Em 2015 ficou célebre a frase de Jerry Nixon, um funcionário da Microsoft e evangelista do sistema operativo Windows. “Agora estamos a lançar o Windows 10 e porque o Windows 10 é a última versão do Windows, ainda estamos a trabalhar no Windows 10”. A frase rapidamente passou para um condensado soundbite de que o Windows 10 seria o último dos Windows.

Eis-nos passados dois anos a escrever sobre uma nova versão do Windows que a Microsoft anunciou. Chama-se Windows 10 S e aparentemente o Windows 10 per se não foi mesmo a última versão do sistema operativo. Sim, ainda está tudo concentrado à volta do mesmo ecossistema, do mesmo design e da mesma filosofia, mas a Microsoft voltou a partir o seu software principal.




Além da versão Windows 10 Home – aquela que está destinada à esmagadora maioria dos computadores – e do Windows 10 Pro – dedicada para empresas e que tem funcionalidades específicas para o segmento empresarial -, agora é necessário considerar uma terceira versão.

O novo Windows chama-se Windows 10 S e segundo o posicionamento revelado pela Microsoft é um software desenvolvido tendo em conta o segmento da educação. Ou seja, este novo Windows foi criado para que um novo grupo de computadores, mais acessíveis e mais rápidos, possa chegar ao mercado a tempo do regresso às aulas.

Acontece que a partir do momento em que um computador com Windows 10 S estiver num retalhista ao lado de outros computadores, não vai ser considerado apenas por estudantes ou professores. Se esse computador for barato, bonito ou apresentar uma boa relação qualidade-preço, vai certamente ser considerado por todos os consumidores que estejam à procura de um novo computador Windows.

Hoje a Microsoft explicou que tanto será possível encontrar o Windows 10 S em computadores de 300 euros, como em computadores premium e que vão custar acima dos mil euros.

Windows 10 S

O novo equipamento da Microsoft, o Surface Laptop, vem equipado de origem com o Windows 10 S. #Crédito: Microsoft

É por este motivo que é importante perceber o que é afinal o Windows 10 S. De forma resumida, podemos dizer que é o Windows que todos conhecemos, mas que apenas é compatível com as aplicações que estão disponíveis na loja oficial do ecossistema da Microsoft.

O Windows de sempre, mas com limitações

“O Windows já é uma escolha bastante popular junto de estudantes, professores e escolas”, começou por dizer o líder da divisão Windows da Microsoft, Terry Myerson, durante o evento de apresentação. “Estamos a assumir uma nova abordagem: simplificar, para amplificar”, acrescentou.

A frase foi o mote de lançamento para a introdução daquelas que são as características que distinguem o Windows 10 S das outras duas principais versões do Windows que já existem para computadores – há depois versões mais específicas, como a que existe para módulos de Internet das Coisas ou até o Windows 10 para Raspberry Pi.

O factor principal que deve saber sobre o Windows 10 S é que este sistema operativo só é compatível com as aplicações que estão disponíveis na loja do Windows. Por exemplo, o Netflix tem uma aplicação nativa para Windows 10, mas o Spotify não [só chega no verão]. O Instagram tem uma aplicação nativa para Windows 10, o Pinterest não.

Não é à toa que começamos por falar apenas de serviços que também têm uma versão web disponível. Isto porque nesse caso em vez de usar as aplicações oficiais, pode usar as versões que estão disponíveis através de websites, o Windows 10 S não é limitador nesse sentido.

Por outro lado, se costuma utilizar o Google Chrome como navegador de internet saiba que, por agora, não vai ter acesso ao browser nos dispositivos Windows 10 S. Isto porque o navegador da Google só está disponível através de um instalador externo e não existe dentro da loja oficial do Windows 10. Quem diz o Google Chrome também diz o Firefox e o Opera. TOR browser? Pode esquecer.

A Microsoft diz que ao limitar o Windows 10 S às aplicações que só existem dentro da loja, está ao mesmo tempo a criar segurança para esses computadores e também a melhor compatibilidade. A tecnológica vai garantir que todas as aplicações que estão disponíveis na Windows Store não prejudicam de alguma forma o desempenho do Windows 10 S pois na prática são todas apps pré-validadas e verificadas. É quase como se tivessem um selo de qualidade dado pela Microsoft.

Windows 10 S

O Windows 10 S é em quase tudo semelhante às outras versões do Windows para computadores. #Crédito: Microsoft

Outro exemplo para perceber os limites deste sistema operativo. Não poderá instalar jogos do Steam, visto que o Steam só está disponível através de um programa próprio, programa esse que não está acessível na loja da Microsoft.

Quer isto dizer que o novo Windows 10 S não vai suportar jogos? Vai. Vai suportar todos os jogos que o hardware permitir, desde que esses jogos estejam acessíveis na loja do Windows. Desde que foi iniciado o programa Xbox Play Anywhere que há muitos bons títulos na Windows Store, mas simplesmente não apresenta a mesma oferta de um mercado como o Steam.

Estamos a repetir várias vezes a ideia da compatibilidade pois é importante que ela fique bem esclarecida. Pois se por um lado pode não parecer limitador, noutras perspetivas pode parecer bem limitador. Tudo dependerá do perfil de utilização.

