O ano de 2016 foi oficialmente o ano do regresso da realidade virtual. Ainda que para muitos este segmento tecnológico só agora esteja a começar, na prática esta acaba por ser a segunda grande vaga da realidade virtual. A primeira aconteceu entre o final da década de 1980 e um pouco ao longo da década de 1990.

As empresas da altura rapidamente perceberam que tanto o hardware como o software não estavam à altura das exigências de uma experiência que se quer imersiva. Seria necessário esperar mais uns anos até que estivessem reunidas as condições tecnológicas para criar experiências de realidade virtual com qualidade.




Como sempre, as grandes tecnológicas foram as primeiras a pôr o pé em ramo verde. Facebook, HTC, Google, Samsung e Sony Interactive Entertainment foram as empresas que, sobretudo no último ano, ajudaram a dar um empurrão crucial ao segmento da realidade virtual.

Os números, ainda longe da ribalta, já mostram uma receção interessante. Os óculos de cartão Google Cardboard já foram expedidos dez milhões de vezes. Os Samsung Gear VR já foram expedidos cinco milhões de vezes. Os PlayStation VR já venderam mais de 900 mil unidades, os HTC Vive 420 mil e os Oculus Rift 240 mil.

À medida que a adoção de equipamentos de realidade virtual vai aumentando, mais programadores e empresas sentem-se confortáveis em experimentar novos produtos e serviços baseados na tecnologia. São exemplos disso a Collide, a Next360 e a Timelooper.

Na semana passada foi a vez de uma marca bem conhecida dos portugueses, o MEO, mostrar que também está interessada na realidade virtual. A PT Portugal disponibilizou uma versão da plataforma MEO Go – que transporta a experiência de televisão para os dispositivos móveis – em realidade virtual. O nome não podia ser mais direto: MEO Go VR.

“Nós acreditamos que a realidade virtual vai ter o seu espaço. (…) O MEO também quis ir à procura, quis estar atento a esta tendência de mercado e criar uma primeira experiência. Queríamos mesmo fazer com a realidade virtual para mostrar as potencialidades do MEO e para começar a explorar a tecnologia, porque acreditamos que os consumidores vão para lá e queremos estar lá presentes. É importante para nós ocupar esse espaço, marcar também presença”.

Foi assim que Jorge Rosa, responsável de desenvolvimento de produto de televisão do MEO, começou por justificar a aposta que a PT Portugal está a fazer na realidade virtual.

Sendo o MEO uma marca que tem um peso importante na área do entretenimento e dos conteúdos, acima de tudo pelo seu serviço de televisão, não é de estranhar que a empresa queira experimentar aquelas que potencialmente serão as grandes tecnologias de entretenimento dos próximos anos. A rival Vodafone Portugal, como já demos conta, também já está a experimentar ambientes de realidade virtual.

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Mas ao contrário da Vodafone, o produto do MEO já está disponível para ser experimentado por todos os utilizadores. A aplicação MEO Go VR está acessível através da Oculus Store para os óculos Samsung Gear VR, mas os utilizadores que não são clientes MEO e não têm estes óculos de realidade virtual podem passar por algumas lojas da marca para ter acesso à experiência.

O conceito da aplicação é bastante simples: dar aos utilizadores uma experiência de televisão diferenciadora e mais imersiva; e ter uma biblioteca com conteúdos imersivos sempre disponível.

Como o vídeo acima mostra, o utilizador é colocado num ambiente digital que replica uma sala de estar. O televisor está dividido em dois: de um lado podemos aceder às transmissões em direto dos canais, do outro podemos aceder à biblioteca de conteúdos em 360º.

O interface da aplicação foi desenvolvido por uma empresa externa, a GEMA Digital

O MEO não é o primeiro operador de telecomunicações a disponibilizar um serviço em realidade virtual, mas reclama para si o facto de ser o primeiro a nível europeu a permitir uma experiência de canais em direto. Além de ser um sinal de inovação que a marca tenta passar para os consumidores, a verdade é que esta ‘pequena’ experiência acaba por permitir à PT Portugal começar a conhecer melhor os meandros da realidade virtual.

