“O Facebook já não é divertido! Sinto falta dos bons velhos tempos!”.

O desabafo pertence a Joy Marcus Simon, uma utilizadora do Facebook. O comentário que Joy fez à publicação do fundador da rede social, Mark Zuckerberg, na qual o executivo promete melhorar a plataforma, é um bom exemplo da trajetória descendente que a rede social tem vivido nos últimos meses. Ironicamente, é o comentário que o próprio algoritmo do Facebook classifica como mais importante entre todos os que foram feitos.

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Sim, o Facebook continua a ser uma das plataformas mais usadas no mundo e continua a crescer em termos de receitas. A questão é que 2017 parece ter sido de alguma forma o ano que, não resultando num declínio efetivo do Facebook, mostrou pelo menos que essa é uma realidade que pode bater à porta a qualquer momento e que está mais próxima.

Há indicadores que apontam neste sentido: a tecnológica teve de justificar-se perante a opinião pública várias vezes, foi fortemente atacada em diferentes polémicas e o ‘estrondo’ destes casos foi tão grande que fez o seu próprio CEO acordar, descer do pedestal e decidir arregaçar as mangas para não perder o rumo à situação.

Se noutros anos Mark Zuckerberg definiu como resolução de ano novo objetivos pessoais como correr uma milha por dia, desenvolver um sistema de inteligência artificial para a sua casa, ler 25 livros, aprender mandarim ou visitar os 50 estados dos EUA, este ano a missão é muito mais importante: consertar a máquina gigante que ajudou a criar.

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“Comecei a fazer estes desafios em 2009. Nesse primeiro ano a economia estava numa recessão profunda e o Facebook ainda não gerava lucro. Precisávamos de seriedade para garantir que o Facebook tinha um modelo de negócio sustentável. Foi um ano sério e usei gravata todos os dias como uma lembrança. Hoje [4 de janeiro de 2018] parece muito esse primeiro ano”, começou por escrever Zuckerberg na sua página pessoal.

“O mundo parece estar inquieto e dividido, e o Facebook tem muito trabalho a fazer – seja a proteger a nossa comunidade de abusos e ódio, a defender contra a interferência de países ou a garantir que o tempo dos utilizadores no Facebook é bem passado. (…) Atualmente cometemos muitos erros ao fazer cumprir os nossos termos e a prevenir o mau uso das nossas ferramentas”, admitiu o CEO.

Parte da publicação de Mark Zuckerberg é um mea culpa – o Facebook cometeu de facto alguns erros grosseiros ao longo do ano.

Um ano para mais tarde recordar

Em fevereiro de 2017, Mark Zuckerberg publicou uma carta aberta de cinco mil palavras na qual falava dos desafios que a rede social enfrentava e nos objetivos que tinha para esse ano. Numa passagem dessa carta, Mark Zuckerberg reconheceu erros que o Facebook tinha cometido no passado: “Isto também tem sido doloroso para mim porque muitas vezes concordo com aqueles que nos criticam e dizem que estamos a cometer erros”.

O que parecia um discurso de mudança acabou por ser quase um discurso de preparação para o que aconteceria nos meses seguintes.

Um dos casos mais sérios e preocupantes que envolveram o Facebook em 2017 aconteceu em maio, quando documentos da subsidiária australiana da empresa revelaram que o Facebook preparou uma apresentação para anunciantes na qual mostrava conhecer tão bem os seus utilizadores que até era capaz de identificar adolescentes que se sentiam “inseguros” e “inúteis”.

A publicação The Australian, que denunciou o caso, escreveu ainda que esta perfilagem de utilizadores é feita com recurso a “dados internos do Facebook” que não estão disponíveis publicamente. Ainda assim, este é um péssimo exemplo de abordagem a um potencial cliente – a rede social quis mostrar que é poderosa ao ponto de conseguir perceber as fragilidades dos seus utilizadores.

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Numa primeira reação ao caso o Facebook pediu desculpa e disse que ia abrir uma investigação para perceber o que tinha falhado. “Vamos tomar processos disciplinares e outros que sejam apropriados”, referiu na altura a tecnológica. Numa segunda reação oficial, o Facebook considerava o artigo como “enganador”.

Depois 2017 foi o ano em que se adensou a teoria de que houve manipulação das redes sociais para ajudar o atual presidente dos EUA, Donald Trump, a vencer as eleições presidenciais. O próprio Mark Zuckerberg disse que esta era uma “ideia louca”, mas acabaria por arrepender-se das suas palavras e mais tarde acabou por fazer um pedido de desculpas.

