Daqui a muitos, muitos anos, quando o futuro for tão diferente da realidade atual que nem os nossos melhores criativos vão conseguir imaginá-lo, todos vão recordar o Movimento 37 como um dos momentos que definiram a era moderna da tecnologia. Foi o momento em que um super-computador decidiu ser criativo.

Falamos do Movimento 37 que foi protagonizado pelo sistema de inteligência artificial AlphaGo da Google. Este era o segundo jogo de Go do computador, numa série de cinco, contra o melhor jogador humano da última década, Lee Sedol. Na tão famigerada jogada 37 o AlphaGo surpreendeu tudo e todos ao fazer um movimento pouco convencional, nada previsível. Houve até quem tivesse pensado que se tratava de um erro.

Esse movimento acabaria no entanto por ser uma jogada de génio e que valeu ao computador a vitória no segundo jogo [o desfecho final do desafio foi de 4:1 a favor do AlphaGo]. O movimento que o sistema de inteligência artificial fez tinha sido ‘criativo’.




Depois do jogo, Lee Sedol esteve 15 minutos em silêncio até conseguir encontrar uma resposta para aquilo que tinha visto no tabuleiro de jogo. Só no dia seguinte é que conseguiu expressar publicamente o que lhe ia na cabeça.

“Ontem, fui surpreendido. Mas hoje estou sem palavras. Se olhares para a forma como a partida foi jogada, eu admito, foi uma derrota clara da minha parte. Desde o início do jogo, não houve um momento em que sentisse que estava a liderar a partida”, disse, citado pela Wired.

Existem mais jogadas possíveis no jogo Go do que átomos no Universo conhecido

Pessoalmente, se tivesse de eleger o momento tecnológico que definiu o ano de 2016, seria o Movimento 37. Porquê? Porque é a ponta de uma tendência muito maior que foi ganhando força ao longo do ano: a inteligência artificial.

Há anos que as principais tecnológicas do mundo estão a trabalhar em sistema de inteligência artificial, mas este foi o ano em que muitos desses sistemas mostraram o seu verdadeiro potencial e começaram a ser integrados em produtos de consumo.

A ‘face’ mais visível desta evolução é a coluna inteligente Amazon Echo. A assistente digital Alexa já existe há dois anos, mas só em 2016 é conseguiu perceber mais de oito mil comandos dos utilizadores. Apesar de ser um relacionamento muito direto – Alexa faz isto, Alexa faz aquilo -, a verdade é que existe um grande trabalho de inteligência artificial por trás desta coluna.

O reconhecimento da linguagem humana, a interpretação de determinados termos, o conhecimento dos gostos do utilizador que a assistente vai adquirindo ao longo do tempo… Não é a mais avançada das inteligências artificiais, mas é uma das mais eficazes e pragmáticas.

Amazon Echo Dot

A Amazon Echo Dot é uma versão mais básica da Echo, mais barata, mas mantém as mesmas capacidades de inteligência artificial. #Crédito: André Santos / Future Behind

O conceito da Amazon Echo foi de tal forma inspirador que a Google decidiu seguir-lhe os passos. Foi assim que surgiu a Google Home, a coluna inteligente da gigante dos motores de busca. Mas aqui não interessa tanto o hardware, mas sim o software.

O ano de 2016 foi aquele em que a Google trouxe para o mercado uma versão melhorada do Google Now. O assistente digital agora chama-se Google Assistant e a ideia é que passe a ser integrado de origem nos principais gadgets da tecnológica. Já acontece assim com a Home, com o Google Pixel e com a aplicação Google Allo.

O Google Assistant está muito mais à frente no campo da linguagem natural do que a Amazon Echo. Reconhece melhor aquilo que as pessoas dizem e já tem uma maior capacidade de interpretação mediante menos palavras.

Mostra-me fotografias do Cristiano Ronaldo. / Qual a sua idade?‘. Neste caso o Google Assistant sabe que é uma questão referente à idade do Ronaldo. Mas se a correlação entre termos é sinónimo de um bom assistente digital, então a Viv promete ‘partir a loiça’.

“A temperatura vai ser superior a 21º perto da ponte Golden Gate depois das cinco da tarde do dia depois de amanhã?”, foi a pergunta que o diretor executivo da Viv Labs, Dag Kittlaus, fez à assistente Viv durante a primeira demonstração pública da ferramenta de inteligência artificial. A resposta chegou no segundo seguinte.

Estes assistentes digitais acabam por ser uma personificação da inteligência artificial como tecnologia e também das suas potencialidades. Mas há muitos outros aspetos da nossa vida tecnológica que já é regida por estes sistemas automáticos que definem o que é melhor em cada momento, respondendo assim às necessidades dos utilizadores.

Os sistemas de recomendações da Netflix ou do Spotify são disso exemplo. A inteligência artificial é, tal como o nome diz, um sistema informático que é capaz de executar tarefas que por norma estão associadas à inteligência humana, mas dispensam justamente o factor humano. A recomendação de filmes e músicas sempre foi algo muito nosso, mas agora as máquinas tomaram conta desse domínio.