“Aprendemos muita coisa. A experiência tradicional de televisão é bastante social hoje em dia, o VR traz-nos um desafio relativamente ao social pois estamos fechados noutro mundo. Mas hoje em dia se pensarmos no MEO Go, a aplicação já é a individualização da experiência [de televisão]. As pessoas estão na sala de estar, mas cada uma com o seu telemóvel”, explicou Jorge Rosa.

MEO Go VR Realidade Virtual Jorge Rosa

Na imagem Jorge Rosa, do MEO, segura os Samsung Gear VR, o único equipamento que atualmente é compatível com a aplicação MEO Go VR. #Crédito: Future Behind

O porta-voz do projeto considera que a realidade virtual vai ser importante para o futuro do entretenimento acima de tudo pela capacidade de teletransportar os utilizadores para ambientes completamente diferentes. “Acredito que uma parte do futuro da televisão vai passar por este tipo de experiência”, defendeu.

Atualmente não há estudos sobre o número de utilizadores de realidade virtual em Portugal e a própria PT Portugal admite ter recorrido a indicadores internacionais para definir a sua aposta. Dos indicadores recolhidos, o ecossistema Samsung Gear VR surgiu como o mais indicado para lançar a experiência MEO Go VR.

Por outro lado, é fácil de perceber que não é o ecossistema que garante um maior grau de distribuição – nesse caso a escolha mais sensata seria a loja do Android. Um cenário que segundo Jorge Rosa está em cima da mesa.

“No futuro poderemos estar noutro tipo de plataformas e de outros serviços. O caminho vai ser este, foi uma primeira experiência para lançar, aprender um bocadinho e agora à medida que o mercado for sistematizando – hoje em dia ainda está muito fragmentado -, nós podemos apostar noutras vertentes. (…) Nós queremos estar onde os nossos clientes estejam. Se os nossos clientes tiverem outro tipo de telemóveis, queremos estar nessas plataformas”.

O MEO aproveitou o facto de ter uma parceria de longa data com a Samsung para acelerar o desenvolvimento deste novo projeto. Em apenas três meses o MEO Go VR passou da fase de desenvolvimento a lançamento na Oculus Store – um período de tempo que deixou inclusive os responsáveis norte-americanos da Samsung surpreendidos. “Para eles nós fizemos a integração em tempo recorde, provavelmente nunca tinham visto uma aplicação tão depressa”, contou Jorge Rosa.

Espreitar o futuro do MEO

Já no final da entrevista com Jorge Rosa experimentámos a aplicação MEO Go VR. O ambiente virtual não é muito trabalhado e é simplista do ponto de vista gráfico. Não existe a opção de trocar ambientes – ainda que essa possibilidade tenha sido considerada – e não há elementos interativos além do televisor.

Nesta primeira fase o foco esteve na reprodução de conteúdos e neste ponto de vista o trabalho está bem executado. A transição entre elementos, como a navegação no menu, é super-rápida e a própria reprodução dos conteúdos em direto é feita de forma célere.

A rapidez é de facto um aspeto importante na realidade virtual pois qualquer latência pode ser o suficiente para estragar a experiência. Jorge Rosa explicou ao FUTURE BEHIND que nas primeiras versões de testes do MEO Go VR houve pessoas que sentiram enjoos, incluindo ele próprio – um ‘efeito secundário’ muito comum em experiências de realidade virtual pouco otimizadas.

“Temos sempre testes internos e externos com utilizadores reais e só depois vamos para o mercado. Houve aqui um trabalho muito grande da equipa de fazer testes e ajustes. Nós tivemos várias versões da sala, com várias disposições, até encontrar os momentos perfeitos, os elementos, a televisão – como afastar e aproximar. Foi um processo que nos ajudou a ter um resultado final que acreditamos que está bom”, explicou o responsável.

