Ontem foi dia de muitas novidades no reino do Facebook. Hoje é dia de digeri-las. Apesar de ter mostrado quais os seus planos para os próximos dez anos – e acredite, o Facebook vai ser tudo menos uma rede social -, a grande novidade no imediato acaba por ser o Facebook Messenger.

A plataforma de mensagens instantâneas da tecnológica norte-americana atingiu há pouco tempo 900 milhões de utilizadores ativos. Agora que a ‘massa crítica’ está criada, o Facebook quer dar o passo seguinte e transformar o Messenger numa plataforma de comunicação, interação e de inteligência.

Desta forma será possível falar com empresas e serviços sem ter de abrir sites ou outras aplicações. Mas não só. O Messenger promete tornar-se também muito mais divertido.

Agora começa a fazer finalmente sentido o porquê de o Facebook ter obrigado os utilizadores a descarregarem a aplicação do Messenger à parte quando o serviço já estava integrado na rede social. Na altura a empresa liderada por Mark Zuckerberg estava a preparar o que pode não ser só o futuro do serviço, mas como o início de uma nova etapa nas novas tecnologias.

“Talvez. Talvez hoje seja o primeiro dia de uma nova era”, disse o vice-presidente para o desenvolvimento do Messenger, Marcus Pincus, durante a abertura do evento mundial de programadores do Facebook, o F8.

Explicamos-lhe o que aí vem e o que pode esperar do Messenger.

Pequenos ‘ambrósios’

Os bots são sistemas de inteligência artificial (AI na sigla em inglês) que têm capacidade para interagir com os humanos de forma automática e contextualizada. O Facebook criou uma plataforma de desenvolvimento tendo por base parte da sua tecnologia de AI e abriu-a para os programadores.

Quem é programador vai poder criar pequenos ‘mordomos’ que o utilizador vai ter dentro do Messenger. Cada bot terá a sua própria janela de conversação, como se estivesse a falar com um amigo ou antigo colega de trabalho.

Durante a F8 o Facebook deu alguns exemplos de bots que vão existir e de como será possível interagir com eles.

Por exemplo, o meio de comunicação norte-americano CNN vai ter um bot que dará às pessoas a informação que procuram. Abra o Messenger, procure a conversa com a CNN, diga que quer saber as últimas notícias e ele apresenta-lhas.

Comprar flores? Check. Abra o bot da sua florista, diga o que pretende, ela vai sugerir-lhe alguns arranjos pré-feitos e se gostar de um basta encomendar e dizer onde deve ser feita a entrega.

A Send/Receive API é o que dá poder a toda esta nova forma de interação. Os programadores interessados podem encontrar mais novidades na página oficial de programadores para o Messenger.

Para quem preferir ferramentas mais avançadas do ponto de vista da inteligência artificial o Facebook terá o Bot Engine, uma plataforma de desenvolvimento muito mais poderosa e que tem como um dos extras a possibilidade de aprender consoante for mais usado.

Manter a experiência de utilização a um bom nível

Marcus Pincus disse que o Facebook ia rever todos os bots criados, não só para evitar utilizações abusivas, mas também para garantir que a experiência de utilização implementada não estraga o conceito geral de conversação com robôs.

Além disso, todos os ‘ambrósios’ vão estar identificados com uma imagem e uma pequena descrição. Os bots serão capazes de enviar e receber texto, mensagens e botões de ação, o que coloca aqui algum grau de flexibilidade na relação entre utilizador e máquina.

“Pensamos que a combinação entre o interface de utilizador e a conversação é o que vai por este ecossistema a funcionar”, salientou Marcus Pincus.

Apesar do grande objetivo do Facebook é chamar as empresas para esta nova realidade e colocá-las a interagir com os clientes na sua plataforma, nem todos os bots precisrão de ter um fim tão profissional.
Outro exemplo apresentado: Poncho, o gato do tempo. Através deste bot os utilizadores vão poder saber qual o estado do tempo para o dia e ao longo da semana. A diferença está na forma como será apresentada a informação: mais informal e com sentido de humor.

Outro aspeto importante a considerar nesta nova iniciativa do Facebook é que a empresa abriu a porta aos robôs de inteligência artificial, mas deu a chave aos utilizadores para que possam fechá-la quando assim bem entenderem. Existem definições próprias para o bloqueio de bots para o caso de haver uma utilização abusiva do seu principio.



Hey Poncho

Alguns destes bots estão disponíveis desde ontem e por isso decidimos falar com Poncho, o gato do tempo. Na imagem abaixo pode ver parte da conversa, mas durante o minuto em que trocamos algumas impressões percebemos detalhes que podem ser importantes.

Número 1: têm limitações. Estes bots não são como outros já usados em experiências sociais e que parecem ter resposta para tudo. No caso do Poncho tudo o que dissemos além do tempo não gerou um feedback interativo. Por um lado isto faz sentido que é para manter os bots como peças de software focadas.

Número 2: o idioma. Os sistemas de inteligência artificial que têm sido desenvolvidos pelas grandes tecnológicas funcionam melhor com o inglês do que com qualquer outra língua. No caso dos bots do Facebook será possível criar bots portugueses, alemães ou japoneses. Mas como os norte-americanos por norma são os primeiros utilizadores das suas próprias inovações é possível que nas primeiras semanas só encontre robôs que falem em inglês.

Número 3: velocidade. Das apresentações feitas e do que foi possível perceber aqui com o Poncho, estes sistemas de AI são rápidos a avaliar as respostas dos utilizadores e a preparar uma interação condizente. É justamente isto que as pessoas vão procurar: rapidez, comodidade e também um quê de surpresa.

Como encontrar estes mordomos

O Facebook preparou a ‘papinha’ toda para que os bots possam tornar-se conhecidos e possam ser usados. Será possível integrar pequenos plugins dentro de sites e aplicações que encaminharão o utilizador para o bot de uma empresa, iniciando assim uma conversação.

A barra de pesquisa do Facebook Messenger também vai daqui em diante permitir encontrar bots, que estarão listados à parte das pessoas para que não haja qualquer confusão nos resultados da pesquisa.

Por fim Marcus Pincus anunciou ainda que o Facebook vai criar uma categoria especial de anúncios para o News Feed que permitirá às empresas e aos programadores patrocinarem os seus bots para que sejam vistos por mais pessoas e em última instância, mais utilizados.

Se tudo o que leu aqui parece-lhe familiar – apesar de ser inovador – não é de estranhar. A Microsoft anunciou uma iniciativa semelhante no final de março. Na visão da empresa responsável pelo Windows a ideia é que estes bots sejam integrados também em sites e em várias plataformas de comunicação e não apenas no proprietário Skype.

Daqui podemos ter duas certezas: está encontrado o próximo grande campo de batalha entre as tecnológicas e daqui para a frente quando vir alguém a falar no Messenger ou no Skype, já não terá a certeza se essa pessoa está a falar com outra pessoa ou com um robô.

Bem-vindo a 2016.