que nos rodeia e pode ser um púlpito onde se diz ao mundo o que nos vai na alma.

Mas esta Internet na qual navega todos os dias não é toda a Internet. Existem dois conceitos sobre os quais já pode ter lido e que também estão associados ao mundo online. Um deles é o de DeepWeb, que diz respeito a todo o material que está online, mas que não é indexado nos motores de busca, uma das principais formas de navegação e pesquisa da dita Internet ‘normal’.

Porque não são todos os resultados indexados? Por diferentes motivos. Há gente mal intencionada que de facto quer manter-se longe dos olhares do mundo, mas alguém pode simplesmente escolher ter um site não indexado por motivos de privacidade. Ou por motivos de experiência de utilizador, isto é, sites que são construídos para testar ideias, conceitos, mas que nunca chegam a ver a luz do dia.

Depois existem as darknets que na prática são redes dentro da rede. No seu conceito as darknets são locais neutros e que existem porque os seus utilizadores valorizam a privacidade acima de tudo. Isto porque estas redes estão construídas tendo por base, técnicas e tecnologias de criptografia.

Há uma darknet que é bastante conhecida: a rede TOR. Explicamos como funciona: quando faz uma pesquisa através do TOR, o que esta rede faz é cifrar os dados à saída do computador, remover os elementos identificadores da máquina e do utilizador, passar a informação por vários servidores para mascarar qualquer percurso, chegando depois ao destino e sendo devolvido o pedido do internauta. Se parece que este processo faz uma grande viagem é porque a faz de facto – daí que navegar nestas redes anónimas seja consideravelmente mais lento.

E à imagem do que é possível fazer enquanto utilizador, também é possível construir um Website nesta premissa. Redirecionando o endereço de Internet de um site várias vezes é possível mascarar quase por completo a sua origem.

No caso do TOR, por exemplo, tanto pode usá-lo para submeter o IRS, como de facto pode abrir algumas portas mais sombrias. Estas por norma só são encontradas por quem as procura, pois não são sites tão fáceis de aceder como o de uma nova aplicação online.

A ideia aqui não é encorajar o utilizador a fazer o quer que seja – acreditamos acima de tudo que uma utilização informada é mais responsável. Navegue por conta e risco próprios.



O FUTURE BEHIND ouviu e partilha a experiência de duas pessoas que já tiveram contacto com a DeepWeb e a Darknet para que possa perceber um pouco experiências e opiniões mais pessoais sem ter de entrar nessas redes.

Um dos testemunhos é dado pelo especialista em segurança informática David Sopas. O consultor da CheckMarx diz que já visitou a DeepWeb “por questões relacionadas com a profissão”.

“Posso dizer que é um espaço onde encontras tudo e de uma maneira pouco filtrada. De um momento para o outro poderás ter à tua frente conteúdos ilícitos como vendas de drogas, armas, prostituição, etc… Muitos desses espaços são monitorizados ou criados pela própria polícia, mas nem todos”.

“No meu caso em particular estava a fazer o tracking de um ataque a um cliente e consegui descobrir o site do utilizador malicioso utilizando um dos motores de busca da DeepWeb – o DuckDuckGo. No site este utilizador estava a vender informação da base de dados do meu cliente. A minha função foi verificar a veracidade da informação e informar o cliente para tomar as devidas precauções”.

A questão do crime online está muitas vezes associada aos conceitos de DeepWeb e Darknet. O caso mais conhecido foi talvez o do mercado de drogas e armas Silk Road. Criado em 2011, rapidamente tornou-se num dos maiores mercados negros que operava às escondidas na Internet. Em 2013 o FBI desmantelava parte da rede criminosa que sustentava o mercado.

O Silk Road foi notícia nos principais meios de comunicação. Além de ser a confirmação de grande dimensão de como os mercados negros online existem de facto, trouxe também à luz do dia muitos detalhes sobre como funcionam estes meios – por exemplo, o uso do Bitcoin como forma de pagamento, para manter os níveis de anonimato nas transações ilícitas.

O líder do Silk Road, Ross William Ulbricht, já foi julgado e condenado a uma pena de prisão para a vida. Se quiser saber mais sobre este caso específico aconselhamos a trilogia de artigos da Wired sobre o tema – Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

Mas não é preciso ir para fora do país para ouvir falar de crimes no submundo da Internet. A Polícia Judiciária revelou no início de abril ao Jornal de Notícias que têm “inquéritos a decorrer que surgem já associados à darknet”. “Há uma média de 10%, mas admitimos que possam ser mais e que o recurso a este instrumento aumente. É a tendência”, explicou na altura o responsável pelo combate ao crime informático da Diretoria de Lisboa da PJ, Carlos Cabreiro.

Mas não se deve assumir que nas darknets só existe crime. Ainda que o conceito de dark possa remeter o pensamento imediatamente para o ‘lado negro da força’, a questão do anonimato que estas redes garantem também é usada por internautas que vivem em países onde há um grande controlo da Internet e não há liberdade de expressão. Aliás, o uso do termo dark advém disso mesmo, do facto de tudo estar cifrado.

“Os usos são muito variados e não implicam necessariamente crime”, disse o segundo testemunho ouvido pelo FUTURE BEHIND, que não será identificado – mas que neste texto terá o nome fictício de Cardinal. Este indivíduo considera-se “um utilizador de darknets de longa data”.

“[As darknets] São sítios onde se encontram ativistas ou pessoas perseguidas pelas suas opiniões. […] O TOR já salvou a vida a muita gente”, explicou Cardinal. Dentro das darknets existe quem opte por expor opiniões mais radicais, mas também existem espaços onde as pessoas falam por não poderem fazê-lo nas suas culturas da ‘realidade’. Existem países onde a homossexualidade é considerada um crime por exemplo, servindo a Internet como um ponto de encontro entre pessoas que sofrem de repressão social.

Utilizadores na China também usam as darknets para escapar à Grande Firewall, um sistema montado pelas autoridades para controlo do que é possível ler e dizer online.

“Utilizar as darknets não é de longe nem perigoso, nem crime, dependendo do país onde se vive. A Internet acaba por trazer todos para uma sala global, mas depois o contexto legal de cada participante varia muito consoante a sua geografia”, explicou Cardinal.

“O uso da darknet é sempre o mesmo: garantir ou obter anonimato”, concluiu.

Hoje, 17 de maio, celebra-se o Dia Mundial da Internet. Agora talvez saiba um pouco mais sobre as muitas caras que a ‘grande rede’ pode ter. Existe uma Internet filtrada, uma Internet por filtrar e existe quem não queira ser encontrado na Internet, mas precise dela para comunicar com o exterior.

Pelo meio existem crimes e criminosos. Mas isto é uma inevitabilidade. As tecnologias não são boas nem más. Os usos que lhes são dados é que contam o resto da história.