Estamos em 2003 e saem os resultados de quota de mercado de telemóveis para o terceiro trimestre: a Nokia lidera com 35% e bem mais atrás, mas na segunda posição, surge a Motorola com 15,5%.

Damos um salto temporal e no quarto trimestre de 2007 a Nokia continua a ser líder no segmento dos telefones móveis com quota de mercado de 40%, seguida da Samsung com 14% e na terceira posição está a Motorola com 12%.

Carregamos no botão de fast forward e chegamos ao primeiro trimestre de 2016. Tentamos encontrar a Nokia ou a Motorola nos valores de quota de mercado de smartphones e já não estão lá. Por dois motivos: perderam a sua posição dominante e face a esta nova realidade, foram compradas por outras empresas.



Mas a história das duas gigantes – Nokia e Motorola – está a tornar-se triste pois está a assumir o típico trajeto dos gigantes que muito fizeram por todos nós, mas a quem no fim só são recordadas as más decisões. Obrigado Nokia pelo 3310. Obrigado Motorola pelo Razr V3.

Agora em meados de 2016 as duas empresas que já foram rivais, um pouco como são agora a Samsung e a Apple, têm em comum o facto de já terem sido vendidas duas vezes num curto espaço de tempo. Parecem empresas que estão numa trajetória descendente e com pouca hipótese de inverter essa tendência. Mas nunca se sabe.

Connecting people

Em setembro de 2013 a Microsoft anunciava o que para muitos já era de esperar: comprou o segmento de telefones da Nokia num negócio avaliado em 7,2 mil milhões de dólares. Nos trimestres anteriores as duas tecnológicas tornaram-se ‘unha e carne’ na tentativa de tornar o Windows Phone uma alternativa ao Android e ao iOS.

Isso nunca aconteceu. O Windows não venceu como plataforma móvel e apesar de ter apresentado ao mundo equipamentos de grande qualidade, como o Nokia Lumia 1020, a verdade é que os smartphones da Nokia eram bons em hardware, mas faltava-lhes o apelo do software.nokia-3310

Lançado no ano 2000 é um dos smartphones mais populares de sempre. Estima-se que tenha vendido 126 milhões de unidades. Agora é objeto de adoração na Internet sobretudo pela sua robustez.

A Microsoft experimentou várias estratégias: apostar no segmento de gama alta, depois apostar no segmento de baixo custo, depois a alternativa passava pelos mercados emergentes, chegou a colocar o sistema operativo Android nos equipamentos da Nokia e por fim deixou até cair o nome da icónica marca finlandesa para criar os Microsoft Lumia.

Eis que nos chegamos a 2015 e o diretor executivo da Microsoft, Satya Nadella, vem admitir que o negócio da Nokia foi um fracasso e que a tecnológica estava a assumir uma despesa de 7,6 mil milhões de dólares.

Não foi Nadella quem fez o negócio da Nokia: foi o ex-CEO Steve Ballmer juntamente com o então CEO da Nokia, Stephen Elop. Os dois acabaram por não conseguir antecipar as corretas necessidades do universo mobile e como tal também acabaram por sair dos cargos de topo que ocupavam. Vivemos num mundo mobile, pelo que se não estiver preparado para ele, a fatura vai acabar por chegar.

Nos últimos dias chegou a confirmação de que a Microsoft pouco quer do legado da Nokia: o segmento de negócio ligado ao hardware foi vendido por 350 milhões de dólares à Foxconn, a empresa que é sempre associada ao fabrico dos iPhone da Apple.

Pelo caminho milhares de trabalhadores foram despedidos. Aquando do anúncio da venda da Nokia-telemóveis aos chineses [a Nokia como empresa de tecnologia e de redes continua a existir] foi também anunciado o despedimento de mais 1.800 pessoas ligadas à divisão de smartphones da Microsoft.