MEO Go VR Realidade Virtual

Esta é a sala virtual do MEO Go VR. #Crédito: MEO

Ver televisão em direto no MEO Go VR acabou por ser uma experiência mais interessante do que aquela que levávamos em expectativa. Contávamos com uma forte perda de qualidade de imagem, o que acabou por não se verificar. Os conteúdos não são totalmente polidos, mas têm definição suficiente para que as legendas das séries e filmes sejam visíveis. Mesmo em canais cujos conteúdos são de menor qualidade visual, como a RTP Memória, a experiência de visualização em realidade virtual é aceitável.

Relativamente à biblioteca de conteúdos, o MEO disponibiliza por agora 30 experiências. Não são muitas, é um facto, mas para uma primeira fase também não podemos considerar que sejam poucas, sobretudo se tivermos em conta que as produções em realidade virtual são ainda em baixo número.

SIC, ScyFy e Canal História são alguns dos parceiros que estão a fornecer conteúdos 360º para o MEO Go VR neste momento. O objetivo é, garantiram-nos, alargar a base de conteúdos com o passar dos meses. Mas essa é uma questão que só daqui a algum tempo poderemos verificar ou contestar.

“Já temos um conjunto de parceiros, esses parceiros vão começar a entrar no 360º, na questão do VR e nós vamos aportar nesse valor tal e qual como estamos a fazer nas experiências normais. (…) Acho que à medida que a tecnologia vai amadurecendo, as pessoas vão ganhando competências, vão aparecendo mais conteúdos no mercado”, disse o elemento do MEO.

Além de querer aumentar os conteúdos, a equipa do MEO responsável por este projeto também quer adicionar suporte para o controlador que a mais recente versão dos Gear VR já disponibiliza e quer estudar a possibilidade de tornar o MEO Go VR mais abrangente ao nível das plataformas.

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Gostámos do que vimos, mas também parece claro que o produto já podia ser mais ambicioso. Ainda que a aplicação da Vodafone seja meramente experimental, mas usando-a como termo comparativo, estava mais completa ao nível dos conteúdos, pois já integrava filmes do videoclube e também já permitia ao utilizador ver as fotografias que tinha na galeria do telemóvel. Por outro lado, o produto do MEO ganha claramente ao nível da otimização – e ganha por já estar disponível.

Questionado sobre a possível fusão das tecnologias de realidade virtual e realidade aumentada, Jorge Rosa mostrou-se bastante focado no rumo que as duas tecnologias vão ter ao longo dos próximos anos.

“Nós fazemos bastante trabalho de investigação, temos algumas visões no MEO. Claramente a realidade aumentada conhecemos bem, a parte dos equipamentos. O Pokémon GO trouxe aí o grande boom da realidade aumentada, é uma tecnologia para a qual estamos a olhar e com certeza queremos explorar no futuro”.

“Acreditamos que elas têm utilizações diferentes. A realidade aumentada não tem o problema social que nós temos hoje em dia [com o VR]. Consigo estar aqui, a falar contigo, ter objetos, ter a televisão… têm use cases um pouco diferentes. No futuro eu acho que eles vão ter espaços diferentes”.

Por agora a prioridade do MEO é fazer evoluir o seu produto de realidade virtual. E se houve ideia com a qual ficámos no final da entrevista foi que esta é uma aposta de longo prazo que a empresa quer fazer. A PT Portugal sabe que a realidade virtual vai ter um papel importante no futuro do entretenimento e que aqueles que experimentarem primeiro, vão ter melhores conhecimentos de desenvolvimento no futuro.

O Meo Go VR pode até nem ser esse produto de futuro, mas vai permitir à empresa ganhar experiência para, quem sabe, criar novas experiências imersivas e aumentadas nos próximos tempos.