Esperava mais do filme Snowden, realizado por Oliver Stone. Talvez por ter lido muitos artigos relacionados com aquele que foi um dos maiores escândalos da era moderna, esperava ver melhor contada a história dos momentos que se viveram no quarto de hotel onde o delator norte-americano e alguns jornalistas desmontaram um esquema de espionagem de escala global.

Mas há um aspeto que o filme cumpre na perfeição: criar uma narrativa que explica de forma simples e dura o que eram os programas de espionagem XKeyScore, Prism e Tempora. Não soubéssemos que todos foram – ou são? – de facto realidade, e teriam encaixado perfeitamente no domínio da ficção científica.



Quem também viveu num filme durante algum tempo foi Luke Harding, jornalista da publicação britânica The Guardian e autor do livro The Snownden Files – a obra que ajudou a moldar a película produzida por Oliver Stone.

Luke Harding escreveu posteriormente um artigo onde falou do surrealismo pelo qual passou enquanto escrevia o livro. Por exemplo, diz que em determinada altura do seu trabalho começou a ver parágrafos inteiros a desaparecerem no processador de texto e à frente dos seus olhos. Aconteceu de forma repetida ao ponto de o jornalista deixar anotações no texto para os ‘bisbilhoteiros’ não convidados.

Ontem, 21 de setembro, Luke Harding esteve em Lisboa. E o jornalista não tem dúvidas em dizer: “O Edward Snowden fez um favor ao mundo, deu-nos o enquadramento todo”.

“Não digo que devemos ser paranóicos. Mas graças ao Snowden sabemos quais são as capacidades da NSA”, acrescentou numa outra declaração.

O tema que tem dominado a atenção mediática no caso Snowden é o facto de o delator querer um perdão presidencial. A campanha ainda está no início e tem até janeiro do próximo ano para ser eficaz, pois é a altura em que o presidente Barack Obama deixa oficialmente a Casa Branca.

Obama, o mesmo que disse que não ia enviar jatos para a Rússia para capturarem um hacker de 29 anos.

Luke Harding está convencido que Barack Obama não vai ceder e não vai conceder o perdão a Snowden. Sabendo que o engenheiro informático provocou aquele que foi um dos maiores escândalos da governação do atual presidente, é uma análise fácil de aceitar.

Mas o jornalista do The Guardian vai mais longe e considera que o próximo presidente dos EUA – seja Hillary Clinton, seja Donald Trump – também não vai abrir as portas do país a Snowden e tendo um perdão como prenda de boas-vindas. Depois acrescentou:

“Com o passar dos anos vai haver o sentimento de que ele fez um serviço público”.



Provavelmente este será um bom resumo para a vida de Snowden daqui para a frente: visto como um santo pelas revelações que fez, ainda assim tratado como um demónio.

Onde está Edward Snowden poucos sabem. É do conhecimento público que está na Rússia, mas nada mais do que isso. No entanto Luke Harding acrescentou alguns pormenores interessantes sobre o engenheiro informático exilado.

“[Snowden] Está saudável, está feliz, gosta do filme e está a tweetar”.

A questão do Twitter acaba por ser essencial pois não deixa morrer nem a missão, nem o espírito Snowden. Ainda ontem escreveu uma mensagem na qual desaconselha a utilização do novo serviço de mensagens Google Allo. Não é uma boa publicidade para uma ferramenta que a Google vai querer promover, mas Snowden lá terá os seus motivos.

E todas as tecnológicas sabem como as revelações-declarações de Snowden podem ser desastrosas do ponto de vista das relações públicas.

Através do Twitter, Edward Snowden “ainda pode debater, ainda pode participar”, esclarece Luke Harding, que depois lembrou que o delator está envolvido em alguns projetos paralelos como aquele de criar uma capa anti-espionagem para o smartphone da Apple.

Este pequeno luxo do Twitter possivelmente seria algo ao qual não teria total acesso caso regressasse aos EUA. Luke Harding considera que no seu país natal Edward Snowden vai ser minuciosamente controlado e necessitará de escolta privada. É que para muitos norte-americanos ele é um traidor, um malfeitor, um criminoso que revelou segredos importantes da nação.

Harding deixou um ponto interessante durante a sua intervenção: aqueles que já sofreram algum tipo de opressão, algum tipo de repressão, esses são os que vão entender e identificar-se melhor com o trabalho feito por Snowden.

Mas o que fez afinal Snowden? Deixou-nos um mundo melhor? Luke Harding dividiu-se perante esta questão. “Diria que nada mudou, ainda estão a fazer vigilância e provavelmente arranjaram forma mais fácil de a fazer”, defendeu.

Ainda assim também não teve dúvidas em apontar: “Mas sobre o que sabemos, as coisas mudaram”. Mais não seja em termos de consciência. E também neste capítulo o filme Snowden, que estreia hoje nas salas de cinema portuguesas, faz um bom papel.

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