O Consumer Electronic Show (CES), célebre certame de tecnologia realizado em Las Vegas, já não é o que era. Se antes conhecíamos logo em janeiro as novidades que chegariam ao mercado nos meses seguintes, agora o CES parece estar a posicionar-se mais como um evento de futurismo e de gadgets que nunca vão chegar ao mercado, também conhecidos como vaporware.

Já na edição do ano passado quem salvou o evento, como salientámos, foi a Alexa, o sistema de inteligência artificial da Amazon. A Alexa dominou virtualmente toda a feira, sendo integrada em dezenas de produtos de diferentes segmentos de mercado.

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Na edição deste ano, que terminou na semana passada, vimos um reforço na tendência de integrar assistentes de voz em tudo o que é gadget. Mas se no ano passado a Alexa passeou quase sozinha pelas avenidas de Las Vegas, este ano a ferramenta da Amazon contou com uma concorrência muito agressiva da Google.

Agora que o CES 2018 está terminado a grande questão que precisa de uma resposta é quem venceu o duelo entre a Alexa e o Google Assistant? Houve dobradinha da Alexa ou o Google Assistant ficou com a coroa? Pois mesmo com o CES a não ter a glória de outros tempos, não deixa de ser um indicador relevante sobre as tendências e as escolhas da indústria tecnológica para os próximos tempos.

Da edição deste ano o principal indicador que recebemos é que tanto a Amazon como a Google estão a construir ecossistemas muito fortes em tornos dos seus assistentes digitais.

Vamos olhar para alguns dos principais anúncios associados a cada um dos assistentes de voz e tentar perceber se houve de facto supremacia de um relativamente ao outro.

Alexa

No ano passado já tínhamos visto a Alexa a ser integrada em colunas, smartphones, robôs, carros e em equipamentos de eletrónica como lâmpadas, câmaras de vigilância e até aspiradores. Conseguiria a assistente da Amazon elevar a fasquia tendo em conta o ‘espetáculo’ que tinha dado no ano passado?

Um dos maiores anúncios relacionados com a assistente da Amazon foi feito em parceria com a Vuzix, que apresentou uns óculos de realidade aumentada com a Alexa integrada. Os Vuzix Blade vão ficar disponíveis ainda em 2018 como uma unidade de testes para programadores.

Já o Optomo UHD51A é um projetor capaz de reproduzir conteúdos em 4K e que tem integrado de origem a assistente digital Alexa. Um projetor provavelmente não seria um gadget no qual uma ferramenta como a Alexa pareceria fazer sentido, mas tendo em conta que através do projetor é possível controlar sistemas de iluminação e de som adjacentes só com a voz, então o cenário não parece assim tão descabido.

A Alexa também vai chegar a um conjunto interessante de computadores Windows 10 das marcas HP, Acer, Lenovo e Asus. A compatibilidade vai estar restrita a modelos específicos, tipicamente lançados mais recentemente e cujos microfones conseguem garantir qualidade na experiência de utilização da assistente.

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No caso da Asus houve espaço para outro anúncio de relevo: a Lyra Voice é uma coluna de som que também pode funcionar como sistema de Wi-Fi Mesh, emparelhando com outros routers da Asus e aumentando o alcance do sinal Wi-Fi.

A assistente da Amazon também piscou o olho aos automóveis graças a um gadget bastante pertinente: o Anker Roav Viva Bluetooth é um acessório que pode ser ligado ao sistema de isqueiro dos automóveis e permite ter acesso aos comandos de voz da Alexa enquanto está a conduzir – ainda que seja necessário ter o smartphone emparelhado.

Num patamar completamente diferente temos, por exemplo, a integração da Alexa no Verdera Voice Lighted Mirror, um espelho que tem uma coluna de som e que pode ser controlado através de comandos de voz. Talvez não seja um equipamento a pensar no mercado de consumo, mas antes no mercado de hotelaria que tenta deslumbrar os clientes com equipamentos que prometem magnificar a experiência de ficar num hotel.

Um produto que também foi pensado para ser premium é o LG InstaView ThinQ, um frigorífico que tem um ecrã LCD de 29 polegadas e a assistente da Amazon. O objetivo é que possa haver uma integração entre as diferentes tecnologias do equipamento, sendo que este até será capaz – em teoria – de recomendar algumas receitas mediante os ingredientes que estão no seu interior. A integração com a Alexa também tem como objetivo tornar este frigorífico inteligente no cérebro da cozinha do futuro, podendo controlar os restantes eletrodomésticos à sua volta.

Antes do CES arrancar oficialmente também a Amazon fez um anúncio de relevo: anunciou o Alexa Mobile Accessory Kit, um conjunto de ferramentas que vão permitir integrar de melhor forma a assistente de voz em equipamentos de dimensão mais reduzida como auscultadores, relógios e equipamentos de fitness. A gigante norte-americana garantiu que marcas como a Bose, Jabra e Bowers e Wilkins vão integrar a Alexa em alguns dos seus equipamentos ainda antes do final do ano.

Google Assistant

A Google sempre foi uma empresa com uma presença discreta no CES, no sentido em que a força da tecnológica era sentida de forma indireta, sobretudo através dos seus muitos parceiros no ecossistema Android, e nunca de forma direta com uma presença física no evento. Isso mudou este ano com a Google a ter patrocinado um espaço próprio e no qual também fez de montra aos equipamentos dos seus parceiros.

