É preciso dar valor ao trabalho que a Microsoft fez com o Surface. Criou um novo segmento dentro da computação portátil, desenvolveu uma peça de hardware muito bem conseguida e conseguiu resistir aos fracos resultados apresentados pelo equipamento nos dois primeiros anos de vida.

A família Surface entretanto expandiu – de um tablet para um portátil, o Surfacebook – e na próxima semana pode aumentar novamente. Tem dito a imprensa internacional que no dia 26 de outubro podemos ficar a conhecer um Surface All in One.

Cá estaremos para essa eventualidade, mas a Microsoft não pode descurar a sua jóia da coroa: o tablet Surface.




Foi sem dúvida o equipamento que deu a injeção de jovialidade e de modernismo que a Microsoft tanto precisava. Não que a Microsoft estivesse a ficar aborrecida, simplesmente não era tão palpitante como outras grandes tecnológicas: Google, Apple, Facebook e Amazon, por exemplo.

A questão é que o Surface sempre foi visto como uma arma de dois gumes: tanto podia ajudar a ‘salvar’ a Microsoft, como também podia magoá-la. É que de um momento para o outro, a empresa que sempre esteve do lado de todos os grandes fabricantes de hardware, passava também ela a ser uma empresa de hardware, um concorrente.

O reconhecimento de que a Microsoft magoou um pouco os seus parceiros veio da forma mais envenenada possível: atualmente quase todos os grandes fabricantes de computadores têm uma resposta direta ao Microsoft Surface. Conclusão? Não há cá cortesias.

Mas aqui o tema central não é o estado atual do relacionamento da Microsoft com os seus parceiros – talvez esse fique melhor num artigo onde agora também podemos colocar a Google, relativamente aos smartphones. A grande questão é que a Microsoft arrisca-se a perder no jogo que ajudou a criar.

Foi a Microsoft quem inventou o conceito do Surface e nos últimos quatro anos foi o melhor equipamento do seu segmento. Mas aos poucos os restantes fabricantes vão encurtando a distância e em alguns elementos até vão superando o dispositivo da Microsoft.

Um desses casos vem da Asus. Durante a apresentação do Asus Zenfone 3 em Portugal também foi revelado o Asus Transformer Pro 3. Oficialmente a empresa não o chama de Surface-killer, mas é difícil vê-lo de outra forma.

Ecrã de 12,6 polegadas com resolução de 2.880×1.920 píxeis, processador Intel Core i7 de 7ª geração, 16GB de memória RAM, 512GB em disco SSD e entrada Thunderbolt 3. O preço desta máquina é de 1.599 euros, já com caneta e teclado incluído.

Ainda não testamos o Transformer 3 Pro para podermos dizer de forma assertiva que está à altura do tablet da Microsoft. Mas na lista de especificações o equivalente da Microsoft custa mais mil euros, para um total de 2.499 euros – apenas com a caneta incluída, a capa-teclado é comprada à parte e custa mais 155 euros.

A diferença de preço é abismal, com clara vantagem para a Asus. Aqui temos um exemplo de um equipamento muito semelhante ao Surface, mas que reduz e muito a sua etiqueta premium.

No primeiro trimestre do ano a Microsoft vendeu 1,1 milhões de tablets Surface, de acordo com a Strategy Analytics

Um outro exemplo interessante vem da HP. Já foi tem quase um ano, é certo, mas continua a ter um elemento distintivo. O Spectre X2 tem um duplo sistema de áudio da Bang & Olufsen – um integrado diretamente no tablet, outro integrado diretamente no teclado.

Ou seja, este é um exemplo claro de como as marcas já estão a começar a recriar em cima do conceito do Surface. É claro que dificilmente será o sistema de som sozinho que fará um consumidor pender para um lado ou para o outro. Mas o Spectre X2 não é interessante apenas no preço: também o é no design, na construção geral do seu teclado e no preço, apresentando-se bem abaixo dos mil euros, ainda que em configurações que só têm processadores Intel Core M – a Microsoft também ‘atua’ neste segmento a partir dos 999 euros.

O Dell XPS 12 é outro exemplo de como a concorrência já está a dar água pela barba à Microsoft e ao seu Surface. Numa das configurações deste tablet híbrido o ecrã já tem resolução Ultra HD, superando por isso aquele que é um dos principais componentes do Surface.

No segundo trimestre de 2016 as vendas do Surface aumentaram 29% em comparação com o ano anterior, de acordo com a Microsoft

Depois já começam a surgir novos equipamentos, como o Lenovo Yoga Book, que mesmo não sendo um concorrente direto do Surface em todas as características técnicas, apresenta um conjunto de ‘aliciantes’ que podem fazer os consumidores simplesmente desviar as atenções do tablet da Microsoft.

Por exemplo, na área da produtividade com a caneta. O Yoga Book tem duas superfícies responsivas ao toque da caneta, cada uma com mais de dois mil pontos de precisão, com o extra de o tablet da Lenovo ter uma tecnologia que permite ao utilizador escrever no papel e converter automaticamente os traços para formato digital.

Se olharmos por exemplo para o campo da portabilidade então temos o Huawei MateBook com apenas 6,9 milímetros de espessura e 640 gramas, enquanto o Surface Pro 4 está com 8,4 milímetros e 766 gramas na sua configuração mais leve.

Isto para dizer que aos poucos, os diferentes fabricantes vão colocando as suas respostas ao Surface no mercado. Muitas delas vêm com argumentos que são favoráveis numa comparação direta com o Surface da Microsoft.

Mas também é verdade é que estas características únicas estão ainda muito espalhadas nos diferentes fabricantes. Ou seja, talvez no global o Surface Pro 4 continue a ser a proposta com maior consistência.

A questão é que seu estado de singularidade está a perder-se. Caberá à Microsoft restabelecer a distância a seu favor apresentando um Surface Pro 5 que traz melhorias significativas em quase todos os quadrantes do equipamento. Se não o fizer será uma questão de tempo até que a concorrência esteja toda no mesmo patamar.

E isto nunca pode acontecer. O Surface também foi feito para isto: para puxar a concorrência, sobretudo na inovação no mercado dos convertíveis e dos dispositivos híbridos. Nesse aspeto a Microsoft está a concretizar a sua missão em bom nível.

Mas se for igualado pela concorrência, então o Surface perde parte da sua razão de ser. Em breve saberemos se a Microsoft tem o que é necessário para manter a dianteira neste jogo, este jogo que a empresa criou.