Hello Moto

Ainda antes de a Microsoft ter avançado para a aquisição da Nokia, já a Google em agosto de 2011 tinha comprado a Motorola num negócio de 12,5 mil milhões de dólares. O objetivo da gigante dos motores de busca na altura foi simples: trazer para dentro de casa o conhecimento de quem sabe fazer hardware. A Google queria competir com a Apple de forma mais direta e queria também libertar-se da possível rebelião de alguns dos seus principais parceiros, como chegou a ser especulado relativamente à Samsung.

Com a Motorola a Google fez renascer a marca e voltou a fazer com que a mesma tivesse um alcance mundial, sobretudo através da criação do smartphone que durante muito tempo teve a melhor relação qualidade-preço: o Moto G. O equipamento teve impacto e obrigou a concorrência a mexer-se.

motorola-moto-razer-v3

O Razr V3 chegou em 2004 e nos anos seguintes terá vendido 130 milhões de unidades. O formato em concha e o som característico ao fechar a tampa ainda hoje devem palpitar no coração de muitos utilizadores.

Tentou também conceitos inovadores como deixar os utilizadores personalizarem os seus smartphones, através do programa Moto Maker. No futuro será apenas lembrada como uma iniciativa interessante que teve perna curta.

Foi ainda com a ajuda da Motorola que a Google começou a desenvolver o Project Ara. Mas depois descobriu-se que o grande interesse da tecnológica podia estar afinal nos milhares de patentes que a Motorola tinha. A Google decidiu proteger-se numa altura em que a Apple e a Samsung arrancavam cabelos em tribunal.

Em janeiro de 2014 a Google vende a Motorola à Lenovo por 2,9 mil milhões de dólares. Ainda que as partes que foram vendidas não correspondem à totalidade das partes compradas, repare como a Motorola e a Nokia desvalorizaram agressivamente nas mãos dos seus novos donos – sinal óbvio de que não serviram os propósitos das empresas.

Esta semana a Lenovo referiu publicamente que a compra da Motorola está a surtir resultados muito abaixo do esperado. O recente anúncio de uma linha confusa de quarta geração do Moto G mostra também que a tecnológica chinesa não está a conseguir direcionar e possivelmente rentabilizar a linhagem que recebeu da Google.

A Lenovo como empresa de smartphones luta acima de tudo naquele que deve ser o mercado mais competitivo da atualidade: China. Todos querem estar e vender na China. A Apple tem conseguido fazê-lo bem. Mas são as da casa quem estão a beneficiar com o crescente interesse dos consumidores chineses nos smartphones. Que o digam a Huawei, a Xiaomi, a Oppo ou a vivo.

Apesar de ter comprado a Motorola, a Lenovo nunca largou a sua marca própria justamente para poder competir melhor no mercado interno. Mas ao fazer isso pode ter condicionado a forma como a Motorola se posicionou de forma global.

As novas Palm

Quando pensamos nos casos da Nokia e da Motorola é difícil não pensar logo a seguir na Palm. A tecnológica foi comprada pela HP num negócio milionário, a HP não conseguiu implementar a visão que tinha criado para explorar as tecnologias da Palm, sobretudo o WebOS. Este sistema operativo seria depois vendido à LG e parte da Palm à Alcatel. Em nenhum dos casos o conhecimento da Palm conseguiu fazer renascer a marca dentro de outras empresas.

A Palm faz agora parte do passado e olhando para todos os indicadores aqui analisados relativamente às duas marcas de telemóveis, em breve podem juntar-se ao panteão das grandes tecnológicas.

A única forma de evitar isto é através do revivalismo: apelar ao sentimento do consumidor para aqueles que foram os grandes sucessos das duas empresas. A Foxconn pode muito bem criar uma linha de telefones de baixo custo para vender na China e até reinventar o 3310. A Motorola mostrou há dias que pode estar interessada em trazer de volta o Razr V3.

Seria bom ver o regresso das velhas glórias, mas possivelmente não será suficiente para evitar um cenário onde serão apenas memórias.