A palavra inglesa mill traduzida para português significa moinho. E é na Calçada do Moinho de Vento, em Lisboa, que encontrámos o MILL, um espaço dedicado ao movimento dos fazedores. Chegamos já no final da semana, numa sexta-feira à tarde. O criador do espaço, Maurício Martins, recebeu-nos à porta.

Poucos passos dentro do MILL e deparámo-nos logo com a Yet Another RepRap, ou YARR para os amigos. Na prática é uma impressora 3D gigante e que consegue fazer impressões com uma área de 75 cm/3, um volume muito superior àquele que é encontrado nas impressoras 3D mais ‘tradicionais’.




“Até agora ainda não encontramos nenhuma tão grande aqui em Portugal. Na altura foi para apresentar na primeira Maker Faire, ainda era a mini-Maker Faire. Fez um grande sucesso”, conta Maurício Martins sobre a YARR.

“A máquina saiu da cabeça de um alemão, Ferdinand Meyer, um alemão que esteve aqui comigo e é meu amigo desde o altlab [hackerspace em Lisboa]. Conheci muita gente desta área, a área maker, através do altlab”.

MILL YARR

Esta é a Yet Another RepRap (YARR), um projeto de impressora 3D baseada em open source, assim como todos os restantes projetos feitos no MILL. #Crédito: Future Behind

Maurício Martins é brasileiro, mas já está em Portugal há 25 anos. Primeiro trabalhou na Philips Portugal, depois embarcou numa aventura na Expo 98 durante cinco anos. “O ponto alto da minha carreira a trabalhar para os outros, foi a praça Sony”, recordou.

Mais tarde teve uma produtora de vídeo e diz que “não podia ter cometido erro mais absurdo” – tudo por causa do timing escolhido. Depois desta aventura malsucedida foi convidado pelo Pavilhão do Conhecimento para fazer o espaço Dóing, cerca de 500 m2 dedicados ao tinkering: “é fazer com que os miúdos mexam nas coisas e façam coisas”, explicou Maurício.

Mais recentemente, nos últimos três anos, Maurício Martins tem estado dedicado ao MILL. “O MILL basicamente é um espaço colaborativo, de partilha de conhecimento. Estes são os pontos-chave”, explica.

O MILL – acrónimo para Makers in Little Lisbon – pode ser visto como um espaço de coworking onde qualquer pessoa que tenha um projeto na área da fabricação digital pode executar a sua ideia. Existem impressoras 3D, uma impressora de resina, há máquinas de corte preciso e gravação, há estação de soldadura, há um torno e muitas outras ferramentas que podem dar jeito aos makers que quiserem integrar o espaço.

Mas o que separa o MILL de um cowork tradicional – além da tipologia dos projetos que desenvolvem – é o envolvimento das diferentes pessoas que estão no espaço. Não se trata só de conviverem, trata-se de trabalharem juntas.

“O MILL em si, não queremos chamá-lo de cowork, porque o cowork acaba por ser muito ‘tu tens a tua empresa, eu tenho a minha empresa, nós estamos aqui dentro e se acontecer alguma coisa, se houver a possibilidade, vamos trabalhar juntos‘. Nós somos mais do que isso. Queremos ter aqui pessoas que estão sempre interessadas em trabalhar juntas, entre elas. Para qualquer projeto que entre, haja interesse de encontrar forma de todos fazerem e de todos ganharem com isso”.

Em termos ideológicos o MILL quer ser mais do que um espaço. O MILL quer ser uma comunidade que dá oportunidades aos makers. Se tivesse um slogan seria algo como ‘De markers para makers’.

“A maioria dos trabalhos hoje em dia são multidisciplinares. As pessoas que estão cá a colaborar podem utilizar o espaço e os recursos para fazerem protótipos e projetos individuais. Se vier algo de fora, todos falamos. ‘Chegou isto, queres fazer isto, como o MILL entra nisto, como a LEDs&Chips entra nisso’. Tentamos encaixar todas essas peças no final”.

