No primeiro dia do ano, cinco minutos depois das 20 horas, quase 650 mil pessoas estavam a jogar HQ Trivia em simultâneo. O número é avassalador tendo em conta alguns elementos: é um jogo mobile; só está disponível desde agosto; olhando para a indústria dos videojogos, incluindo eSports, só jogos como PlayerUnknown’s Battleground, DOTA 2 e CS:GO conseguem ter tantos jogadores ‘logados’ em simultâneo numa base diária.

Não é por isso de estranhar que HQ Trivia tenha sido uma das estrelas em ascensão em 2017. Mês após mês o jogo tem alargado a sua base de utilizadores, o que só faz aumentar a curiosidade de quem ainda não experimentou. Em outubro jogavam em simultâneo poucos milhares de utilizadores, no final de novembro a média de jogadores por partida rondava os cem mil utilizadores e um mês depois, na noite de Natal, 730 mil pessoas estavam agarradas ao smartphone.

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Em linhas gerais o jogo HQ Trivia é uma versão mobile do Quem Quer Ser Milionário: é um concurso de cultura geral transmitido através de uma aplicação. Todos os dias da semana são emitidas em direto duas sessões de HQ Trivia, a primeira às 02:00h e a segunda às 20:00h [horário de Portugal Continental], enquanto ao fim de semana apenas a emissão das duas da manhã vai para o ar. Em cada sessão são apresentadas 12 questões de cultura geral e aquele que conseguir responder a todas de forma acertada ganha dinheiro – dinheiro a sério.

No segundo jogo de ontem, por exemplo, o prémio monetário foi de 2.000 dólares, o equivalente a 1.660 euros. Se várias pessoas conseguirem responder corretamente a todas as questões, então o prémio é a dividir por todos. No jogo de ontem 177 pessoas conseguiram chegar ao prémio final, o que deu 11,30 dólares para cada um.

Por outro lado, na noite de Natal o prémio monetário total foi de 12 mil dólares e só duas pessoas conseguiram responder corretamente a todas as questões – o que perfaz seis mil dólares de prémio para cada um. Os fundos são transferidos de imediato para os utilizadores através da associação de uma conta PayPal. Percebe-se por isso a alegria daquela que foi uma das grandes vencedoras do dia 25 de dezembro.

Tentador? Segundo um artigo da publicação Variety, o objetivo é que um dia a aplicação HQ Trivia venha a ter prémios de um milhão de dólares por emissão.

Acontece que basta falhar uma questão para ser eliminado – existe a possibilidade de usar vidas extra, que são conseguidas convidando amigos para o jogo, mas só é possível usar uma vida emissão. Basta uma pergunta ser mais complexa que rapidamente o número de jogadores em competição pode passar de 600 mil para 300 mil.

Se é verdade que parte da popularidade de HQ Trivia está ligada a esta possibilidade de ganhar bom dinheiro dispensando apenas 15 minutos do seu tempo – duração média de cada emissão -, também é verdade que o jogo consegue apresentar um conceito único numa área já muito batida, a dos concursos de cultura geral.

A aplicação HQ Trivia consegue juntar o lado social e imediato das transmissões em direto, ao hábito de consumir um conteúdo a uma hora específica – algo que na internet tem sido popularizado pelos youtubers -, num formato descontraído, fresco, jovem, mas que não deixa de ser competitivo e de certa forma até instintivo. HQ Trivia não é apenas mais um jogo de cultura geral – é uma aplicação que consegue integrar de forma inteligente vários elementos que os consumidores digitais tanto valorizam.

Experiência social

Não é difícil perceber por que razão a aplicação HQ Trivia consegue criar uma ligação emocional com os utilizadores de forma tão rápida – os criadores dos jogos percebem de plataformas e comportamentos sociais.

O jogo HQ Trivia foi criado pela empresa Intermedia Labs, fundada por Colin Kroll e Rus Yusupov, sendo que este último é o diretor executivo. Colin e Rus são conhecidos no mundo do empreendedorismo pela criação do Vine, a rede social que permitia criar e partilhar vídeos de seis segundos.

O Vine foi comprado em 2012 pelo Twitter e posteriormente encerrado em janeiro de 2017, apesar do relativo sucesso que a plataforma ainda mantinha. Colin e Rus já tinham saído do Twitter para criar novos projetos, com um deles a ser a aplicação Hype, uma plataforma mobile de livestreaming interativo.

Apesar da cobertura mediática que recebeu, a aplicação não teve assim tanto sucesso junto dos utilizadores, mas permitiu a Colin Kroll e Rus Yusupov perceber aquilo que as pessoas mais valorizavam naquela experiência social. Do falhanço do Hype nasceu a aplicação HQ e o sucesso, ainda que possa ser momentâneo, está à vista de todos.