Outros programas populares que não são compatíveis com o Windows 10 S são as aplicações de produtividade da Adobe – Photoshop, Premiere, After Effects -, muitos antivírus, alguns gestores de passwords e mais ferramentas que dependendo do perfil do utilizador podem ser dadas como adquiridas – Thunderbird, Trello, Filezilla, etc, etc.

A Microsoft tenta suavizar a falta de compatibilidade com programas fora da Windows Store com um truque inteligente. Imaginando que o utilizador tenta instalar o Photoshop tradicional num computador com Windows 10 S – o sistema operativo vai abrir uma janela pop-up a dizer que aquele programa não é suportado e vai recomendar uma aplicação semelhante que está disponível na Windows Store. Neste caso seria o Photoshop Express. Os programas estão longe de ser iguais, sobretudo na quantidade de funcionalidades e ferramentas que disponibilizam, mas sempre pode ser uma ajuda em horas de maior necessidade.

Caso o utilizador acabe por sentir mesmo a falta de programas instalados através de executáveis externos à loja do Windows, pode sempre optar por atualizar para o Windows 10 Pro – um upgrade que deverá custar perto de 50 euros.

Apesar destas ressalvas, não conseguimos deixar de pensar que as limitações em termos de aplicações foi um dos grandes motivos para o insucesso do Windows RT e do Surface RT. Desta vez a estratégia parece ser distinta, mas nada indica que o desfecho final venha a ser diferente.

Que mais diferenças existem?

O Windows 10 S tem também um sistema de autenticação mais rápido do que o dos computadores Windows tradicionais – pode ser até 15 segundos mais veloz, sobretudo em computadores que têm diferentes perfis de utilizadores e cujos perfis têm uma grande variedade de programas instalados.

Esta não é uma funcionalidade tão crítica quanto a questão da compatibilidade. Ainda assim a Microsoft salientou que no seu ponto de vista será uma mais-valia para os estudantes, pois vai permitir-lhes uma maior velocidade de acesso aos seus dados durante as aulas.

Uma outra características interessante que o Windows 10 S tem é um sistema de instalação rápido. Imaginando que uma escola compra 30 computadores Windows 10 S para uma turma, não precisa de configurar manualmente um a um. Graças a uma nova ferramenta desenvolvida pela tecnológica norte-americana, basta configurar um computador, passar essa informação para uma pen USB e ligar essa pen aos outros computadores quando estão na fase de configuração para que as definições iniciais sejam iguais em todas as máquinas.

Windows 10 S

O Windows 10 S está pensado em primeiro lugar para as escolas. Mas isso não significa que não acabe por ser apelativo para outros consumidores e outros perfis de utilização. #Crédito: Microsoft

A Microsoft disse que numa escola nos EUA foram configurados 600 computadores, usando 30 pens USB, em apenas um dia. Esta é outra funcionalidade que está muito segmentada para o mercado da educação – o verdadeiro intuito do Windows 10 S – e não para o utilizador comum.

De resto a Microsoft garante que o Windows 10 S é o Windows que todos conhecem e provavelmente já usam. Também está garantida a compatibilidade com todos os periféricos do ecossistema, incluindo os óculos de realidade virtual que vão ser lançados ao longo de 2017.

O Windows 10 S será indicado para mim?

No final tudo se resume a esta questão. O Windows 10 S é indicado para estudantes. Ponto. A Microsoft quis deixar isto bem claro. Pensando num ambiente escolar e de aprendizagem, talvez as aplicações que existem na Windows Store sejam mais do que suficientes.

Mas alguém pode estudar no 10º ano, ser um youtuber e necessitar de programas avançados de edição de vídeos. Neste caso então o Windows 10 S já não seria indicado.

Na prática o utilizador terá de perceber qual a utilização que vai dar ao PC. Os chamados utilizadores avançados provavelmente vão querer a versão Windows 10 Home ou o Windows 10 Pro, aquelas que permitem executar aplicações nativas e programas externos. Os utilizadores que apenas usam o computador para funcionalidades mais básicas muito provavelmente vão conseguir sobreviver bem só com o Windows 10 S.

Isto é o que escrevemos agora. Nos próximos meses o cenário pode mudar consideravelmente se mais empresas e programadores tornarem os seus programas tradicionais compatíveis com a Windows Store. Se o número de apps nativas crescer, então aí os casos em que o Windows 10 S pode ser um sistema operativo suficiente também vão aumentar. A Microsoft tem apostado no conceito de aplicações universais – apps que funcionam em qualquer dispositivo Windows 10, incluindo na Xbox One S e nos smartphones Windows 10 Mobile – e este pode ser mais um passo no reforço dessa estratégia.

Em último recurso há sempre a hipótese de dar o salto para o Windows 10 Pro por mais 50 euros – mas atenção, depois de atualizar, nunca mais vai poder regredir para o Windows 10 S.

Os primeiros computadores com a nova versão do sistema operativo só deverão ficar disponíveis no verão pelo que ainda tem alguns meses para considerar os investimentos que pretende fazer nesta área.

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