Os fãs da famosa câmara de fotografias instantâneas Polaroid – neste caso da analógica – podem começar a tirar a garrafa de champanhe do congelador. Oito anos após a ‘sentença de morte’ do filme 600, o The Impossible Project fê-lo renascer das cinzas e aproveitou para lançar a nova I-1, que começa hoje a ser comercializada por todo o mundo. Pode-se dizer que esta é, assim, a sucessora da última Polaroid analógica, uma vez que a Gordon Brothers Brands e a Hilco, empresas que detêm a marca Polaroid através da joint holding PLR IP Holdings, apostaram nas câmaras digitais.

Eis a curiosidade que muitos querem satisfazer: como é que se adapta uma câmara dos anos 1970 à inteligência do mundo de 2016? Nesta espécie de regresso ao futuro, o The Impossible Project quis reunir o melhor de dois mundos: aproveitar o poder do digital sem comprometer a magia do analógico. Ou seja, um meio-termo entre a facilidade de utilização, total personalização, mudança de interfaces e precisão; e a experiência do inesperado, baixo controlo e imperfeição.

A nova câmara, que já havia sido apresentada pelo diretor executivo do The Impossible Project, Oskar Smolokowski, durante a Bloomberg Design Conference, é muito mais pequena do que uma típica Polaroid e possui um aspeto minimalista. É constituída por um flash em formato de anel composto por oito LEDs em torno da objetiva – indo ao encontro da tendência que encontramos hoje nas câmaras de smartphones.

Esta tipologia de luz apresenta, de resto, algumas vantagens: para além de ser pequena em tamanho, oferece um controlo preciso e acaba por ser uma fonte de luz singular. Estes LEDs servem para dar indicação sobre quantas fotografias restam, dentro de um pack de oito – acendendo o número de luzes correspondente -, bem como para informar sobre a bateria que ainda resta na máquina.

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O visor em metal, por seu turno, funciona como uma espécie de mola, ‘saltando’ cada vez que é premido um botão. Os mesmos ímanes que permitem que isto aconteça podem também ser úteis para a colocação de outros acessórios, como são caso os visores digitais ou um flash extra, por exemplo. Além disso, a câmara tem um controlador de luminosidade e, do lado oposto, um botão para ativar ou desativar o flash.

“Um dos objetivos centrais no desenvolvimento da I-1 era criar uma câmara instantânea que tirasse ótimos retratos. Foi por isso que implementámos um sistema de autofoco que permite a proximidade necessária para tirar uma fotografia perfeita”, explica o The Impossible Project na descrição de um vídeo alusivo à I-1.



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As câmaras que utilizam o filme 600 não são novas, mas a autenticidade desta I-1 reside no facto de se fazer acompanhar por uma aplicação móvel – para já só para iOS, mas a empresa prometeu lançar até setembro a versão para Android -, que se conecta via Bluetooth à câmara. Isto permite, desde logo, disparar à distância e manejar a câmara manualmente, incluindo controlar a velocidade do obturador, a abertura da lente ou a força do flash. Temporizador, dupla exposição ou pintar com a luz são outras ferramentas e técnicas de fotografia que estão acessíveis.

O valor da I-1, fixado em 299 euros, torna a câmara mais cara comparada com a linha Instax da Fujifilm, mas mais barata que a câmara de filmar, também semi-digital, de 8mm da Kodak, anunciada no CES, o evento de Las Vegas dedicado à tecnologia, e dissecada pelo The Verge, pelo facto de ser recarregável via USB. A bateria é, aliás, uma das grandes diferenças em relação às primeiras Polaroid dos anos 1970: a bateria passou a ser incorporada na máquina – baixando o preço dos filmes – ao invés de estar no cartucho.

Recuperar a genuinidade da fotografia

Se este é um exemplo de um upgrade ao passado, trazer para o presente a sensação de fotografar de forma mais consciente foi um dos aspetos recuperados dos tempos mais antigos com este projeto. Sobretudo porque hoje tiramos mais fotos do que nunca e de uma forma indiscriminada. O culpado? O ‘canivete suíço’ que trazemos no nosso bolso – o smartphone – que veio, de certa forma, revolucionar a fotografia. Quem não tem dezenas de fotografias de comida, paisagens, monumentos ou selfies, por exemplo, no rolo de câmara do telemóvel? De certa forma a fotografia passou a ser menos fotografia e passou a ser mais uma ferramenta para nos lembrarmos de elementos e momentos do quotidiano.

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“A ideia de sacar a câmara, enquadrar a fotografia e de preocuparmo-nos com ela está a perder-se. E acho que as pessoas estão a sentir saudades disso”, explicou Oskar Smolokowski, ressalvando que a fotográfica instantânea é, precisamente, o oposto. “Existem grandes limitações, não temos a ideia de que podemos tirar 25 fotografias da mesma montanha até ficar perfeita. Se temos uma foto num pack de oito, será que quero mesmo tirar uma foto a uma sopa?”, questionou durante a apresentação da I-1. 

Tais restrições, no entender do CEO do The Impossible Project, fazem-nos pensar em cada disparo e “tirar fotografias àquilo que é realmente importante: a nossa família, amigos e a quem amamos”. “Mais do que nunca este formato faz sentido”, reconheceu.



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