Às vezes a inteligência artificial é só uma ‘brincadeira’, como o olho da Microsoft que tudo vê.

É normal que não pense nestas ‘pequenas’ questões como sendo de inteligência artificial. Afinal de contas fomos educados, sobretudo pelos filmes de Hollywood, a pensar que a inteligência artificial é algo que aliado aos robôs, vai colocar a existência humana em causa.

Não precisa de ser exatamente assim e por isso é que já existem muitas pessoas que estão preocupadas com a ética do tema. O problema não é desenvolver sistemas de inteligência artificial, o verdadeiro problema é garantir que respeitam as regras às quais estamos habituados enquanto seres de uma sociedade.

Foi a pensar nestes cenários mais cataclísmicos que nasceu a OpenAI, uma organização sem fins lucrativos e que conta com a participação de alguns nomes grandes do mundo tecnológico, como Elon Musk. A ideia da OpenAI é ser um centro de investigação no segmento da inteligência artificial. A partir dos resultados dos estudos que vão sendo feitos, vão-se definindo linhas gerais sobre para onde deve ou não direcionar-se a inteligência artificial.

É que se deixarmos a evolução por conta e risco daqueles que a desenvolvem, o mais provável é acabarmos com sistemas que são enviesados. Por exemplo, no primeiro concurso de beleza onde os jurados foram algoritmos, houve uma tendência para negar os participantes que tivessem a pele de tons escuros. Como salienta o The Guardian, dos 44 vencedores quase todos tinham a pele branca: cinco eram asiáticos e apenas um tinha a pele escura.

Outro exemplo de como a inteligência artificial precisa de ‘rédea curta’ nesta primeira fase. A Microsoft desenvolveu um bot de conversação no Twitter que ia aprendendo com base nas mensagens que as pessoas lhe enviavam. Em menos de 24 horas o projeto estava a ser cancelado pois a Tay, nome do robô criado, estava a utilizar linguagem racista e também a promover ideias de ideologia extremista.

É para evitar cenários destes que existe a OpenAI, mas existem outras iniciativas. Recentemente a Apple publicou a sua primeira investigação relacionada com inteligência artificial, para que a mesma possa ser analisada, debatida e rebatida pela comunidade de especialistas.

Pelas evoluções a que temos assistido, a inteligência artificial será um segmento que muito provavelmente vai ser trabalhado de forma colaborativa e não em segredo, como o desenvolvimento de hardware nos habituou nos últimos tempos.

Mais do que nunca as tecnológicas precisam de ter a comunidade científica do seu lado. Esse foi um dos elementos que aprendemos quando ficamos a conhecer o projeto da IBM com o centro hospitalar alemão Rhön-Klinikum. Na prática as duas entidades uniram forças para transformarem o sistema de inteligência artificial Watson num médico que além de bom, é muito mais rápido. Chamamos-lhe o Watson M.D..

À medida que o hardware vai estabilizando na inovação, será o software que vai garantir mais do que nunca os elementos diferenciadores entre smartphones, tablets, computadores, colunas inteligentes ou qualquer outro gadget conectado.

De acordo com o Wall Street Journal, desde 2011 foram adquiridas perto de 140 empresas de inteligência artificial, 40 só este ano

Durante a apresentação em Portugal de uma das mais recentes câmaras fotográficas da Canon, a 5D Mark IV, um fotógrafo profissional e com vários anos de experiência deixou esta ideia bem clara. Para Rui Vasco a câmara da empresa japonesa era uma das melhores que já lhe tinham passado pelas mãos e todos os sistemas inteligentes embutidas na máquina de certa forma dispensam grandes cuidados na hora de captar a fotografia, a máquina quase que consegue fazer o trabalho todo sozinha.

Isto não tem de ser algo propriamente negativo, como o próprio Rui Vasco frisou. “Podes concentrar-te no lado criativo, redescobrir a fotografia”.

Há mais áreas onde o elemento criativo vai continuar a ser o grande diferencial dos humanos como profissionais. Uma parte das notícias que a Associated Press fez sobre os Jogos Olímpicos de 2016 foram escritas por robôs. Isso significa que os jornalistas estão condenados ao desemprego? Numa primeira fase não. Os robôs podem fazer o trabalho básico, lidar com a informação básica que não exige uma grande inteligência emocional, é uma inteligência factual. Já os jornalistas podem preocupar-se em encontrar as melhores histórias e em escrever os melhores artigos.

Neste mundo onde o software e o hardware parecem ganhar cada vez mais independência de nós, há ainda um papel fundamental para o humano representar. Mas a partir do momento em que já existem sistemas de inteligência artificial com movimentos criativos, deitando por terra justamente um dos argumentos do fotógrafo Rui Vasco a favor dos humanos, a grande questão não é ‘vão as máquinas…?’, mas sim ‘quando é que as máquinas…?’.