Mas a história não ficaria toda contada se não disséssemos que a Intermedia Labs está à procura de financiamento e que, apesar de toda a popularidade, a missão não tem sido fácil de concretizar devido à existência de suspeitas sobre alegados comportamentos passados dos seus fundadores. Segundo a publicação Recode, Colin Kroll e Rus Yusupov estão à procura de um investimento que pode colocar a Intermedia Labs a valer 100 milhões de dólares.

“Enquanto muitos [investidores] estão preocupados com a longevidade da aplicação e as perspetivas de negócio, existem problemas mais profundos com os fundadores da aplicação. Pelo menos três investidores proeminentes decidiram não financiar a startup depois de descobrirem condutas problemáticas da parte dos fundadores”, escreve o Recode.

Não sendo especificado que comportamentos foram estes, a reportagem diz que Colin Kroll é dos dois elementos aquele que mais preocupa os investidores por, alegadamente, ter tido comportamentos “assustadores” com algumas mulheres que trabalhavam no Twitter, na altura em que por lá passou. Colin Kroll foi despedido do Twitter em 2014 por má gestão, mas não existe qualquer queixa formal sobre comportamentos de assédio sexual.

Os relatos dizem ainda que a Intermedia Labs está a aplicar regras de “tolerância zero” para comportamentos de assédio e discriminação, algo que poderá ajudar a conseguir o tão ambicionado crescimento financeiro.

Mais dinheiro é um dos aspetos mais importantes na hora de escalar o negócio, mais não seja na área das infraestruturas – a aplicação HQ Trivia é tão popular que muitas vezes mostra dificuldades em gerir tantos utilizadores em simultâneo.

Uma aplicação ainda em crescimento

Nunca é demais lembrar que a aplicação HQ Trivia atingiu um grande sucesso em apenas seis meses, sendo que o lançamento ‘oficial’ da aplicação até só foi feito em outubro e apenas para iOS. Significa isto que a aplicação ainda está em fase de crescimento.

O jogo é acima de tudo conhecido no mercado norte-americano, mas pode ser jogado em qualquer parte do mundo. Só no último dia de 2017, 31 de dezembro, é que a aplicação ficou disponível para Android, o que significa que só agora é que o jogo vai começar a absorver os jogadores daquele que é o sistema operativo mais popular do mundo.

A aplicação para Android está ainda em fase beta e é por isso normal que possa encontrar alguns erros – a Intermedia Labs faz questão de deixar isso claro quando descarrega o jogo.

A empresa tem tentado responder da melhor forma ao número crescente de utilizadores, algo que sobrecarrega a plataforma em determinados momentos e pode fazer com que alguns jogadores percam o tempo de resposta a uma determinada questão. Recentemente a empresa decidiu fazer uma terceira emissão diária depois de ter recebido muitas queixas de jogadores que estavam a ter interrupções sucessivas na transmissão.

Depois existe a questão dos hackers, pessoas que encontram formas de contornar as regras que são impostas pelo jogo. A forma como a HQ Trivia está desenhada é por si só um bom mecanismo de defesa – o facto de ser transmitida em direto e de só haver dez segundos para cada resposta torna quase impossível, por exemplo, recorrer ao Google para encontrar a resposta certa.

Mas há relatos de peritos em informática que têm usado mecanismos de inteligência artificial, sobretudo na área de reconhecimento de texto, para chegar à resposta mais provável. Sempre que é mostrada uma nova pergunta, o mecanismo faz um reconhecimento visual da questão e faz uma pesquisa automática no Google – os elementos que estiverem nos primeiros lugares do motor de busca provavelmente correspondem à resposta certa, mas nem assim está garantida a eficácia total do sistema.

O tempo para a resposta é tão curto que muitas vezes o utilizador vai acabar por dar respostas instintivas e não devidamente digeridas – como acontece por exemplo no formato televisivo mais extenso e pausado do Quem Quer Ser Milionário. Na prática é isto mesmo: o jogo HQ Trivia é o Quem Quer Ser Milionário devidamente adaptado para as audiências digitais.

Um sinal claro desta abordagem é a simplicidade da aplicação: está pensada para o momento da transmissão e pouco mais. O máximo que pode fazer é editar o seu perfil e consultar a secção das perguntas mais frequentes. O dia tem 24 horas e durante 23 horas e meia a aplicação HQ Trivia não tem utilidade.

Mas quando chega a hora do jogo tudo se transforma: a aplicação tem animações coloridas e modernas, tem um apresentador dedicado – Scott Rogowsky – e até já tem segmentos em que são incluídos vídeos que são enviados pelos utilizadores da aplicação.

HQ Trivia é um programa dos tempos modernos e que vive confortavelmente apenas numa aplicação móvel. Já começaram a surgir os primeiros clones, como a aplicação The Q, mas por agora o reinado ainda pertence à HQ Trivia.

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