Em 2007 o músico norte-americano Jack Conte tinha passado seis meses a trabalhar num álbum próprio chamado Nightmares and Daydreams. Na altura o MySpace era um dos locais preferenciais para a disseminação e rentabilização destes trabalhos, mas rapidamente Jack Conte descobriu que a rede social não era a sua praia.

As músicas do álbum estavam a ser reproduzidas apenas três vezes por dia, o que era desmoralizador também enquanto projeto de carácter criativo. Aficionado das novas tecnologias, o músico já conhecia e seguia a plataforma YouTube, que tinha sido adquirida pela Google no ano anterior.

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No YouTube alguns artistas, através dos seus vídeos, estavam a conseguir mais de 30 mil visualizações por criação. Jack Conte decidiu tentar a sua sorte na criação de vídeos específicos para a plataforma e rapidamente percebeu o seu potencial.

A visibilidade que tinha no YouTube traduzia-se em exposição que era depois convertida em vendas no iTunes. A própria plataforma de vídeos permitia-lhe gerar receitas através de publicidade e de parcerias comerciais.

Ao longo dos anos o YouTube começou a ficar repleto de criadores, as receitas da venda de música digital caíram abruptamente por causa dos serviços de streaming e Jack Conte viu as suas receitas – que no melhor dos anos chegaram perto dos 400 mil dólares – baixarem de forma significativa.

Chegou à conclusão de que não existia uma forma consistente de rentabilizar as suas criações artísticas e na qual os seus verdadeiros fãs pudessem contribuir. Em maio de 2013, juntamente com o amigo de faculdade Sam Yam, Jack Conte decide criar o Patreon.

O Patreon é uma plataforma online de subscrições que tem como principal objetivo simplificar a forma como os artistas e os criadores são pagos pelo seu trabalho. Na prática o Patreon mistura os conceitos de financiamento colaborativo e subscrição: as pessoas podem apoiar mensalmente os seus projetos preferidos e em troca vão receber recompensas, recompensas essas que melhoram quanto maior for o apoio.

Mas ao contrário do que acontece numa iniciativa de crowdfunding – na qual um único projeto tenta angariar uma grande quantia de dinheiro de uma única vez -, a ideia é que no Patreon os criadores sejam recompensados regularmente, em quantias mais pequenas, pelo seu trabalho.

Este foi o vídeo publicado por Jack Conte em maio de 2013 e que deu início ao fenómeno do patronato digital.

Sucesso instantâneo

“É óbvio que monetizar através de anúncios não é a melhor maneira de fazer dinheiro nos media digitais. Os anúncios não refletem quanto a tua audiência se preocupa contigo. As receitas publicitárias não refletem a força de uma comunidade ou de uma base de fãs”, disse o vice-presidente de operações do Patreon, Tyler Palmes, numa entrevista à Wired em 2014.

Aparentemente Jack Conte não estava sozinho na ideia de que as plataformas como o YouTube não estavam a rentabilizar o total potencial de alguns artistas. Passado um ano desde o lançamento do Patreon, a plataforma já era responsável por gerar 1,5 milhões de dólares em receita para 18 mil criadores.

Nos anos seguintes o Patreon tornou-se num caso sério de sucesso: até ao final de 2016 a plataforma gerou 100 milhões de dólares para os seus artistas e, de acordo com as perspetivas da empresa, em 2017 vai gerar 150 milhões de dólares para os utilizadores da sua plataforma. Ou seja, nos últimos meses o Patreon já gerou mais dinheiro do que no resto da sua curta vida enquanto empresa.

Atualmente são 50 mil os artistas e criadores que tiram proveito do Patreon, ao passo que existem um milhão de patronos [nome dado aos apoiantes dos projetos]. A popularidade da plataforma esteve acima de tudo centrada nos EUA, mas nos últimos meses e devido ao seu maior reconhecimento internacional, criadores de todo o mundo estão a apostar na plataforma como método de rentabilização.

Portugal também já tem os seus exemplos. Um dos mais conhecidos é talvez o artista de variedades Rui Unas que usa a plataforma Patreon como uma forma de suportar o seu projeto digital Maluco Beleza. Outro é a publicação 4GNews que aposta no serviço como uma fonte extra de monetização. O FUTURE BEHIND também lançou recentemente a sua campanha no Patreon.

