A Nintendo a fazer um shooter multijogador? A ideia causou estranheza quando Splatoon foi apresentado pela primeira vez em 2014. Não era um jogo com a maturidade nem os níveis de violência de Call of Duty ou de Battlefield. Claro que a Nintendo abordou a questão de uma forma muito mais amigável e sempre com aquele fator obrigatório de diversão.

O jogo recebeu boas críticas da imprensa especializada. E merecidas. Splatoon foi uma lufada de ar fresco nas propriedades intelectuais da Nintendo. Pela primeira vez em muitos anos a gigante japonesa tinha criado aquele que parecia ser um jogo digno de estar ao lado de outras franquias de sucesso como Super Mario, Zelda ou Star Fox.



Tecnologicamente o jogo também impressou sobretudo pela consistência dos gráficos e pela fluidez inquebrável mesmo nos momentos de jogabilidade online.

Além de criativo, colorido e competitivo, Splatoon conseguiu deixar uma marca por ser de facto diferente de todos os jogos que saíram para a atual geração de consolas. Só não teve mais sucesso e fama pois a consola onde está disponível, a Wii U, tem pouco mais de 12 milhões de unidades distribuídas em todo o mundo.

Um dos aspetos que ajudou a destacar Splatoon foi as Splatfests: eventos de jogabilidade online organizados pela Nintendo dentro do próprio jogo. Cada Splatfest tinha um tema associado. Os temas eram pura trivia: preferia ser musculado ou rico, o SpongeBob ou o Patrick ou preferia o Pokémon Red ao Blue?

Cada jogador escolhia o seu lado e depois em grandes batalhas online lutavam pela sua preferência. Os Splatfests funcionaram bem pois eram delimitados no tempo, o que ajudava a concentrar um grande número de jogadores nos servidores. Nos Splatfests estava tudo a pensar no mesmo e essa energia era contagiante.

Se a qualidade e a diversão de Splatoon não estavam em causa, qual a grande questão que era preciso responder relativamente a este jogo? A sua longevidade. Qual seria? O que teria a Nintendo preparado para o seu primeiro shooter multiplayer?

Em fevereiro de 2016 Splatoon tinha vendido quatro milhões de unidades

Há jogos que pelas suas características e comunidade conseguem durar quase toda uma geração de consolas – os títulos GTA da Rockstar são disso um bom exemplo. Lançado no final de 2013, passados quase três anos e ainda tem programadores dedicados a desenvolverem modificações – um destes modders até é português.

Splatoon foi lançado no final de maio de 2015 e em novembro desse mesmo ano surgiu a notícia de que a partir de janeiro de 2016 a Nintendo já não iria trazer conteúdo novo – como armas e níveis – até Splatoon. Parecia uma tempo de vida curto para um jogo que estava a fazer sucesso.

Efetivamente a partir de janeiro já não houve mais conteúdo extra, mas depois chegaria uma outra notícia triste para a comunidade de jogadores: o Splatfest final, um no qual os jogadores teriam de escolher entre Callie e Marie, as duas ‘lulas-apresentadoras’ de serviço, aconteceria em julho.

Splatoon Tsubasa Sakaguchi

Tsubasa Sakaguchi é um dos coautores de Splatoon e foi a pessoa que teve a ideia de permitir uma mutação entre a forma humana e o aspeto lula das personagens. #Crédito: Nintendo

Sem atualizações e sem Splatfest – mas ainda com toda a componente online ativa -, Splatoon perdia parte da sua essência. Seria uma questão de tempo até que o jogo esmorecesse para um dia mais tarde ser lembrado como um dos grandes títulos da Nintendo Wii U.

Mas eis que esta semana a empresa nipónica anuncia uma parceria com a ESL, uma empresa especializada na criação de competição de desportos eletrónicos. Isso mesmo: Splatoon vai continuar a mexer e logo em modo eSport.

Já a partir do mês de setembro e ao longo de meio ano a ESL vai organizar torneios online dedicados ao shooter da Nintendo. Só estarão em competição jogadores europeus pois o acordo apenas é válido para o ‘velho continente’. Ainda não é certo se o conceito será alargado a outras regiões do mundo num momento posterior.



O cariz mais animado das personagens e o festival de cores que se espalha pelos ringues de combate não tornariam logo Splatoon num candidato a jogo eSport. Mas devido à comunidade dedicada, devido à forte componente de competitividade do jogo e também ao seu lado mais estratégico – sem estratégia torna-se difícil vingar em Splatoon – o jogo acabou por elevar-se, possivelmente acima daquilo que a Nintendo teria planeado, olhando para os deadlines da gigante japonesa.Splatoon Squid Marie

Há rumores de que Splatoon pode ser um dos títulos de lançamento da Nintendo NX

“Um jogo é feito para ser divertido ou com determinadas componentes competitivas. E depois é a própria comunidade do jogo que o eleva a esse ponto. É algo um bocado orgânico. Podes dar-lhe esse potencial [enquanto criador], mas não podes defini-lo como eSport. A comunidade é que o adota e o eleva a eSports se assim o entender”.

As declarações são de Tiago Franco, do estúdio português Fun Punch Games, e foram feitas relativamente à possibilidade de Strikers Edge transformar-se num eSport. Mas a explicação ajuda a perceber este último sopro de vida que Splatoon está a ter. Na prática o jogo está a ser alimentado pelo seus próprios jogadores.

Convencida de que ainda pode capitalizar com Splatoon, a Nintendo anunciou também que desde ontem, 18 de agosto, e até ao próximo dia 1 de setembro todos os jogadores que ainda não têm Splatoon vão poder aceder a uma versão de demonstração do jogo.

Esta demo, intitulada de Splatoon Testfire verão 2016, pretende trazer os últimos interessados a bordo do jogo de tiros coloridos.

Se Splatoon fosse uma história de ler aos miúdos antes de dormirem, seria uma com final feliz. O jogo e a sua comunidade merecem este alargamento de vida e entusiasmo. Se por acaso já tinha pousado as suas armas está na altura de sacudir algum pó e voltar a treinar.

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