Ah! O louco mês de novembro. Ninguém se vai esquecer daquele mês em que Lisboa foi invadida por milhares de pessoas de todas as partes do mundo. Invasão amigável e desejável, entenda-se. Vieram para conhecer a cidade, também, mas vieram acima de tudo para fazer negócio. Quem se aproximou sobretudo da zona do Parque das Nações não ficou indiferente ao pulsar do empreendedorismo. O Web Summit é um dos grandes eventos de startups a nível mundial, sobretudo de tecnologia, e isso colocou a capital portuguesa no centro das atenções.

Entre os dias 7 e 10 de novembro do ano passado mais de 2.100 jovens empresas, das quais 90% eram estrangeiras, estiveram cá para conquistar – como diriam os portugueses? – um lugar ao sol. Algumas vieram focadas para a participação no concurso de startups. Outras vieram para conseguir atenção mediática. Outras vieram para alcançar financiamento.




Dependendo das empresas com as quais falávamos, aquilo que traziam na bagagem variava. Umas traziam sonhos. Outras traziam boas ideias. Outras já traziam negócios. Algumas traziam inclusive investimentos de milhares de euros. Encontrámos outras startups de bolsos completamente vazios. Umas com vontade de dar a conhecer o produto. Outras mais introvertidas. Vimos projetos cheios de potencial. Vimos vontade em querer mudar o mundo.

Mas se o que elas trouxeram na bagagem já era expectável, o que levaram de Lisboa é uma conversa diferente. Decidimos recuperar contacto com seis startups não portuguesas sobre as quais já tínhamos falado na nossa rúbrica À caça de Startups. Então e as portuguesas? O Eco já fez um trabalho de revelo sobre o post Web Summit de algumas startups portuguesas.

Recast.AI, realab, It’s Alive, ZeroAtlas, ArmaTuVaca e Kubo Robot – o grande vencedor do concurso de startups que motiva o Web Summit -, foram as empresas que responderam ao nosso pedido [as perguntas foram enviadas para 15 startups no total]. As questões colocadas às empresas foram todas iguais.

Destas seis startups contactadas pelo FUTURE BEHIND apenas uma, a ArmaTuVaca, não fez qualquer contacto com investidores nos dias em que esteve em Lisboa. As restantes cinco confirmaram ter entrado em contacto com pelo menos um dos fundos de investimento ou business angels que passaram pela capital portuguesa.

Mas tentar obter financiamento é muito diferente de efetivamente consegui-lo. Deste grupo de startups a única que acabou por levar para casa um financiamento obtido diretamente através do Web Summit foi a Kubo Robot – O diretor executivo da Kubo Robot, Tommy Otzen, referiu-se ao investimento de de 100 mil euros que recebeu da Portugal Ventures, como parte do prémio.

Web Summit

A festa já se fazia na cerimónia de abertura do Web Summit. #Crédito: Future Behind

O facto de cinco destas empresas não terem conseguido financiamento não arruinou por completo a passagem pelo Web Summit. Pedimos às empresas que classificassem o evento de 0 a 10, sendo 0 a pior classificação e 10 a melhor classificação possível. Estes foram os resultados.

Recast.AI: 8/10
Kubo Robot: 8/10
Realab: 6/10
It’s Alive: 9/10
ZeroAtlas: 8/10
ArmaTuVaca: 9/10

Olhando para o feedback dado, é possível perceber que pelo menos junto deste pequeno grupo de empresas o evento provocou um impacto bastante positivo, com o Web Summit a conseguir uma avaliação média de oito valores em dez possíveis. Mas como uma classificação pode ser demasiado generalista, pedimos às startups que fossem um pouco mais específicas e indicassem aquilo que mais gostaram no Web Summit 2016, assim como o elemento que consideraram mais negativo.

Justine Baron, da Recast.AI, disse que a possibilidade de “conhecer outras startups, participar em conferências, avaliar o panorama do empreendedorismo e ver a atenção das pessoas pelo produto”, foram os pontos altos que a startup levou da primeira edição do Web Summit em Lisboa.

