O Motorola 360 é de longe o mais icónico dos relógios inteligentes alimentados pelo sistema operativo Android. Mesmo podendo não ser o mais vendido, foi dos poucos que conseguiu atrair grandes atenções para o ecossistema Android Wear. Não é por isso de espantar que exista um grande alvoroço relativamente às declarações mais recentes da Motorola.

O diretor de desenvolvimento da Moto, a nova vida da Motorola debaixo da alçada da Lenovo, Shakil Barkat, disse que a empresa não vê força suficiente no mercado para colocar um novo smartwatch à venda nos próximos tempos. “Os wearables não têm um apelo abrangente para nós continuarmos a construir uma versão ano após ano”, acrescentou, citado pelo The Verge.




A Motorola não descarta a possibilidade de no futuro voltar a apostar em relógios inteligentes, mas parece ter ficado claro que no curto prazo isso é algo que não vai acontecer.

A decisão da Motorola não é de espantar. Em primeiro lugar é preciso ter em conta que o mercado dos relógios é muito diferente do mercado dos smartphones, dos tablets e dos portáteis. Os últimos anos têm mostrado que estes equipamentos têm todos ciclos de vida diferentes e que só nos smartphones as atualizações anuais continuam a justificar-se.

Por outro lado o relógio, como equipamento, é associado a intemporalidade. Disponibilizar uma versão diferente todos os anos é algo que além de não encaixar bem na indústria relojoeira, também pode não assentar bem junto dos consumidores. A própria Apple, a empresa rainha nas atualizações anuais, levou um ano e meio para fazer alterações ao Apple Watch e que não passaram pelo design.

Apple Watch Nike

A própria Apple decidiu reposicionar o Apple Watch mais como um gadget para atividade física e não tanto como um relógio. #Crédito: Apple

Depois há a questão dos números. Os números dão razão à Motorola e a todas as empresas que estão a desinvestir nos relógios inteligentes. De acordo com dados da IDC para o terceiro trimestre do ano foram vendidas 2,7 milhões de unidades de smartwatches.

Além de baixo, o valor já representa uma quebra de 51% em comparação com igual período de 2015. Ou seja, numa altura em que seria expectável que os smartwatches crescessem em venda por ser uma categoria de produto relativamente recente, já estão a encolher.

Neste mesmo relatório da IDC apenas uma empresa conseguiu ter vendas acima do milhão de unidades: a Apple. Todos os restantes ficaram abaixo, incluindo a Lenovo que vendeu perto de 100 mil unidades.

Lenovo Motorola Android Wear 2.0

O Moto 360 de segunda geração foi anunciado em setembro de 2015, há mais de um ano. #Crédito: Apichit / Pexels

Olhando para os valores de mercado, basicamente o que acabámos de ver é a desistência temporária da quarta maior fabricante de relógios inteligentes e uma das pioneiras no segmento. Seria mais ou menos o equivalente à Apple dizer que estava a pensar desistir temporariamente do mercado de portáteis.

Se esta posição da Motorola é significativa para o mercado geral de smartwatches, é ainda mais importante para o ecossistema Android Wear. A Motorola disse claramente que não vai ter um dispositivo pronto quando o Android Wear 2.0 for disponibilizado, um rude golpe para o ainda por chegar sistema operativo da Google.

Android Wear pouco esclarecido

Depois de ter apresentado as novidades que vai aplicar ao seu sistema operativo para relógios inteligentes, a Google nunca mais voltou a colocar o Android Wear 2.0 em destaque. Exceto no final de setembro, quando confirmou que o lançamento que estava previsto para o final de 2016 seria empurrado indefinidamente para 2017.

Até ao final do ano é suposto surgir uma nova versão de desenvolvimento do Android Wear 2.0 para que a tecnológica possa continuar a receber o feedback dos programadores.

Depois há a questão das atualizações. Dos vários modelos de relógios Android que já estão no mercado, apenas três têm confirmada a transição para o Android Wear 2.0: Huawei Watch, LG Watch Urban de 2ª geração e Tag Heuer Connected.

Ou seja, também o recente universo dos equipamentos Android Wear parece estar a preparar-se para ficar fragmentado. Uma boa forma de alimentar um bom ecossistema, mesmo com poucos dispositivos, era garantir que o máximo de equipamentos disponíveis no mercado pudessem vir a receber as novas versões de software. Nos relógios inteligentes o software vai ajudar muito naquele sentimento de ‘intemporalidade’.

O ecossistema de hardware dos wearables não está a ser, nem por sombras, tão ambicioso como foi nos momentos iniciais dos smartphones e dos tablets. Se do lado dos smartphones a Google tem o maior fabricante como parceiro – a Samsung -, neste momento a Lenovo é o único que figura no top 5 dos smartwatches. Os restantes principais vendedores têm todos sistemas operativos proprietários – Apple, Garmin, Samsung e Pebble.

Conclusão: com a saída da Motorola o Android Wear pode ficar ainda mais enfraquecido.

O facto de não haver um novo Moto 360 não é, sozinho, motivo suficiente para a Google também largar o Android Wear. Fabricantes como a Huawei, a Asus, a Nixon e a Fossil parecem estar bastante interessadas no mercado dos wearables.

Lenovo Motorola Android Wear 2.0

Imagem de alguns modelos de relógios Android disponíveis no site oficial do Android Wear. #Crédito: Google

Existem ainda rumores de que a Google estará a preparar o lançamento de dois smartwatches de marca própria, um pouco ao estilo do que fez com o Google Pixel. A acontecer, estes equipamentos podem chegar na altura de estreia do Android Wear 2.0 e podem fazer esquecer o facto de alguns fabricantes estarem a desinvestir nos relógios inteligentes.

Nesta altura parecem claras duas ideias: o mercado dos relógios inteligentes não é tão apetecível como se julgava poder vir a ser; não sendo apetecível, é pouco interessante para investir. A Motorola verbalizou publicamente aquilo que muitos executivos do sector já terão pensado em dizer.

O segmento dos smartwatches tem sido relativamente aborrecido pois foram poucos os modelos que chegaram ao mercado no último ano com propostas de valor realmente apelativas. Esta ‘pausa’ pedida pela Motorola acaba por isso por fazer algum sentido.

Esta ‘crise’ no mercado deve-se ainda ao facto de nem todos os elementos tecnológicos estarem afinados o suficiente para termos um mercado dinâmico de relógios inteligentes. A bateria é apenas um dos pontos que vale a pena destacar, mas não é o único. A dependência dos relógios relativamente aos smartphones não tem ajudado à afirmação dos gadgets de pulso.

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