A expressão é tipicamente brasileira, mas encaixa que nem uma luva no lançamento deste novo iPhone. Em resumo, para a Apple importa acima de tudo não baixar as vendas de smartphones, caso contrário os analistas e investidores responderiam de forma dura. Se tem dúvidas sobre este facto que tantas vezes se repete tenha em conta um elemento importante: é o iPhone mais barato de sempre na fase de lançamento.

Só que o iPhone SE não é apenas um caso de gulosice de Tim Cook e companhia. Os utilizadores ficam a ganhar por ser um iPhone mais acessível e por ter muitas especificações ao mesmo nível do iPhone 6s apresentado em 2015.

Mas todos estranharam este lançamento. E percebe-se porquê. Num relatório de agosto do ano passado a consultora IDC escrevia que o crescimento dos smartphones com ecrãs entre as 5,5 e as 7 polegadas deveria ser acima dos 80% numa evolução anual.

Outra pista de como os smartphones grandes são a tendência de consumo há já largos trimestres. Uma apresentação interna da própria Apple do ano de 2014 foi divulgada aquando do julgamento da marca da maçã contra a Samsung. Nos slides era visível a preocupação da tecnológica de Cupertino relativamente ao perfil dos consumidores que procuravam cada vez mais smartphones acima dos 300 dólares e com tamanhos de ecrã acima das quatro polegadas.

Nessa altura a Apple só tinha telemóveis com quatro polegadas de ecrã, mas isso viria a mudar com a chegada do iPhone 6 e iPhone 6 Plus nesse mesmo ano: o primeiro com ecrã de 4,7 polegadas e o segundo com 5,5 polegadas.

Desta forma a empresa respondia a diferentes interesses dos consumidores. O mercado continuou o seu progresso e os ecrãs de cinco polegadas são o novo standard mínimo.

De acordo com o GSMArena, apenas 22 smartphones foram lançados este ano com ecrãs abaixo das cinco polegadas de um total de 139 novos modelos que já chegaram ao mercado.

E eis que em pleno ano de 2016 a Apple decide inverter a tendência e voltar novamente às quatro polegadas. Em março foi apresentado o iPhone SE, referência para iPhone Special Edition.

“Os nossos iPhone de quatro polegadas são uma parte importante do nosso alinhamento. No ano passado vendemos mais de 30 milhões de iPhone de quatro polegadas”, disse o vice-presidente de marketing de produto da Apple, Greg Joswiak, durante o evento de 21 de março.

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E porque estão as pessoas a comprar iPhone de quatro polegadas? A Apple diz que existem duas razões:

1) Algumas pessoas simplesmente gostam de telemóveis mais pequenos. Querem um bom equipamento, mas num tamanho compacto. A Sony Mobile, por exemplo, há muito que faz questão de acompanhar o Xperia topo de gama por uma versão igualmente potente, mas inferior em tamanho.

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Tradução: “Algumas pessoas gostam de telemóveis mais pequenos

2) Para muitos clientes o iPhone de quatro polegadas é o seu primeiro iPhone. Sobretudo na China que é um dos maiores mercados do mundo de smartphones e agora uma parte importante nas receitas da Apple.

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Quase metade dos novos utilizadores do iPhone começam por um modelo de quatro polegadas

A questão aqui é: o sucesso da Apple na última década prendeu-se com o facto de a tecnológica lançar para o mercado produtos que as pessoas nem sequer sabiam que queriam. Recordando Steve Jobs: “Muitas das vezes, as pessoas não sabem o que querem até que lhes seja mostrado”.

O sucesso é instantâneo sobretudo se os produtos funcionarem bem: iPod, iPhone e iPad seguem esta lógica.

Quando a Apple parece correr atrás do prejuízo de certa forma não existe um furor tão grande nos clientes. O Apple Watch é um bom exemplo, ainda que seja número um de vendas a nível mundial. O iPad Pro é outro caso, ainda que não sejam conhecidos números específicos. Mas nenhum dos dois é no presente ou no futuro o próximo grande produto da Apple.

Ao voltar ao iPhone de quatro polegadas a tecnológica parece estar a responder ao que o mercado quer e não a apresentar algo novo que vá mexer novamente com o consumo de gadgets. Não há mal nesta estratégia, mas prende-se claramente mais com uma questão financeira do que com inovação tecnológica.

Quem ganha invariavelmente são os consumidores. O iPhone SE é bom. É tão bom como o iPhone 6s ao nível das especificações possíveis.

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Com um preço de 499 euros para a versão de 16GB, este é o iPhone mais barato de sempre numa fase inicial de lançamento. É o novo iPhone mais acessível que a Apple alguma vez disponibilizou e se isso não é sinónimo de tentar cativar mais e novos consumidores, estamos abertos a outras sugestões.

O uso do mesmo chassis dos iPhone 5 e iPhone 5s também é mais um sinal estranho vindo dos lados de Cupertino. Numa altura em que Jony Ive tem andado desaparecido e assumiu uma posição mais administrativa na tecnológica, a Apple apresenta um smartphone com um desenho que tem três anos. É um conceito vencedor como as vendas ao longo dos trimestres foram provando, mas mostra que a Apple não quis apostar tudo neste equipamento.

Têm circulado números não oficiais em alguns artigos na Internet, como neste da Seeking Alpha, que dizem que o iPhone SE nos seus primeiros dez dias vendeu um milhão de unidades – um valor muito abaixo do que tem acontecido com os lançamentos dos iPhone mais recentes. Além de este não ser o topo de gama da Apple, a marca da maçã fê-lo para preencher a sua oferta comercial e não para torná-lo no iPhone mais popular de sempre.

O iPhone SE coloca em causa alguns pontos estratégicos que a Apple construiu ao longo dos últimos anos, mas se no final os consumidores ficam a ganhar, se a Apple vender mais iPhone, será que alguém pode apontar o dedo à marca da maçã?