Fred Baus, da realab, apenas escreveu uma palavra na sua resposta: “Lisbon”. A cidade portuguesa foi o elemento que o CEO da startup mais gostou em todo o Web Summit. Certamente ficará satisfeito por saber que as próximas quatro edições do evento também serão realizadas em Portugal.

Pedro Gaviria, da ArmaTuVaca, destacou a “energia e a atmosfera”, enquanto Benjamin Lillandt, da Zero Atlas, preferiu salientar todo o networking que se desenvolveu no evento ao longo dos dias. Já Benjamin Merritt, da It’s Alive, concorda com alguns dos seus colegas empreendedores. “Definitivamente as pessoas interessantes que conhecemos, partilhar conhecimento e pontos de vista relativamente a muitos produtos e tendências”.

Por fim a opinião de Tommy Otzen, da Kubo Robot – digamos que é, no mínimo, previsível. “Ganhar o pitch final”, destacou o jovem holandês. Claro que quem ganhou, destacou a vitória. Além de ter conquistado o prémio desejado por todas as outras startups, Tommy Otzen disse que gostou de conhecer outras empresas que operam na área da tecnologia para a educação e deixou ainda uma palavra amiga sobre a aplicação oficial do evento: “A aplicação do Web Summit ajudou a criar bons contactos”.

Se ficássemos apenas por aqui, então pareceria que o Web Summit foi um mar de rosas para as startups e para todos os seus participantes. De acordo com os empreendedores ouvidos pelo FUTURE BEHIND, há elementos que a organização pode melhorar.

Paddy Cosgrave Web Summit

Paddy Cosgrave é o fundador do Web Summit. Já por várias vezes elogiou o apoio que Portugal garantiu para a organização do evento. #Crédito: Future Behind

Começamos justamente pelo vencedor do Web Summit: “Gostava de ter tido mais visitantes no nosso stand”. Se a opinião de Tommy Otzen pode parecer descontextualizada, a de Justine Baron ajuda a perceber melhor: “Há muitas coisas para fazer num dia, por isso acabas por perder algumas”.

Esta foi aliás uma queixa comum que ouvimos um pouco ao longo do Web Summit. O facto de todos os dias haver dezenas e dezenas de novas startups para conhecer nos três pavilhões da FIL dão uma energia muito positiva ao evento, mas também pode tornar-se confuso e dissuasor para quem prefere levar os eventos num ritmo mais calmo.

O porta-voz da ArmaTuVaca também defende que havia “conferências a mais e tempo a menos”. Do seu lado, o CEO da ZeroAtlas queixou-se das filas para a casa de banho e Fred Baus, da realab, diz ter notado alguma falta de organização. Já o elemento da It’s Alive considera que os transportes foram o aspeto mais negativo da sua passagem pelo Web Summit, assim como a fila para entrar no primeiro dia.

Os empreendedores deixaram também as suas opiniões sobre o que pode melhorar na próxima edição do Web Summit. A Recast.AI, a Kubo Robot, a It’s Alive e a AtlasZero apontam todas no mesmo sentido: tornar mais fácil e criar melhores condições para a organização de encontros entre as empresas e potenciais investidores. Benjamin Merritt até defende a oportunidade de as startups também entrarem em contacto com influenciadores por forma a promover melhor os seus trabalhos e as suas empresas.

Numa fase em que a euforia do evento já passou, todos fazem contas à vida sobre aquilo que o Web Summit vai trazer para Portugal. Na perspetiva do Governo e da própria organização do Web Summit há a vontade de que muitas destas empresas que por cá passaram, por cá fiquem. Não é o caso de qualquer uma destas seis startups. Quando questionadas sobre se tencionam mover o seu quartel-general para Portugal ou simplesmente abrir cá um escritório, a resposta foi em todos os casos negativa.

No meio desta negatividade, acabamos por encontrar um indicador muito positivo para a organização do Web Summit em Portugal. Fizemos a inevitável pergunta se voltariam para a edição de 2017: das seis startups contactadas, cinco disseram ainda estar a pensar sobre o assunto. Podem até nem vir, mas também ainda não colocaram totalmente de parte essa hipótese.

Então e a sexta startup, o que disse? A sexta startup é a Kubo Robot e para Tommy Otzen a presença no próximo Web Summit já é uma certeza.