Não será um dispositivo de trazer no bolso como o smartphone ou que possa ter na sala de estar como uma coluna inteligente. Mas os sinais estão lá, os astros estão a alinhar-se para que o automóvel seja o próximo grande gadget.

Quem o diz são as consultoras, as tecnológicas, as empresas de redes de telecomunicações, as seguradoras e até os políticos. Veja o exemplo de Portugal: o mercado dos automóveis está a evoluir de tal forma que o Governo português criou um grupo de trabalho específico para este segmento, composto por empresas e especialistas, que está encarregue de encontrar propostas que ajudem a alavancar o país na chamada Indústria 4.0.

Quem o disse foi o secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, durante a abertura do evento Best of Belron: Profiting from Technology. O porta-voz do Governo voltou inclusive a frisar a ideia que está a ser preparada uma equipa especial para tornar Portugal numa “tech free zone”, onde a legislação possa acompanhar os avanços tecnológicos.



A indústria automóvel beneficiaria com isso. Ainda existem muitos entraves no desenvolvimento e nos testes de, por exemplo, carros com sistemas autónomos de condução. Os EUA que são dos países no mundo mais avançados nesta matéria apenas têm sete estados que permitem fazer testes nas estradas, num total de 50.

Mas as oportunidades não existem apenas para Portugal como país que pode ser pioneiro nos testes de carros de condução autónoma, caso consiga de facto desbloquear legislação nesse sentido. Muitas empresas podem ver as suas áreas de negócio aumentar, enquanto outras podem simplesmente desaparecer.

Um estudo feito pela consultora McKinsey e apresentado no evento da Belron, que está a decorrer em Lisboa, revela que 88% das pessoas acredita que algumas marcas automóveis e de fornecedores de peças vão desaparecer até 2030 por causa da disrupção que o mercado dos automóveis está a conhecer.

O consultor Kersten Heineke explicou que o conceito de carro conectado será tão importante que os consumidores estão dispostos a mudar de carro e de marca de carro se isso significar melhor conectividade. A lealdade é trocada pela qualidade do serviço e também pela imediatez. Algo que ajuda a explicar o sucesso da Tesla.

Esta parece ser outra conclusão: o mercado dos carros tecnológicos vai mexer-se rápido e ficar definido num curto espaço de tempo. Quem quiser lucrar terá de saltar a bordo, sob pena de perder a boleia.

“Em 2026 o mundo será semelhante, mas a forma como vamos experienciá-lo vai mudar”, disse James Fisch, líder da divisão de inovação da Bosch, numa referência à forma como os carros vão alterar a vida das pessoas. Será um pouco como os smartphones: se olhar pela janela está quase tudo igual, mas se pensar na forma como pesquisava, fotografava e viajava em 2006 provavelmente sente uma grande mudança.

Um exemplo do que vai acontecer: o gestor da Bosch acredita que no futuro a reparação de um automóvel será feita de forma remota e quase totalmente autónoma.

– Recebe uma notificação no smartphone a dizer que há uma avaria;
– Agenda o serviço de reparação com a oficina de forma automática;
– Valida a operação através do leitor de impressões digitais;
– Depois seguem-se duas hipóteses: ou a oficina tem um serviço on-demand e vem até casa fazer o arranjo; ou então o carro conduz sozinho até à garagem mais próxima para ser composto;

Nem tudo poderá ser amoroso neste futuro dos automóveis inteligentes. O consultor da McKinsey, Kersten Heineke, acredita por exemplo que as seguradoras de veículos vão começar a usar os dados de telemetria do veículo para fazerem uma renegociação dos contratos com os clientes.

Conduz bastantes vezes acima do limite permitido? Então teremos de ter um seguro mais caro pois está a aumentar as hipóteses de acidente. Fez milhares de quilómetros sem percalços? Então teremos uma bonificação para si’. Poderá ser mais ou menos assim.

Poderá pois não existem certezas. Um investigador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT na sigla em inglês) que também falou na conferência, Bryan Reymer, disse isso mesmo: não existem estudos certos sobre como será o mercado dos automóveis daqui para a frente. Há suposições, há indicações, mas não há dados com bases sólidas que permitam fazer estimativas certas.

Em parte deve-se à tal questão da falta de regulamentação que tanto pode atrasar o desenvolvimento do mercado automóvel, como pode acabar por lhe dar um empurrão. As principais estimativas apontam o ano de 2020 como aquele em que carros totalmente autónomos chegarão às estradas. Até lá serão quatro anos de grandes questões.

E se…?

O mercado dos carros inteligentes tem tanto de promissor como de dúbio. “Entraria num avião se soubesse que a viagem seria feita sem um único piloto?”, questionou Bryan Reymer. Com os carros inteligentes será um pouco assim.

Além da questão da confiança, existem muitos outros desafios para ser ultrapassados.

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Os sistemas de condução autónomos permitem que os humanos tenham mais tempo para distrações durante a condução? Ao reduzir o tempo efetivo de condução, não estará o utilizador a perder prática nessa tarefa? Crédito: PageCloud / Pexels

No caso de o carro ser pirateado, quem vai cobrir as despesas desses danos? Quem vai ser o dono dos dados gerados pelo veículo? Como será feita a transição do modo automático para o modo manual em caso de necessidade? Um outro exemplo: estamos perante um cenário de colisão entre carros, mas também há uma criança a atravessar a estrada na escapatória possível; qual a solução? Os carros batem? Um deles desvia-se e vai contra um edifício? Vai contra a criança?

Esta última questão foi levantada pelo executivo da Bosch, James Fish, que disse ser inclusive necessário resolver questões de ética para que os carros inteligentes sejam uma realidade. “Alguém tem de escrever o código que vai gerir essa tomada de decisão”.

“É fácil falar do futuro, mas é necessário preparar os passos para ir ao encontro a esse futuro. Só sendo bem-sucedido nesses passos é que será possível ser bem-sucedido no final”, considerou.