Super Mario Run atingiu o impressionante valor de 40 milhões de downloads em apenas 4 dias, segundo números avançados pela Nintendo. Além disso, encontra-se no top 10 de apps mais rentáveis em mais de 100 países. Um grande sucesso, certo? Errado. É uma aplicação da Nintendo e, como não podia deixar de ser desde os anos 90, a Nintendo está condenada. E tudo por uma simples razão: o jogo custa dinheiro.

Se há coisa que me incomoda nos jogos ‘mobile’ é a promoção da ideia que os videojogos são uma forma de entretenimento descartável e, por isso mesmo, gratuita. Para os rentabilizar, os criadores recorrem a mecanismos diversos, desde anúncios a aparecer em toda a parte, a mecânicas de ‘cooldown’ que obrigam o jogador a esperar X horas a não ser que pague para jogar imediatamente. Imaginem um jogo do Super Mario onde teriam um número contado de saltos possíveis antes do herói precisar de ‘descansar’ – descanso imediato por apenas 0,99€! O sonho de qualquer investidor.

Em vez de extorquir dinheiro aos consumidores que queiram jogar continuamente, ou vender pacotes de vidas ou power-ups, a Nintendo optou por um modelo que está a causar bastante controvérsia. O jogo pode ser descarregado gratuitamente e permite jogar os três primeiros níveis, além do modo de corridas e a personalização do Reino Cogumelo. Para desbloquear os restantes níveis, a Nintendo está a pedir um pagamento único no valor de 9,99€ e com a garantia de que depois não será cobrado qualquer valor adicional. A intenção era boa, conseguir uma boa rentabilidade no mercado móvel sem recorrer a práticas que são vistas como anti-consumidor. Já a comunicação não foi a melhor e muitos jogadores estão a ser surpreendidos com o pagamento em questão.

De repente, é uma calamidade nos media. Jogadores ultrajados por se ter de pagar dão reviews de 1 estrela, investidores vendem as ações e a imprensa fica entretida com manchetes sobre a desgraça da Nintendo. Mas será mesmo uma desgraça? Poderá discutir-se se o preço é ou não muito elevado para o conteúdo que oferece, mas o que está em causa é mesmo o princípio de se pagar por um videojogo. Se a Nintendo tivesse optado por um modelo gratuito com microtransações, não seria mais difícil depois vender um novo jogo do Super Mario para a Nintendo Switch?

A questão está mesmo em pagar ou não pagar. Mesmo os jogos mais rentáveis, como por exemplo o Pokémon GO, estão cheios de utilizadores que nunca gastaram um tostão, sendo que os que gastam acabam por compensar bastante o investimento. Para a maioria das pessoas, o Pokémon GO é gratuito, pelo que os outros jogos também devem ser. Isto contribui para a desvalorização dos videojogos em geral na mentalidade dos utilizadores e é um dos fatores principais por trás da insatisfação registada nas reviews da App Store um pouco por todo o mundo. É uma mentalidade perigosa e que está a ensombrar o lançamento da app que bateu os recordes da loja de aplicações da Apple.

Não é que o Super Mario Run seja perfeito. A impossibilidade de o jogar offline é um grande inconveniente e, por muito bem adaptado que esteja à jogabilidade de um smartphone, não é um jogo de plataformas tão interessante como os tradicionais. Ainda assim é muito divertido e tem imenso replay value, ou seja, pode ser jogado muitas vezes sem se tornar enfadonho. O preço parece o adequado tendo em conta o conteúdo e não o dispositivo. Se queremos ter jogos de qualidade nos telemóveis, é melhor nos habituarmos a pagar por eles.