A Gamescom é uma coisa do outro mundo. É o maior evento de videojogos da Europa, com 345 mil visitantes [segundo números oficiais] e seis pavilhões enormes abertos ao público além de outros três dedicados à indústria. Neste cenário, as marcas batalham-se para conseguir o maior destaque e atrair as atenções dos consumidores, levando-os a fazer filas de várias horas para experimentar um novo jogo, assistir a um vídeo de apresentação ou até mesmo para obter um código de download para um pokémon raro.

Normalmente, o maior chamariz das marcas consiste em oferecer brindes e tentar lucrar o máximo possível com isso, muitas vezes tratando os jogadores como idiotas. Não faltaram giveaways ridículos onde alguém atirava um brinde ao ar para quem o conseguisse apanhar, ou que pedissem para fazer uma fila para tirar uma foto numa pose idiota com acessórios na cabeça, partilhar nas redes sociais e em troca receber um brinde de utilidade duvidosa. Para muito publicitário, uma feira de videojogos funciona como um festival de verão e a adesão dos participantes parece comprová-lo. Por exemplo, uma marca decidiu oferecer sacos de papel em tamanho A2 com o logótipo do jogo estampado. Sacos vazios, diga-se, e nada convenientes para um espaço cheio de gente, mas que mesmo assim várias centenas de pessoas não se importavam de transportar: cartazes ambulantes, grátis!

Nada disto é surpreendente num evento de consumo desta dimensão. Se ainda podemos considerar a crítica aos festivais de música por estarem demasiado focados nas marcas e nos brindes, pelo menos aqui são marcas ligadas aos videojogos numa feira de videojogos – é claro que os fãs vão querer brindes! Felizmente, a maioria das grandes marcas optou por uma abordagem mais interessante. Em vez de tratar os visitantes como idiotas, recompensavam-nos com um brinde alusivo ao jogo que tinham ido experimentar, como que uma espécie de souvenir. Algumas até tinham um sistema de missões, premiando quem experimentasse todos os jogos do stand. Há aqui uma simbiose interessante, já que alguém que tenha ficado horas numa fila para jogar o Final Fantasy XV ganha o direito de ‘fazer inveja’ a quem não jogou, envergando uma t-shirt do jogo e criando assim mais interesse em quem ainda não jogou.

Legion Café | Foto: www.meusjogos.pt

Legion Café | Foto: www.meusjogos.pt

Um evento destes não serve apenas para mostrar novidades e distribuir brindes. É uma oportunidade única de criar um elo especial com os fãs e retribuir-lhes toda a dedicação. Se há empresa que sabe disto é a Blizzard, que nesta Gamescom criou um espaço de sonho para os seus fãs. O stand era um dos maiores do evento, sendo por isso bastante amplo, mas ao mesmo tempo acolhedor. Um corredor principal era ladeado pelas arenas de jogo com centenas de PCs agrupados por jogo em demonstração. Em cada uma destas arenas, enormes estátuas dos personagens davam a oportunidade de tirar fotos ou simplesmente apreciar a arte dos jogos. Ao fundo, um palco com ecrã gigante era o centro das atenções, com uma agenda preenchida de atividades que incluíram um concurso de cosplay, a estreia de uma curta-metragem de animação do Overwatch e um concerto do Video Games Live com temas da Blizzard.

Havia uma diferença notória na forma como os fãs da Blizzard se sentiam acolhidos pela marca, em comparação com as restantes. O lançamento de uma nova expansão para o World of Warcraft, Legion, proporcionou a abertura do Legion Café na cidade de Colónia, durante os dias do evento. Um espaço inteiro dedicado aos fãs, com decoração temática e um menu inspirado no jogo, tornou por momentos a fantasia de muitos fãs em realidade. No palco montado dentro do café, passaram vídeos de jogabilidade, fizeram-se quizzes e subiu uma banda metal a tocar versões das músicas do jogo. Não sendo um fã ou jogador assíduo dos produtos da marca, senti-me contagiado pela alegria dos fãs durante as suas atividades e a querer fazer parte do que estava a acontecer.

Não há dúvida que estas ações tenham um retorno imenso, graças a toda a publicidade que delas advém. Não podemos cair na tentação de achar que uma empresa se vai prejudicar para agradar aos fãs, mas sem dúvida que a Blizzard sabe como retribuir a paixão e a dedicação. Não foi o único caso, às vezes estas coisas estão nos detalhes. No stand da Xbox, tive a oportunidade de jogar o ReCore na presença de um dos programadores, algo que normalmente só acontece para a imprensa no backstage, na Business Area da Gamescom. No stand da Nintendo, dedicado ao público alemão, vários youtubers locais foram entrevistados e os criadores de Pokémon apresentaram uma nova criatura. Nos lugares sentados em frente ao mesmo, havia carregadores de bateria para a Nintendo 3DS. Coisas simples, mas que fazem a diferença mesmo num stand mais modesto como este.

Há uma diferença entre atenção e envolvimento, e está na altura das grandes marcas se preocuparem menos com a primeira e mais com o segundo.



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