Começa a ser regular: de longe a longe aparece uma nova rede social que é muito badalada a nível mediático e que depois não consegue justificar todo esse mediatismo. Nos últimos anos os casos mais conhecidos foram os das plataformas Diaspora, Ello, Meerkat e Peach. A próxima plataforma candidata a entrar nesta lista é a Mastodon.

A Mastodon já existe desde outubro de 2016, mas só na semana passada é que saltou para a ‘ribalta’. O timing não foi certamente inocente: o Twitter alterou o sistema de menção de utilizadores nas mensagens, com o objetivo de libertar caracteres, mas a novidade não foi plenamente bem recebida e gerou alguma crítica pública. Enquanto o Twitter continua a lutar para resolver alguns dos seus problemas internos, milhares de pessoas encontraram esta alternativa chamada Mastodon.




Já há mesmo quem apelide o Mastodon de anti-Twitter, uma conotação que tem tanto de lisonjeadora como de perigosa. Foi justamente o rótulo de anti-Facebook que atirou a Ello para uma situação muito delicada, mas a plataforma acabou por conseguir sobreviver à vaga mediática no qual foi envolvida e também se deixou envolver.

A questão é que a Ello sempre teve um foco na comunidade de artistas e o facto de ter-se mantido fiel à sua filosofia inicial faz com que ainda hoje sobreviva. A Ello pode não ser tão popular ao ponto de conseguir rivalizar com um Facebook – ou de lhe despertar o desejo de compra -, mas é uma plataforma ativa, com conteúdos bastante criativos e que conseguiu encontrar o seu espaço na ‘grande rede’.

Por outro lado, a Mastodon não aparece com um foco muito diferente do Twitter, apenas melhora alguns dos aspetos que são criticados na rede social. Tendo em conta a grande diferença de capacidades que existe atualmente entre a Mastodon e o Twitter, se algum dia de facto a Mastodon representar um perigo para o Twitter, o Twitter será rápido a responder. Tal como aconteceu com a Meerkat.

RIP Meerkat

A Mastodon tem sido comparada à Diaspora e à Ello porque estas foram duas redes sociais que passaram pelo mesmo ciclo de mediatismo – de um momento para o outro estas plataformas desconhecidas emergiram num grande número de meios de comunicação e o facto de prometerem resolver alguns problemas associados às grandes redes sociais tornou a sua missão ainda mais chamativa.

Mas a comparação da Mastodon com a Diaspora e a Ello não é de todo a mais correta pois nenhuma destas duas plataformas rivalizou com o Twitter – ambas foram apontadas como alternativas ao Facebook. Em bom rigor nenhuma plataforma tentou bater-se no mesmo campo do Twitter. A Meerkat foi a empresa que mais mexeu num terreno no qual o Twitter também estava interessado e a resposta foi rápida.

Já abordámos o duelo entre o Meerkat e o Periscope do Twitter, com o Periscope a ter saído um claro vencedor. Porquê? Porque mesmo o Meerkat a ser o primeiro serviço a democratizar as transmissões de vídeo em direto, a estrutura do Twitter era grande o suficiente para dar uma resposta à altura e abafar por completo o Meerkat.

Caso a Mastodon ganhe um número significativo de utilizadores – cenário que não acontece atualmente, tendo pouco mais de 136 mil, contra os 319 milhões do Twitter -, o Twitter pode simplesmente incorporar as funcionalidades que estão a atrair alguns utilizadores para a Mastodon.

Mastodon

Em termos de aspeto a Mastodon é muito parecida com o Tweetdeck, o interface do Twitter dedicado para utilizadores mais avançados.

O que torna a Mastodon diferente

Apesar de funcionar de forma semelhante, tendo por base um sistema de microblogues, a Mastodon acaba por apresentar características que a tornam diferente do Twitter. Em primeiro lugar permite que os utilizadores escrevam um total de 500 caracteres por mensagem, em oposição aos 140 caracteres do Twitter. Mais texto pode ser sinónimo de ideias um pouco mais extensas, melhor argumentadas e um menor volume total de mensagens – uma mensagem na Mastodon é o equivalente a três tweets.

A Mastodon também permite que os utilizadores tenham um maior controlo sobre o alcance das suas mensagens, isto é, é possível definir diferentes parâmetros de privacidade para cada uma das mensagens que é publicada. Enquanto um determinado toot – nome das mensagens na Mastodon – pode ser visualizado por todos, um outro toot pode ser visualizado apenas por uma parte dos seus seguidores. Há inclusive uma opção que permite não listar os toots, querendo isto dizer que pode escrevê-los e que outras pessoas não serão capazes de os ler.

Mas o que torna a Mastodon muito diferente do Twitter é o facto de ser uma plataforma descentralizada. Isto significa que podem existir muitos sites associados à plataforma principal, sendo que cada um destes sites é denominado como instance e o Mastodon como rede social é definido como federation.

Por exemplo, o utilizador tanto pode registar-se no mastodon.social, como no mastodon.xyz, como no mastodon.at. Cada uma destas plataformas consegue funcionar de forma independente, mas conseguem igualmente funcionar em conjunto. Todas as instances que são criadas da Mastodon partilham as mesmas funcionalidades e o mesmo design – podem é ter regras diferentes. Palavras que são permitidas na mastodon.xyz, podem não ser permitidas na mastodon.at, por exemplo.