“Estamos a tentar criar uma comunidade, pessoas que se interessem em vir cá por um dia, dois dias, um mês, dois meses, ficar cá a desenvolver um projeto. Estamos a tentar esse tipo de abordagem, até convidar artistas”.




O nome LEDs&Chips é bastante conhecido da comunidade maker em Portugal, pois é uma loja online que tem à venda material que os fazedores procuram e nem sempre é fácil de encontrar.

“Na verdade a LEDs&Chips acabou por surgir muito pela necessidade da comunidade que foi criada enquanto eu estava no altlab. Chegou a ter para aí 50 membros quando eu estava lá. ‘Onde é que eu compro isso? Onde compro aquilo?’. Eu facilitava muito ‘vai aqui, faz ali’, conhecia muito o mundo dos fornecedores, das lojas, da computação física. O meu background é eletrónica, estava sempre a inventar, a fazer coisas”.

“A loja acaba por trazer muito networking para aqui. A loja é online, mas podes fazer o levantamento aqui no MILL. É uma forma de fazermos com que o projeto MILL seja conhecido também, as pessoas vêm cá fazer levantamentos. ‘Que giro o espaço, o que fazem aqui?’. Tem sempre esse movimento, compensa mantê-la”, salientou Maurício.

MILL Maurício Martins

Maurício Martins, o fundador do MILL, numa pose típica de um maker. #Crédito: Future Behind

Outra parte interessante do MILL e que não implica obrigatoriamente que seja um maker a tempo inteiro são os workshops. Iniciativas pontuais, a maior parte das vezes realizadas fora de horas de trabalho e que para muitas pessoas são uma primeira experiência no mundo do ‘faça você mesmo‘, mais conhecido como Do It Yourself (DIY).

Por exemplo, em 2016 o MILL albergou workshops para projetar e fabricar placas de circuitos impressos, montagem de impressoras 3D, minicursos de aprendizagem com o Arduino e houve até um mês temático, dedicado à fotografia. O conceito de mês temático correu bem e Maurício Martins está a pensar como pode expandir a iniciativa.

“Em 2017 estamos a pensar fazer o mês do som, mês da música, mês do áudio, ainda não sabemos como vamos anunciar. Mas vamos fazer isso e nessa área existem imensas coisas: workshop com sintetizadores, fazer o teu próprio instrumento musical, utilizar impressão 3D para fazer instrumentos”.

A área da impressão 3D é um dos elementos forte do MILL e os workshops de montagem de impressoras 3D são concorridos. “Desses workshops já fizemos pelo menos 30. Foram seguramente mais do que dez por ano. Seis máquinas por workshop e cada participante pode trazer um acompanhante”.

Outro elemento que destaca o MILL é a colaboração com outros espaços makers. Por exemplo, há uma relação próxima com as Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo.

“Quem está à frente é um artista que se chama Tiago Fróis, é um artista multidisciplinar, ele é um maker-artista. Na verdade aquilo é um Convento, o Convento de São Francisco, que tem um FabLab dentro. Tem um monte de coisas lá dentro, já tem corta laser também, impressão 3D, já tem muitas coisas. Estamos sempre lá a fazer projetos. Adoramos fazer coisas com eles”, confessou o fundador do MILL.

Um dos projetos de maior expressão do MILL e que foi feito em parceria com as Oficinas do Convento foi uma mão robótica com um metro e vinte centímetros de altura. Destino da encomenda? EUA.

Crédito das imagens: Oficinas do Convento / Facebook

“É um artista americano que só faz arte de mãos e pintura realista, agora começou a fazer coisas em silicone muito realista, uns quadros em que os dedos das mãos saem para fora. Mas aquilo parece mesmo uma mão. Eles querem uma mão com movimento para colocarem uma luva de silicone para parecer uma mão autêntica”.

A mão robótica foi também um dos maiores trabalhos que o MILL fez até à data. E sabendo que o movimento maker está cada vez mais forte em Portugal – basta pensar em projetos como o BITalino, Blocks Zero ou em como a Maker Faire Lisboa tem-se destacado de ano para ano – quem sabe o que vai sair a seguir do MILL.

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