Por André Duarte, jornalista na AutoSport

O meu pai sempre gostou de carros. Eu sempre gostei do meu pai. Acabei a gostar de carros. Com ele tive a primeira sensação de aventura ao volante. Sentado, não me recorda a idade, entre as suas pernas que serviam de almofada, abraçava radiante o branco volante, mais redondo do que o meu tamanho permitia envolver, com as letras VW ao centro que podiam ser todas as coisas. Era um Carocha ao melhor estilo Subaru Impreza WRC – carroçaria azul, jantes amarelas. Ele era de 60, eu de 89, e continuo.

Foram as minhas primeiras descobertas ao volante, acompanhado pelo orgulho no olhar do meu pai, que de sorriso estampado (nem sei se seria exatamente assim…) me deixava crescer. Penso que a primeira vez fui eu que lhe pedi, mas tudo viaja, intermitente, na reminiscência da memória.

Nessa época, diga-se, eu propriamente não conduzia, tinha apenas a impressão pura de o fazer, de controlar o Carocha, quando na realidade era o meu pai que o guiava, eu só me divertia. Eu, o meu pai e 500 metros que me levavam até casa, em que eu me limitava a rodar o volante, feliz. Aquilo era conduzir, aquilo era um carro – volante, acelerador, travão, embraiagem, velocímetro, piscas, ruído, problemas e um rádio que não funcionava. O Mundo portanto!

Hoje já me passaram pelas mãos carros de cores, feitios, potências e finalidades muito diferentes. Já viro o volante em consciência, doseio o acelerador, sigo o meu caminho. Mas hoje também já tenho aquecimento com regulação nos bancos, recebo massagens, tenho teto panorâmico e descapotável. Hoje sento-me num carro e vejo-o estacionar, não sei onde é o travão de mão, o seletor das mudanças (quando há), a regulação para o banco.

Hoje preciso de 10 minutos para perceber o habitáculo, à procura da ligação Bluetooth, a ver os Driving Mode Selection e a escolher a luminosidade interior, que nos é dada em degradê, e que me põe indeciso. Hoje não ‘se saca travão de mão’, mete-se em ‘modo parque’, não há ‘esquecer os máximos ligados e levar com as luzes do de frente’, eles regulam-se automaticamente e adornam-se ao ângulo da curva. Hoje quero ver os consumos instantâneos, médios e das últimas 17 viagens. Franzo o sobrolho em surpresa ou desaprovação, aceno a cabeça com satisfação. Numa mesma viagem passo do modo Eco para o Comfort, vou ao Sport, dou um cheirinho com o Sport+, que de imediato tiro porque tive dois segundos de prazer a fazer 20l/100 km, regresso ao Eco, porque estou no trânsito, vou ao Comfort, porque está mau piso, meto no Eco, porque me enganei, volto ao Sport, porque dá jeito para aquela ultrapassagem, regresso ao Eco, porque diz Eco. Chego ao destino e fiz 2 km.

Hoje, como no Carocha, não faço uso da embraiagem, tenho dois pedais e o carro abranda sozinho, avisa-me se estou cansado e aconselha-me a tomar café, lembra-me que estou a transpor a faixa, que estou demasiado próximo do da frente e que estou a chegar-me ao do lado, que estou perto do lancil no estacionamento, que tenho a porta mal fechada e que alguém vai sem cinto. Hoje, como no tempo do Carocha, eu continuo ao volante, o Pai é que mudou.