Mastodon

O número de utilizadores varia de instance para instance. Cada um destes espaços tem um administrador, a pessoa responsável por criar as regras em vigor.

A forma mais simples de entender a Mastodon é pensar nos serviços de email – a comparação é feita pelo próprio Eugen Rochko, o fundador da Mastodon, na publicação que ajudou a atrair alguma atenção para a plataforma. Existe o Gmail, o Yahoo Mail, o Outlook, o Hotmail e o Apple iCloud por exemplo. Cada um funciona de forma independente, mas os utilizadores do Gmail também podem falar com os do Outlook e vice-versa.

Esta estrutura descentralizada também faz com que seja possível a existência do mesmo nome de utilizador em diferentes instances, pois acabam por estar associados a plataformas diferentes. Por exemplo, podem existir vários @utilizador123, sendo que um estará associado ao mastodon.social, outro ao mastodon.xyz e outro ao mastodon.at. Não vale por isso a pena correr para a plataforma com o objetivo de agarrar o seu nome, pois sempre que abre uma nova instance esse nome volta a ficar disponível.

Como é que se distinguem então todos os @utilizador123? Associando cada nome à sua instance. Se pesquisar apenas pelo handle @utilizador123, apenas vai procurar por este utilizador dentro da sua instance. Para alargar as pesquisas a outras instances, terá de acrescentar o nome de domínio ao nome de utilizador. Assim: @utilizador123@mastodon.xyz ou @utilizador123@mastodon.at.

O conceito não é o mais simples de assimilar pois de facto acaba por ser mais complexo do que os conceitos tradicionais popularizados pelo Facebook, Instagram, Snapchat e Twitter. Esta primeira camada de complexidade parece-nos que será motivo suficiente para que a Mastodon não venha a conhecer uma adoção tão generalizada quanto outras redes sociais. As pessoas esperam que a tecnologia lhes facilite algo, ainda que por muito tentadora possa ser a proposta de uma solução mais complexa.

Em suma, apesar das melhorias que a Mastodon propõe relativamente ao conceito do Twitter, a Mastodon assenta num conceito muito diferente de rede social e isso tanto pode representar um problema como uma oportunidade.

As pessoas querem estar onde as outras pessoas estão

Independentemente das funcionalidades que cada plataforma apresenta, acabam por ser as pessoas o principal motivo para o sucesso das redes sociais. E não basta ter presença numa determinada rede social, as pessoas gostam de utilizadores ativos nessas redes sociais. No fundo, é esta interação entre pessoas que dá valor ao conceito de ‘social’.

Basta lembrar que o Google+ tinha 400 milhões de utilizadores registados e 100 milhões de utilizadores ativos, e ainda assim a plataforma não se livrou da ideia de ser uma rede social fantasma – as pessoas até podiam ter lá presença, mas não interagiam na plataforma.

Se a tarefa do Google+ em conseguir interação por parte dos utilizadores já foi difícil, atualmente é ainda mais complicado para qualquer outra rede social que esteja a crescer. Entretanto afirmaram-se o Instagram, o WhatsApp, o Snapchat e o Facebook agigantou-se ainda mais, o que deixa menos espaço para outras plataformas sociais.

Por agora o número de utilizadores da Mastodon é ainda muito pequeno para ser considerado como uma potencial ameaça ao Twitter. Mesmo que cresça para alguns milhões de utilizadores, isso também poderá não ser suficiente para sustentar a plataforma a longo prazo – o segredo não é conquistar utilizadores, o segredo é conseguir mantê-los.

Mastodon

O maior controlo que existe sobre a disponibilização dos conteúdos é um dos factores positivos a ter em conta na Mastodon.

Entre a necessidade de conquistar utilizadores, conquistar utilizadores que criem conteúdo, entre o já por si concorrido segmento das plataformas sociais, entre a possibilidade de receber uma resposta do Twitter, entre a complexidade do conceito no qual assenta, entre outros elementos – como o facto de o projeto viver à base de donativos, querendo dizer que se os donativos acabarem, provavelmente todo o projeto sofre um duro golpe -, a Mastodon está numa situação em que dificilmente vai tornar-se na próxima grande rede social.

A questão é que não precisa de fazê-lo. Nem todas as plataformas que aparecem precisam de ser o próximo Facebook ou Twitter. À semelhança do que aconteceu com a Diaspora e com a Ello, por exemplo, a Mastodon pode encontrar o seu público de nicho e pode sobreviver muito bem dentro do seu idealismo de rede social. Mas todos os cenários que vão além disso parecem mais difíceis de assimilar. Não, a Diaspora e a Ello não derrotaram o Facebook, mas também não desapareceram, como por vezes se dá a entender.

O Twitter pode ter os seus problemas e o Twitter até pode aprender alguns truques com a Mastodon – porque há de facto elementos de valor nesta nova rede social. Mas tecnologica e socialmente falando, no geral ainda não há motivos suficientes para abandonar o Twitter a favor da Mastodon.

Por outro lado, experimente esta rede social pois o seu conceito de instances acaba por ser apelativo. Quando encontrar uma instance à qual possa chamar ‘casa’ – como o mastodon.technology, que é mais dedicado aos temas da tecnologia -, talvez acabe por encontrar um outro local onde pode falar e partilhar conteúdos sobre os seus temas preferidos.

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