Patreon Rui Unas

Imagem da página do podcast Maluco Beleza no Patreon.

Músicos, youtubers, jornalistas, programadores, cartonistas, gamers, humoristas, podcasters, documentaristas e fotógrafos. Estes são apenas alguns exemplos de classes profissionais que estão representados no Patreon. Atualmente existem mais de 30 projetos que numa base anual conseguem garantir receitas superiores a 150 mil dólares. A contribuição média por patrono ronda os 12 dólares.

Um negócio para todos

Enquanto plataforma que facilita a monetização de projetos criativos, o Patreon é seguramente um sucesso para centenas de criadores em todo o mundo. Acontece que ao mesmo tempo que ajuda os criadores a rentabilizarem os seus trabalhos, o Patreon é uma empresa por si só.

O modelo de negócio é simples: a plataforma fica com 5% do valor que é doado aos criadores. Olhando para os números atuais da plataforma e para a sua taxa de crescimento, não surpreende por isso que o Patreon esteja avaliado em 450 milhões de dólares enquanto empresa. No início do mês de setembro a startup fundada por Jack Conte e Sam Yam fechou mais uma ronda de financiamento na casa dos 60 milhões de dólares.

Os 5% de comissão do Patreon ganham outra dimensão se considerar que gigantes como o YouTube e o Facebook apenas partilham com os seus parceiros metade das receitas geradas através de publicidade.

Com o dinheiro que tem recebido o Patreon começou a crescer. Em junho deste ano foi lançada a aplicação Patreon Lenses, um clone do Snapchat criado para ligar ainda mais os criadores e as suas audiências. O objetivo deste serviço é não só criar mais um canal de conteúdo exclusivo que pode ser rentabilizado, como também aumentar o portfólio de soluções que o Patreon disponibiliza aos seus utilizadores.

Outra novidade é o Patreon Membership Engine, um software de gestão de dados que permite aos criadores terem um registo dos seus patronos, registo esse que pode ser valioso na forma como a relação do artistas com os patronos vai evoluindo ao longo dos meses.

Nesta ideia de negócio para todos, também há um lado negativo no Patreon, um pouco como acontece com todas as soluções tecnológicas. A plataforma já foi utilizada por algumas figuras polémicas, alegados apoiantes de ideologias extremistas, que usavam o Patreon como um meio para espalhar ainda mais a sua ideologia, recebendo apoio financeiro em troca. Recentemente vários utilizadores foram banidos, mas este é um exemplo de como o seu sistema de financiamento tanto resulta para o bem como para o mal.

Como funciona

A simplicidade é de facto um dos pontos fortes do Patreon. Quem quiser tornar-se num patrono apenas precisa de ir até ao site, registar-se [pode ser feito através da conta de Facebook] e escolher os criadores que quer apoiar.

Esta é a parte no qual o Patreon ainda tem muito por onde evoluir. A descoberta de novos criadores não é propriamente fácil na plataforma. Apesar de ter um sistema integrado de pesquisa, a informação que apresenta sobre cada um dos projetos não é muito esclarecedora. A aplicação de alguns algoritmos de descoberta e recomendação, ao estilo do Spotify e do Netflix, seria algo bem-vindo.

Depois de encontrar o projeto que pretende apoiar, o utilizador só precisa de selecionar ‘Become a Patron’. De seguida vai ser questionado sobre o valor da subscrição com a qual pretende contribuir e quais as recompensas que pretende receber. No final é só pagar com um cartão de crédito ou com o PayPal.

Patreon Future Behind

Passo 1: Selecionar a opção ‘Become a Patron’

Patreon Future Behind

Passo 2: Selecionar a modalidade de apoio pretendida.

Passo 3: Finalizar a subscrição com o método de pagamento preferido.

Dependendo do projeto que está a apoiar, o valor da subscrição pode ser mensal ou o valor pode ser descontado sempre que é publicado um novo conteúdo – como um vídeo, por exemplo. Os patronos podem ainda dizer qual o limite de contribuição que querem disponibilizar para cada um dos projetos, para evitar que uma subscrição que devia ser pontual acaba por tornar-se mais custosa apenas por esquecimento.

Nesta fase o Patreon ainda só suporta pagamentos em dólares, pelo que é necessário ter em conta qual o valor corresponde para a sua moeda nacional.

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