Depois do domínio da Alexa no ano passado, a Google percebeu que precisava de ir à luta e de ser mais agressiva na estratégia de expansão do Google Assistant – não podia dar-se ao luxo de esperar que alguns parceiros viessem ter consigo, era preciso ir ao encontro desses parceiros e dar-lhes força.

A estratégia correu bem, pois a presença do Google Assistant cresceu de forma considerável tendo como comparação o CES de 2017. É neste sentido que surgem equipamentos como o Canary View, uma câmara de vigilância que tanto tem integrado o Google Assistant como a Alexa. Este exemplo não é inocente: houve vários fabricantes que optaram por integrar os dois grandes assistentes de voz do momento, pois na realidade ainda ninguém sabe qual dos dois poderá sair vencedor desta luta e também ajuda a tornar o produto mais atrativo para um maior número de consumidores.

Mas estes exemplos mostram que a Google já conseguiu desenvolver um produto que pelo menos faz com que a empresa esteja em pé de igualdade com a Amazon – os televisores da Sony e os eletrodomésticos da Whirlpool também fazem parte da lista de equipamentos que optaram por apostar em ambos os assistentes de voz.

Mas o Google Assistant também foi integrado de forma exclusiva em vários gadgets. Por exemplo, a Google conseguiu acordos com a JBL, LG, Sony e Lenovo para a criação de mostradores inteligentes, que na prática são colunas inteligentes, mas com um ecrã integrado para a realização de tarefas específicas. O objetivo parece claro – criar alternativas ao Echo Show da Amazon.

O Google Assistant também começou a atrair a atenção de marcas menos conhecidas no mercado, casos da Solis e da iHome, sendo que ambas apresentaram despertadores que têm o Google Assistant integrado e permitem que o utilizador tenha acesso a todas as capacidades da ferramenta da Google diretamente através destes equipamentos.

Num outro sinal de vigor, foi anunciado que o Google Assistant vai ser integrado no sistema Android Auto, o que significa que a ferramenta de voz da gigante de Mountain View vai ficar disponível em 400 modelos de veículos de 40 fabricantes. Tendo em conta que a mobilidade está a assumir um papel bastante importante no futuro da sociedade, esta foi uma das maiores cartadas jogadas pela Google a favor do Assistant.

O Google Assistant também vai ficar disponível em televisores das marcas Haier e LG, em eletrodomésticos da Gourmia, em auscultadores da JBL, em colunas inteligentes da Zolo e em boxes de televisão da Dish. Ou seja, o Google Assistant já consegue marcar presença naqueles que são alguns dos segmentos mais importantes de eletrónica e também já trabalha com algumas das marcas mais importantes.

E o vencedor é…

Algumas publicações que estiveram no CES consideram que o Google Assistant ganhou a batalha com a Alexa, muito por causa do investimento de marketing que a gigante dos motores de busca fez nesta edição do certame tecnológico. Em termos de presença visual o Assistant até pode ter levado a melhor, mas numa guerra tecnológica não é só isso que conta.

Claro que houve um crescimento notório do Google Assistant este ano, pois na edição de 2017 quase não houve presença da ferramenta da Google. Já a Alexa tentou manter a toada muito forte que tinha iniciado no ano passado, pelo que os termos de comparação para os dois assistentes são muito distintos.

A Alexa continuou a mostrar capacidade para ser integrada numa grande variedade de equipamentos – espelhos inteligentes, alguém estava à espera desta? -, mas deu acima de tudo um passo importante com o acordo alcançado para chegar até milhares de computadores com o Windows 10. Os modelos que vão suportar a Alexa até podem ser limitados em número, mas esta jogada vai fazer com que mais fabricantes queiram integrar a Alexa nos seus computadores a curto prazo. A parceria com a Vuzix também deu que falar e está em quase todas as principais listas dos melhores gadgets que surgiram no CES este ano.

Por outro lado a Google mostrou que o Assistant consegue ser tão versátil como a Alexa na integração em diferentes categorias de produto e também fez um anúncio de grande impacto, neste caso relacionado com o sector automóvel. Na prática a Google conseguiu em apenas um ano recuperar de uma desvantagem muito grande que tinha para a Alexa, o que faz antever um ano de 2018 muito animado no que a esta luta diz respeito.

É difícil e talvez até injusto dizer que um assistente se sobrepôs ao outro. É difícil quantificar em quantos gadgets cada um foi integrado e é ainda mais difícil garantir que todos esses gadgets vão efetivamente chegar ao mercado. O que sabemos é que cada um dos assistentes continuou a crescer e ambos foram alvo de um anúncio importante para a expansão da plataforma. Contas finais: este ano tanto a Alexa como o Google Assistant vão dividir o prémio de grandes vencedores do CES 2018, pois sem sombra de dúvida que foram o dominador comum de toda a feira.

Encontrar vencedores também significa encontrar alguns derrotados e neste sentido parece claro que tanto a Microsoft como a Apple estão a ficar para trás na criação de ecossistemas fortes e cheios de diversidade em torno dos seus assistentes pessoais, a Cortana e a Siri respetivamente.

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