Nem nos seus pensamentos mais loucos o britânico Ebon Upton pensou que de alguma forma estaria a iniciar uma mini-revolução informática quando desenvolveu o conceito do Raspberry Pi: um computador que cabia na palma da mão e que custava sensivelmente 40 euros.

O Raspberry Pi era apenas uma estrutura muito básica de um computador e nem sequer trazia de origem componentes importantes como o alimentador energético, ligação Wi-Fi, teclado ou rato. Mas isso não impediu o microcomputador de ganhar o coração de aspirantes tecnológicos e também de veteranos da informática.



“Quando começámos o Raspberry Pi, tínhamos um objetivo simples: aumentar o número de candidatos para estudarem Ciências da Computação em Cambridge (Reino Unido). Ao colocarmos computadores baratos e programáveis nas mãos dos jovens, esperávamos que pudéssemos reviver de alguma forma o sentimento de excitação que tivemos na década de 1980”, escreve o fundador do Raspberry Pi numa publicação no blogue da fundação.Raspberry Pi Logo

Símbolo do Raspberry Pi. O ‘Pi’ é uma referência à linguagem Python, uma das primeiras a ser suportada pelo sistema

Ebon Upton confessa que esperava vender algumas dezenas de milhares de unidades do Raspberry Pi ao longo da sua vida. Diz que não havia qualquer expectativa de sucesso comercial e muito menos expectativas de que passados quatro anos e meio depois estariam a fabricar as tais dezenas de milhares de unidades do microcomputador, mas por dia. Unidades essas que são enviadas para todo o mundo.

Por isso é que a recetividade e o sucesso muito acima do expectável levam Ebon Upton a dizer que é uma “sensação estranha” anunciar a venda e o marco histórico de 10 milhões de computadores Raspberry Pi.

O percurso

Em agosto de 2001 o Raspberry Pi já mexia. Na altura ainda apenas como um protótipo e prova de conceito. Ebon Upton e os restantes elementos que estavam a apoiá-lo no desenvolvimento do Raspberry Pi decidiram fabricar 50 unidades do microcontrolador – na altura com um tamanho maior – para mostrarem as potencialidades que um equipamento podia ter nas mãos das pessoas certas.

Passados alguns meses, em janeiro de 2002, foram colocadas 10 unidades do Raspberry Pi à venda no eBay. Foi o iniciar de uma euforia em torno do conceito. Cada unidade estava a ser comercializada pelo equivalente a 250 euros. O modelo número um foi leiloado na mesma plataforma e conseguiu sozinho valer mais de 4.000 euros.

Esta dezena inicial deu à organização receitas de quase 19 mil euros, valor importantíssimo para que o desenvolvimento e a produção mais massificada do computador pudessem ser concretizados.
Desde então o Raspberry Pi dividiu-se sobretudo em três modelos: o modelo B a custar 35 euros, o modelo A a custar 25 euros e mais recentemente o modelo Zero que custa apenas cinco euros. Cada versão tem diferentes características e com o passar dos anos foram evoluindo tecnologicamente.

Por exemplo, o Raspberry Pi B original tinha processador único com uma velocidade de relógio de 700 Mhz, 512 MB de memória RAM e duas portas USB. A versão mais recente do computador, o Raspberry Pi 3 B já tem processador de quatro núcleos a 1,2Ghz, 1GB de RAM e quatro portas USB.

Raspberry Pi 3 BNa imagem o RaspBerry Pi 3 B, a versão mais recente do microcomputador

Devido ao sucesso do Raspberry Pi surgiram muitos outros projetos semelhantes, alguns dentro do mesmo segmento – como o Intel Curie ou o Omega 2-, outros mais especializados e com abordagens diferentes – como o português BITalino.

Mas quem tem contacto com a comunidade de programadores e também de fazedores sabe que é o Raspberry Pi quem continua a estar no centro das atenções da comunidade criativa. A força dos projetos ‘faça você mesmo’ foi imperativo para que o Raspberry Pi ganhasse o músculo suficiente para que pudesse concretizar o seu ‘sonho’ de converter desde cedo os jovens para a tecnologia.

Uma nova etapa

Para comemorar as dez milhões de unidades expedidas para todo o mundo a Raspberry Pi Fountation decidiu criar uma nova versão do microcomputador. Desta vez o foco não está tanto na placa eletrónica, mas antes no ecossistema que a acompanha.

O Raspberry Pi Starter Kit vai custar 99 libras sem impostos – o que poderá representar um preço final a rondar os 140 euros em Portugal – e inclui um Raspberry Pi 3 B, cartão microSD de 8GB com sistema operativo NOOBS, um rato, um teclado, uma fonte de alimentação, um cabo HDMI, uma caixa para o microcomputador e ainda um livro que ajudará as pessoas a iniciarem-se com apoio no mundo da programação com o microcomputador.

Raspberry Pi Starter Kit

O ecossistema recebeu uma enorme injeção de reconhecimento quando a Microsoft disponibilizou uma versão do Windows 10 específica para o microcomputador

Este parece ser de facto o passo definitivo que a Raspberry Pi Foundation precisava de dar para tornar o seu projeto num ponto de entrada acessível para todas as pessoas. Apesar de sempre o ter sido na questão do preço e na acessibilidade ao Raspberry Pi, a falta de vários componentes de origem acaba por funcionar como uma barreira.

Há várias pessoas que preferem ter uma solução ‘chave na mão’ a terem de comprar diferentes módulos e peças para conseguirem ter o computador a funcionar. O facto de o Starter Kit vir com um sistema operativo instalado de origem e trazer um livro de apoio pode de facto tornar o Raspberry Pi mais interessante ainda para mais pessoas.

Depois se quiser ter mais por onde continuar a aprender, deixamos aqui uma sugestão: na plataforma Instructables consegue encontrar dezenas de projetos baseados no microcomputador britânico.