Hardware ao preço da chuva, ferramentas de prototipagem como a plataforma de hardware e microcontroladores Arduino e a impressora 3D de código aberto RepRap ou, ainda, microcomputadores como o Raspberry Pi e BBC Micro Bit para programar. Espaços físicos dedicados à partilha de experiências e know-how, tais como laboratórios de fabricação digital (Fablabs) ou Maker Spaces, e uma filosofia crescente de Hardware Aberto.

Todos estes fatores, ligados à matéria-prima, componentes de eletrónica e acesso ao conhecimento, têm dado forma e feitio ao movimento dos makers – ou fazedores numa tradução livre – por todo o mundo. E Portugal não é exceção à regra. Vejamos alguns dos eventos nacionais que fomentam este empreendedorismo tecnológico e que arrancam hoje – ou dentro dos próximos dias – no âmbito da European Maker Week.

Uns são organizados por agrupamentos de escolas, outros por câmaras municipais em parceria com fablabs, por exemplo, sendo no total 20 as iniciativas a decorrer em Lisboa, Águeda, Venda do Pinheiro, Ílhavo, Faro, Lagoa, Tavira e Portimão. A capital vai ser palco de metade destes eventos: os primeiros, a decorrer hoje, têm como enfoque um encontro de especialistas para promover a cultura open source e fazer uma introdução à eletrónica digital com o Logisim.

Amanhã será dia de ‘brincar’ com MakeyMakey e Arduino, aprendendo a programar e controlar os robôs Dash e Dot – num evento no Pavilhão do Conhecimento e Ciência Viva –, bem como de ligar a comunidade de empreendedores a peritos que os podem ajudar a criar os primeiros protótipos ou aumentar a competitividade dentro das cadeias de distribuição de produtos. Além disso, haverá ainda uma aula de introdução à Fresagem CNC.

Crédito: Pixabay

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No mesmo dia, Aveiro vai organizar a quarta sessão Hardware City, fomentando a interação entre fabricantes, makers e startups de hardware e, ao mesmo tempo, dando visibilidade aos produtos de hardware criados pelos markers portugueses em fablabs. Enquanto isso, por Lagos dá-se início a cinco dias de sessões ligadas à reação em cadeia, brinquedos científicos, luz, circuitos elétricos, impressão 3D e programação.

Águeda e Faro, por seu turno, dão o pontapé de saída dia 1 de junho, com a realização, respetivamente, de workshops de Arduino, organizados por uma escola secundária; e do eLab Maker Show, assente na exibição de projetos e workshops.
Entre os dias 2 e 5 de junho, também Lisboa vai receber workshops em dose tripla: um sobre a utilidade de um osciloscópio na eletrónica digital, outro dedicado ao corte a laser e um terceiro cujo objetivo é a construção do robô Farrusco. Mas não só, haverá ainda a oportunidade de aprender a construir drones de asa fixa e de saber mais sobre o Productize.it, um programa de pré-aceleração para ajudar estudantes de Engenharia, Design e Gestão a construir uma startup com base num produto de hardware.

O hardware está em alta

Nos anos 90 assistimos a uma ‘tempestade perfeita’ que resultou na democratização do software e, em certa medida, acendeu o pavio daquilo que sabemos hoje sobre a Internet: o aparecimento do open source e do Linux e, consequente acesso ao conhecimento e partilha de informação. Atualmente o hardware vive semelhante experiência, na opinião do fundador da Bright Pixel e um dos embaixadores da Lisbon Maker Faire.

“Há qualquer coisa de mágico a acontecer com o tema do hardware neste momento”, afirmou Celso Martinho durante o evento IoT Summit, que decorreu no início deste mês na sede da Microsoft Portugal. “Está a acontecer um shift muito grande no processo de construção de dispositivos físicos”, constatou, reconhecendo que muitos dos gadgets que neste momento são passíveis de desenvolver por um grupo de pessoas ou uma startup, há uns anos, só estavam ao alcance de uma grande fábrica ou de uma instituição poderosa em recursos.

Com isto tornou-se possível que “na primeira fase do ciclo de vida de produção industrial – a mais criativa, inovadora e experimental -, duas pessoas numa garagem, com muito poucos recursos financeiros, mas com muita motivação e criatividade, consigam fazer coisas fantásticas”, admitiu na altura o CEO da Bright Pixel, lembrando que “a própria indústria vai ver-se obrigada a interagir com estes novos grupos, novas startups e novas comunidades”.

Apesar de este movimento dos makers ser relativamente recente em todo o mundo, Portugal não está alheio, muito pelo contrário. Os projetos portugueses Bitalino, um kit low-cost de hardware e software livre que permite o desenvolvimento de protótipos de aplicações utilizando sensores biométricos, e Printoo, uma plataforma de prototipagem assente em kits de eletrónica impressa que possibilita o desenvolvimento de sensores ou outros gadgets, são exemplos flagrantes. Mas neste grupo encaixa também que nem uma luva a impressora 3D nacional, a Beethefirst.

Projetos deste tipo, bem como uma grande quantidade de hacker spaces e de fablabs foram, aliás, algumas das motivações para a realização, em 2014, do primeiro evento nacional ligado a este fenómeno, a Mini Lisbon Maker Faire – por lá passaram 120 projetos de makers e cerca de 10 mil pessoas, ao longo de três dias.

Crédito: Lisbon Maker Faire

Crédito: Lisbon Maker Faire

“Foi um sucesso inquestionável”, lembrou Celso Martinho. “Decidimos fazer a Lisbon Maker Faire no ano passado – de míni passou para Feature Maker Faire europeia, juntamente com a que existe no Reino Unido e em Itália, e este ano vamos para a terceira edição, nos dias 25 e 26 de junho, no Pavilhão do Conhecimento”, adiantou.

O movimento dos makers, recorde-se, é um conceito que surgiu nos Estados Unidos fortemente ligado aos fundadores da Make: Magazine Dale Dougherty, que criou a primeira Maker Faire em San Mateo (Califórnia), e Tim O’Reilly. Mas a sua influência rapidamente chegou à Europa e a todo o mundo.

As oficinas urbanas – fablabs – foram, de resto, um dos grandes impulsionadores deste fenómeno ao democratizarem o acesso aos meios de fabricação modernos, como máquinas de corte e de gravação a laser, de corte de vinil, fresadores para fazer circuitos eletrónicos, scanners 3D, sistemas de videoconferência ou impressoras 3D. A ideia “fablab” nasceu, em 2003, no MIT, numa cadeira em que os alunos aprendiam a fazer quase tudo, sendo que a elevada adesão levou à sua expansão para fora não só das paredes deste Instituto de Tecnologia, mas também dos Estados Unidos.

Portugal deixou-se conquistar por esta máxima Do It Yourself (DIY) e por estes espaços de experimentação livre, abertos ao público, onde a inovação dá depois, muitas vezes, lugar a negócios, tendo algumas oficinas deste tipo, entre elas o Fablab Lisboa, Fablab Aldeias do Xisto e Fablab EDP – este último o primeiro a aparecer no país. Os resultados estão à vista e alguns podem ser vistos aqui.

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