Graças à Lenovo já podemos ter uma discussão mais completa sobre como podem ser, como serão e o que deverão representar os smartphones modulares para os consumidores. Com os novos telemóveis Moto Z e Z Force a tecnológica chinesa é a terceira grande marca a apostar em consciência nos equipamentos modulares.

Os novos topo de gama, que vêm substituir a linha Moto X, têm na parte traseira um conjunto de conectores que servem para ligar o smartphone a capas inteligentes. Estes acessórios, chamados de Moto Mods, ‘colam’ de forma simples e ficam ativos em menos de um segundo.

É uma proposta mais simplista e user friendly do que aquela apresentada pela LG com o seu G5 [ver imagem de destaque]. No caso da fabricante sul-coreana é necessário reiniciar o equipamento sempre que é colocado um novo módulo. Nos Moto Z não.

No Google Project Ara também não. O equipamento tem uma estrutura básica que concentra em si um pouco de energia, o suficiente para aguentar o dispositivo ligado enquanto são trocados os módulos.

O mais interessante nestes três projetos é que todos eles têm abordagens diferentes. E repare: o mercado dos smartphones modulares ainda nem começou a sério e os consumidores já são obrigados a pensar qual será a melhor abordagem, qual aquela que pode garantir um futuro melhor.



Inovação de rentabilização

O que parece certo nesta altura é que nenhuma das propostas até aqui apresentadas são verdadeiramente modulares no sentido em que imaginou um dos criadores desta ideia, o holandês Dave Hakkens.

Na visão do criativo todo e qualquer componente do smartphone é passível de ser trocado. Seja o ecrã, o processador, a RAM ou a câmara fotográfica. Mesmo no caso do Project Ara, aquele que até nasceu do conceito de Dave Hakkens, existem elementos como o ecrã e o processador que não são trocáveis. Parece o fim desse sonho.

Isto cria um problema em termos de compatibilidade e legado. Daqui a três anos, quando os LG G5 e Moto Z já não estiverem na crista da onda, será que os módulos lançados pelas empresas ainda serão compatíveis? Durante quanto tempo vai a Google validar módulos para o Ara lançado em 2017?

Se tomarmos como exemplo o que tem sido feito em termos de software, então podemos desde já atirar a toalha ao chão: as empresas têm uma grande dificuldade em manter atualizado o ecossistema Android, por exemplo. Isso deixou o sistema operativo da Google numa verdadeira desarrumação. Mas também é verdade que não o impediu de ser o mais popular no mundo.

Porque se por um lado parece que as marcas estão mesmo dispostas a apostar num conceito em que o utilizador pode moldar o smartphone às suas necessidades,  até agora ninguém assumiu o risco na totalidade.

A LG tem apenas três módulos disponíveis: um para maior autonomia, outro dedicado à fotografia e um terceiro para melhorar a qualidade sonora do smartphone. A Lenovo tem uma abordagem parecida: tem uma capa com umas colunas extra, tem uma capa para aumentar a autonomia do smartphone e depois tem uma terceira que coloca um pico-projetor no equipamento.

Serão três módulos por smartphone suficientes para convencer os consumidores a trocarem propostas ‘chave na mão’ como o Samsung Galaxy S7 ou o Sony Xperia Z5 por um destes equipamentos futuristas?

Para que a questão dos smartphones modulares possa vingar será necessário criar uma rede muito mais ampla de acessórios e de parceiros que estejam dispostos a sustentar estas iniciativas. A Google é quem está melhor posicionada pois tem mais de dez parceiros de hardware confirmados de diferentes segmentos, como a área da saúde.

gif-project-ara

Mas a Google está a criar um ecossistema de grande controlo: se os componentes não tiverem validação de software por parte da Google então não vão funcionar. A razão que mais vezes é referida é a questão da qualidade. Mas há outro factor que está a levar as marcas a apostarem na modularidade: vendas.

Numa altura em que as vendas de smartphones estão a cair e o tempo médio de substituição de equipamento é agora de dois anos e meio, de acordo com a Gartner, as tecnológicas estão a criar condições para rentabilizarem os equipamentos durante esse período de tempo.

Ao contrário do que seria de pensar, a modularidade não está a fazer evoluir o smartphone como conceito: está a fazer o smartphone evoluir como um negócio e como um equipamento de hardware que é. Qual será o futuro: os quadradinhos removíveis da Google, a base do smartphone trocável da LG ou as capas inteligentes da Lenovo?

As três propostas até aqui apresentadas são interessantes, mas ainda terão muito a provar sobre as verdadeiras vantagens que os consumidores poderão ter. Caso contrário não haverá uma evolução do mercado, haverá antes a criação de um novo nicho.