O Facebook confirmou que perto de 3.000 anúncios, que alegadamente tiveram origem na Rússia, foram mostrados aos utilizadores da rede social nos meses precedentes às eleições presidenciais, o que terá influenciado em alguma medida os resultados finais.

Já em outubro Mark Zuckerberg pedia desculpa, de uma forma geral, pelos efeitos negativos causados pelo Facebook, como o facto de a plataforma ter potenciado a disseminação de informação falsa. Também em outubro o CEO pedia desculpa depois de ter feito uma demonstração da aplicação de realidade virtual do Facebook, na qual tentou promover o serviço através de um cenário de devastação em Porto Rico provocado por uma tempestade severa.

Mais à frente, ainda em outubro, novo pedido de desculpas do Facebook por ter traduzido mal a publicação de um utilizador palestiniano. O homem escreveu “bom dia” no Facebook, mas os sistemas automáticos traduziram a mensagem para “ataquem-nos” em hebraico e para “magoem-nos” em inglês – o indivíduo acabaria por ser detido em função do erro cometido pela rede social.

Ainda antes do ano terminar houve lugar para mais um pedido formal de desculpas. A publicação ProPublica mostrou que mesmo os moderadores humanos de conteúdos do Facebook cometem muitos erros – segundo os exemplos reunidos pela publicação, em quase metade dos casos. Publicações que claramente violavam os termos de utilização da plataforma passaram pelo crivo de uma equipa especial constituída por 7.500 funcionários.

“Pedimos desculpa pelos erros que cometemos – não refletem a comunidade que queremos ajudar a construir. Temos de fazer melhor”, referiu a propósito do caso o vice-presidente do Facebook, Justin Osofsky.

Houve mais pedidos públicos de desculpa, mas estes são suficientes para mostrar não só um número anormal de graves erros cometidos por uma empresa com a dimensão do Facebook, como mostram diferentes impactos que esses erros tiveram.

O que pode ser feito para melhorar?

“O meu desafio pessoal para 2018 é focar-me em corrigir estas questões importantes”, escreveu Zuckerberg sobre a sua resolução de ano novo, admitindo no entanto que será impossível prevenir todos os erros e abusos.

Na mesma publicação o diretor executivo da maior rede social do mundo deixou algumas pistas sobre aquilo que poderá mudar no futuro para a plataforma. Zuckerberg diz que uma das questões que mais o preocupa é a perda de confiança que as pessoas estão a ter nas tecnológicas fruto de uma forte centralização – e não só.

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“Muitas pessoas agora acreditam que a tecnologia apenas centraliza poder em vez de descentralizar”, salientou, para depois reconhecer que quando a internet foi criada e até o próprio Facebook, o objetivo é que o poder estivesse do lado das pessoas.

Mark Zuckerberg salientou depois duas tecnologias – criptografia e criptomoedas – que têm estado a impulsionar o conceito de descentralização. O executivo disse depois que está interessado em estudar aprofundadamente os aspetos negativos e positivos destas tecnologias para perceber como como pode usá-los para melhorar os serviços da tecnológica.

Nesta fase é imprudente arriscar previsões como ‘o Facebook vai criar uma criptomoeda’ ou ‘o Facebook vai criar a sua própria tecnologia de blockchain’. O Facebook pode simplesmente querer perceber os fundamentos tecnológicos destes sistemas para tentar melhorar o mais possível os seus produtos atuais.

O Facebook pode no entanto aproveitar de facto os benefícios de uma descentralização para trazer toda uma nova vida à rede social – basta olhar para o exemplo da Steemit, uma rede social baseada em blockchain que recompensa os utilizadores através de uma criptomoeda própria pelos conteúdos que produzem na plataforma.

Num tom jocoso, o The Washington Post escreveu que Mark Zuckerberg está, basicamente, a prometer fazer em 2018 o trabalho que em teoria já lhe compete. Mas a mensagem de Mark Zuckerberg parece concentrar em si uma ideia muito mais importante: o Facebook não está bem, começam a surgir soluções mais apelativas para os utilizadores e a empresa não é inabalável.

Um dia mais tarde, esta mensagem pode muito bem ser identificada como o reconhecimento do início do fim do Facebook, pelo menos tal como o conhecemos atualmente.

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