Podemos estar convencidos que apenas acontece aos outros e até aqui pode ter sido verdade. Mas quando temos jovens a dizer “o problema nem é ser agredido, o que me mata é saber que todos sabem”, este passa a ser um problema da sociedade. É algo que diz respeito a todos.

A frase foi dita por um jovem ao psicólogo educacional Luís Fernandes, um dos três autores do livro Cyberbullying: Um Guia Para Pais e Educadores que foi apresentado ontem. Mas não é o único caso.

“Ao Instituto de Apoio à Criança [IAC] chegam com muita regularidade situações de crianças que são vítimas de bullying e também muitas situações de crianças que são vítimas de cyberbullying. Esta é uma situação muito delicada porque as vítimas muitas vezes são perseguidas e não sabem quem é que as persegue. São humilhadas e não sabem por quem são humilhadas”, disse ao FUTURE BEHIND o secretário-geral da instituição, Manuel Coutinho.

“E não conseguem conter esta informação porque seja escrita, seja uma fotografia, uma vez na Internet é para sempre na Internet. Isto dificulta muitíssimo e faz com que as vítimas se sintam completamente entrincheiradas, desacreditadas e a precisarem de proteção e apoio”, acrescentou.

Muitos dos casos mais recentes de cyberbullying estão relacionados com a prática de sexting, isto é, a troca de mensagens de carácter erótico e sexual, mas que acabam expostas na Internet.

“Já tive casos de pessoas que tiveram de sair da zona onde residiam e ir para a casa de um familiar até a situação abrandar um pouco. Já recebi pedidos de ajuda e a ideia deste livro foi mesmo essa. Foi arranjar estratégias que fossem de alguma forma concertadas e que ajudassem quem nos pede ajuda a ter uma resposta”, contou ao FUTURE BEHIND o autor Luís Fernandes.

O livro foi escrito em conjunto com a também psicóloga educacional Sónia Seixas e por Tito de Morais, mais conhecido por ser o fundador do projeto Miúdos Seguros na .Net.

Manuel Coutinho, da IAC, marcou presença na apresentação do livro e destacou a necessidade de ser criada uma posição mais séria e pró-ativa sobre o tema.

“Nós devemos de uma vez por todas fazer a cultura da prevenção. É bom que se faça um trabalho de prevenção e que as pessoas percebam que a Internet bem usada é fundamental e que não é um lugar seguro. Tudo o que se põe na Internet é igual a tudo o que se expõe na praça mais movimentada da capital mais povoada do mundo. Por isso temos que ter muito cuidado pois na Internet não há segredos. Quem quer procura e quem procura encontra”.dia-nacional-cyberbullying

A 21 de abril celebra-se o Dia Nacional de Sensibilização para o cyberbullying

Estas três últimas frases dão que pensar. E não há fórmulas mágicas para resolver o problema. Se do lado das tecnológicas tem sido feito um esforço para disponibilizar ferramentas de controlo parental e denúncia de conteúdos abusivos, muito do trabalho tem de ser feito humanamente, através de sensibilização.

“Acho que a melhor forma de mitigar o bullying e o cyberbullying é a prevenção o mais precoce possível. É muito importante termos os miúdos informados. Muitas vezes eles apesar de serem nativos digitais não têm bem a noção principalmente do impacto que isso pode ter nas vítimas. O nosso trabalho passa muito por isso. Por ir às escolas sensibilizar”.

O IAC reforça esta ideia dizendo que apesar de o cyberbullying ser um crime e, como tal, deve ser punido, a verdade é que muitas pessoas que “praticam este crime nem sempre têm a noção que estão a exercer um mau uso e que estão a praticar um crime, pensam que é uma coisa menor”.



Se o tema do cyberbullying parece afetar mais as crianças e os jovens – apesar de haver ‘crescidos’ que também são vítimas desta prática -, parte do problema está também na incapacidade de resposta dos adultos perante os as situações mais delicadas.

“Os adultos não estão muito habituados a lidar com estas situações. Aliás o reflexo disso é nas redes sociais nós vermos os adultos a exporem-se de forma muito evidente e isso faz com que, de certo modo, não haja a ‘moral’ para estar a dizer para não o fazer no caso dos filhos. Nota-se de forma muito evidente a falta de preparação em lidar com estas situações”, salientou Luís Fernandes.

Não é preciso ir muito longe para perceber que a falta de ação dos adultos chega também ao campo tecnológico. Um estudo da empresa de cibersegurança Kaspersksy, publicado em novembro do ano passado, revelava que 20% dos pais diziam estar preocupados com a segurança dos filhos na Internet, mas nada faziam a esse respeito.

A mesma investigação concluiu que 76% dos progenitores inquiridos não usavam qualquer ferramenta de controlo parental. E o cyberbullying aparecia na sexta posição dos riscos que os pais mais temiam que os seus filhos corressem enquanto utilizadores de Internet.

Estes dados ajudam a comprovar um pouco do que aqui leu e do que foi dito na apresentação do livro Cyberbullying: Um Guia Para Pais e Educadores: esta é uma questão que pelo seu impacto, pelas suas consequências e pela forma como pode ser resolvida é também um problema da cidadania.

A Comissão Europeia quer dar um incentivo para que esta situação melhore e anunciou na semana passada novas medidas na área da privacidade online. Uma delas recomenda que os serviços online não possam recolher os dados de utilizadores com idades entre os 13 e os 16 anos, exceto se houver autorização dos pais.

Cada Estado-Membro tem depois liberdade para adaptar a diretiva europeia e definir a idade mínima para a recolha de dados online dentro do intervalo definido, mas na prática a decisão pode implicar que muitas das contas de adolescentes em redes sociais não sejam válidas.

Talvez daqui a dois anos as lutas já sejam outras e muito mais pacíficas:

“Oh pai, deixa-me criar uma conta no Instagram e no Snapchat”.




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