Não foi a Apple, a Google, a Samsung ou a LG que definiram o que é o relógio inteligente da era moderna. Se esse título pode ser atribuído a alguém, então deve ser a Pebble a ficar com ele. Foi o sucesso da Pebble que chamou a atenção dos grandes da indústria para a potencialidade de um novo segmento de consumo eletrónico.

Os relógios da Pebble eram simples, pragmáticos e tinham em atenção pormenores muito importantes que os restantes fabricantes parecem ainda não ter endereçado da melhor forma. Três exemplos: ecrã e-ink que garante excelentes condições de visibilidade em qualquer condição, autonomia para uma semana e resistência à água. Tudo isto desde o primeiro dia.




Ou seja, a Pebble fez os relógios adaptarem-se às necessidades atuais dos utilizadores e não os utilizadores adaptarem-se aos relógios.

Esta semana chegou a confirmação de que a Pebble vai deixar de produzir relógios inteligentes. Na prática a Pebble vai deixar de existir. Parte da empresa foi comprada pela Fitbit, um dos nomes grandes na indústria dos wearables.

Abrir a timeline do Twitter da Pebble é ver uma história de amor e dedicação entre marca e os utilizadores. Este estatuto que a Pebble conseguiu foi graças a três grandiosas campanhas de financiamento colaborativo no Kickstarter. E pelo que a Pebble conseguiu no Kickstarter, mostrou ser uma das empresas mais inteligentes dos últimos tempos.

Deixar o produto falar por si

No dia 11 de abril de 2012 surgia na plataforma Kickstarter um projeto chamado Pebble e definia-se como um “relógio E-Paper para iPhone e Android”. “O Pebble é o primeiro relógio construído para o século XXI”, lia-se na descrição do projeto um pouco mais abaixo.

A promessa de um produto minimalista que podia ajudar as pessoas a gerirem melhor a sua vida digital foi argumento suficiente para criar um verdadeiro sucesso. Durante a campanha de 37 dias a Pebble – uma empresa totalmente desconhecida para o mundo – conseguia uns impressionantes 10.266.845 dólares de financiamento.

Tornou-se à data no mais bem sucedido projeto de financiamento colaborativo alguma vez criado.

O relógio Pebble esteve três anos em desenvolvimento antes de chegar ao Kickstarter

Na prática isto significa que a Pebble apenas precisou de criar o conceito e desenvolver o produto, que a proposta diferenciadora do mesmo fez com que os utilizadores suportassem o restante desenvolvimento e custos de produção do equipamento.

Esta é uma das vantagens do crowdfunding: as empresas conseguem amortizar os custos de produção ao fazer pré-vendas dos seus produtos. São muitos os casos de produtos financiados que nunca chegaram a ver a luz do dia e que assombram as plataformas de crowdfunding. Mas sempre que havia dúvidas, bastava pensar na Pebble para perceber que há gente séria neste ramo.

O Pebble, o primeiro relógio inteligente da empresa, foi bem recebido pela comunidade e também pela crítica especializada. Foi aí que todos perceberam que o smartphone andava a ocupar demasiado tempo nas nossas vidas e que isso podia ser gerido com a ajuda de um relógio inteligente.

Pebble smartwatch

A primeira versão do Pebble. #Crédito: Pebble

Interface simples, integração com os principais serviços que geram notificações, possibilidade de controlar aplicações do smartphone sem mexer nele, possibilidade de trocar os mostradores do relógio e um preço de 99 dólares para os primeiros early birds.

A Pebble concretizou aquele que é o sonho de qualquer startup na área do hardware. Todos sabiam que a história parecia um conto de fadas, mas que seria a vida daí para a frente, seria o pós-Kickstarter, que mostraria qual a verdadeira fibra da empresa.

Não há hora marcada para o sucesso

A frase “nunca voltes ao lugar onde já foste feliz” foi completamente desafiada pela Pebble. Ao longo do seu percurso a empresa percebeu que o seu relógio precisava de melhorias e começou a preparar um novo modelo.

A 24 de fevereiro de 2015 a Pebble voltava ao Kickstarter para concretizar o Pebble Time. Na prática era uma versão nova e melhorada do seu próprio conceito de relógio inteligente. Nesta altura vale a pena recordar que já as principais tecnológicas tinham colocado ou estavam prestes a colocar no mercado os seus smartwatches.

Num movimento estratégico, a Pebble adiantou-se inclusive ao muito aguardado Apple Watch. O resultado foi a mais bem sucedida campanha de financiamento colaborativo de sempre.

A 28 de março de 2015 a Pebble tinha conseguido uns estrondosos 20.338.986 de dólares, quase duplicando aquilo que tinha conseguido no primeiro projeto. Conclusão: a Pebble conseguiu de facto convencer o mundo do valor do seu smartwatch e a sua comunidade estava prestes a multiplicar-se.

Com o Pebble Time a empresa estreava um ecrã E-Ink a cores, melhorava a autonomia para 10 dias num dos novos modelos, reformulou o sistema operativo, tornou todo o interface mais animado e user-friendly, e ainda anunciou uma variante do relógio em metal acompanhada de bracelete em pele.

Pebble smartwatch

O Pebble Time apostava na personalização. #Crédito: Pebble

E porque não há duas sem três, em maio de 2016 a tecnológica anunciou novos relógios – Pebble 2 e Pebble Time 2 – e ainda uma nova variante de wearable, chamada de Pebble Core.

Mais 36 dias, mais 12.779.843 de dólares angariados. Neste momento a Pebble consegue ter o impressionante registo de ter três das quatro campanhas do Kickstarter mais bem sucedidas de sempre. A Pebble conseguiu criar um novo segmento de produto sem que para isso tivesse de investir muito dinheiro – esse dinheiro veio dos consumidores, muito antes de terem acesso aos seus smartwatches. Um sinal de confiança na empresa e um sinal de valorização do produto.

Os últimos segundos

Agora que parte da Pebble foi comprada pela Fibit, sabe-se que estes últimos modelos anunciados – Pebble 2, Pebble Time 2 e Pebble Core – já não vão chegar às mãos dos apoiantes. Todo o dinheiro dado durante a campanha será devolvido e as dívidas entre a empresa e os seus clientes ficam saldadas.

“Devido a vários factores, a Pebble já não consegue operar como uma entidade independente. Tomamos a difícil decisão de fechar a empresa e de não fabricar mais dispositivos Pebble”, lê-se na última entrada da empresa no seu blogue oficial. Para o caso de ser um dos apoiantes mais recentes da Pebble, deve usar estas informações para resolver a sua situação.

A Pebble garante que o suporte para os seus dispositivos vai continuar durante mais algum tempo, sem especificar quanto, mas também deixa claro que um dia esse suporte oficial vai terminar.

Foram vendidos mais de dois milhões de Pebble

A Pebble como empresa acabou. A Fibit não comprou a Pebble no sentido em que ficou com tudo. A Fitbit comprou a propriedade intelectual e a vertente de software da Pebble. O hardware está excluído desse processo. A Fibit ofereceu ainda emprego a uma boa parte da equipa da Pebble, justamente aos que trabalhavam no desenvolvimento de software.

A Pebble é uma das mais bonitas histórias tecnológicas dos últimos anos. Nasceu, encantou, cresceu, maturou e definhou. E a forma como desenhou todo este processo, mesmo no momento do seu desaparecimento, foi sempre feito com grande classe. Afinal, estamos a falar de uma empresa que decidiu entrar no mercado da relojoaria. Classe era o requisito mínimo para a sua existência.